Brasil

Ruim dentro de campo, ainda pior nos bastidores: CBF e Seleção vive um dos anos mais terríveis da história

Enquanto a Seleção faz a sua pior campanha na história das Eliminatórias, CBF acaba ano com presidente deposto

Nas arquibancadas do Maracanã, uma briga generalizada com torcedores argentinos. Em campo, uma derrota por 1 a 0 para a Argentina – a primeira em casa na história das Eliminatórias, a terceira seguida nesta temporada. A última impressão deixada pela seleção brasileira em 2023 parece a pior possível. Mas acredite: não é. Nos bastidores, a CBF consegue viver uma crise ainda mais severa, com o presidente Ednaldo Rodrigues deposto por decisão da Justiça.

Os sinais de que 2023 é um dos anos mais terríveis para a Seleção e para a entidade vêm de todos os lados. A CBF encerra o ano com um mandatário interino no comando e com uma carta da Fifa alertando que virá ao país para acompanhar de perto as próximas eleições para presidente. O Brasil, por sua vez, fecha a temporada em sua pior colocação no ranking da Fifa desde 2016 e com sua pior campanha na história nas Eliminatórias.

Seleção vive um dos piores anos de sua história

O Brasil encerra 2023 na zona de classificação para a Copa do Mundo de 2026. Mas isso só acontece porque Eliminatórias da Conmebol destinam seis vagas diretas ao Mundial, além de uma vaga de repescagem. Em outras palavras: é impossível que a Seleção não dispute a próxima Copa. Mas apesar disso, todos os resultados mostram que a equipe de Fernando Diniz tem se esforçado para conseguir o impossível.

Isso, porque a Seleção coleciona marcas e recordes negativos nesta temporada. A atual quinta colocação no ranking da Fifa – a pior marca desde agosto de 2016 – é apenas um sintoma disso.

Na última Data Fifa, o Brasil sofreu sua primeira derrota em casa e também a primeira derrota para a Colômbia na história das Eliminatórias da Copa do Mundo. A seleção brasileira nunca havia perdido duas partidas seguidas na competição. A marca atual é de três derrotas seguidas.

As marcas negativas vão bem além da última Data Fifa. Em outubro, o Brasil perdeu por 2 a 1 para o Uruguai no Estádio Centenário, em Montevidéu. Foi a sua primeira derrota pelas Eliminatórias em 37 jogos, desde 2015, e a primeira derrota para a Celeste em 22 anos. Na partida, anterior, um empate com a Venezuela em Cuiabá, na segunda vez na história que a Seleção não venceu os venezuelanos.

As marcas negativas do Brasil em 2023:

  • pior posição no ranking da Fifa em mais de sete anos;
  • três derrotas seguidas pela primeira vez na história das Eliminatórias;
  • perdeu em casa pela primeira vez na história das Eliminatórias;
  • derrota para a Colômbia pela primeira vez na história das Eliminatórias;
  • derrota para o Uruguai pela primeira vez em 22 anos;
  • derrota nas Eliminatórias pela primeira vez em oito anos;
  • pior campanha na história das Eliminatórias;
  • quarto pior aproveitamento entre as seleções que jogaram a Copa de 2022;
  • já sofreu mais gols nestas Eliminatórias do que nos 17 jogos da anterior.

Com tudo isso, a seleção brasileira faz a sua pior campanha na história das Eliminatórias. Inclusive, com mais gols sofridos em seis jogos, do que em todas as 17 partidas nas Eliminatórias anteriores. Mas os resultados negativos não começaram com Fernando Diniz. Antes do treinador e sob o comando de Ramon Menezes (este, sim, interino oficialmente), a Seleção já vinha de duas derrotas e uma vitória em três amistosos.

Por tudo isso, o Brasil tem o quarto pior aproveitamento em 2023 entre todas as 32 seleções que disputaram a última Copa do Mundo. Em nove jogos, são cinco derrotas, um empate e apenas três vitórias, com um aproveitamento total de 37%.

E CBF consegue ser ainda mais caótica nos bastidores

As últimas notícias dos bastidores da CBF conseguem ser ainda mais nefastos, com um futuro bastante nebuloso pela frente. Isso, porque o presidente Ednaldo Rodrigues acaba de ser deposto do cargo, sem margem para retorno.  Em decisão no última dia 13, o Superior Tribunal de Justiça (STJ)  negou o recurso protocolado pelo agora ex-mandatário para tentar derrubar a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RS) que o afastou da presidência da entidade.

Com isso, a CBF segue sob o comando interino de José Perdiz, presidente licenciado do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por 30 dias. Ele será responsável por conduzir novas eleições em janeiro. Enquanto as articulações políticas ocorrem, com correntes de federações que apoiam Ednaldo e outras que são opositoras, a Fifa estará no Brasil para acompanhar todo o processo de perto.

Este é o tamanho do descrédito da entidade no cenário internacional. A CBF, de tão bagunçada e caótica, terá de ser supervisionada e vistoriada antes de de decidir seu novo presidente. Não há autonomia, nem confiança para isso.

9 comandantes e uma barca furada: essa é a CBF desde 2012
Com a destituição de Ednaldo Rodrigues e a nomeação de novo interventor, CBF teve nove presidentes em 11 anos, desde a saída de Ricardo Teixeira (Foto: Rafael Ribeiro / CBF)

Entenda o caso

O Tribunal de Justiça decidiu destituir o mandatário do cargo por entender que um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a CBF e o Ministério Público do Rio de Janeiro, em março de 2022, é ilegal. O documento, assinado pelo próprio Ednaldo Rodrigues, foi o que permitiu que fosse realizada a eleição que o colocou na presidência da entidade, com um mandato de quatro anos. Mas o imbróglio judiciário é bem mais antigo do que isso e começa em 2017. No plenário, a destituição foi aprovada por três votos a  zero. Os desembargadores Mauro Martins e Mafalda Luchese acompanharam o voto do relator Gabriel Zéfiro.

O processo judicial foi aberto em 2018, após o Ministério Público questionar uma Assembleia Geral da CBF que mudou as regras para as eleições na entidade, à época sob o comando de Marco Polo Del Nero. O MP contestou a mudança porque ela ocorreu sem a participação dos clubes na tomada de decisão.

Sob o novo regimento eleitoral, Rogério Caboclo foi eleito presidente da CBF para um mandato de quatro anos, desde abril de 2019 até abril de 2023. Em 2021, o ex-mandatário foi afastado do cargo por conta de denúncias de assédio sexual. A Justiça decidiu anular a eleição e nomeou o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro, e o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, como interventores.

Esta decisão acabou sendo anulada pelo Tribunal meses mais tarde. Em agosto daquele ano, os vice-presidentes da CBF nomearam Ednaldo Rodrigues como presidente interino até a conclusão do mandato de Caboclo, em abril de 2023. Em do ano passado, o agora presidente deposto assinou um TAC com o Ministério Público do Rio de Janeiro para extinguir a ação na Justiça contra a CBF.

Foi graças a esse termo e às novas regras, que Ednaldo foi candidato único na eleição e acabou eleito presidente da CBF em 2022, para um mandato de quatro anos. A alegação do Tribunal de Justiça é que Ednaldo não poderia assinar o TAC na condição de interino, porque ele poderia se beneficiar do acordo.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
Botão Voltar ao topo