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Em mais uma derrota, Ednaldo Rodrigues tem recurso no STJ negado e segue afastado da presidência da CBF

STJ mantém afastamento de Ednaldo Rodrigues, e CBF segue sob presidência interina de José Perdiz

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou nesta quarta-feira (13) o pedido de recurso protocolado por Ednaldo Rodrigues para tentar derrubar a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RS) que o afastou da presidência da CBF. Com isso, a entidade segue sob o comando interino de José Perdiz, presidente licenciado do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por 30 dias. A informação foi publicada pelo Jornal O Globo e confirmada pela Trivela.

A responsável por julgar o recurso foi a presidente do STJ, Maria Thereza de Assis Moura. Nesta quarta-feira, pela manhã, a última atualização do processo era “pedido não conhecido”, ainda sem detalhes da fundamentação para negar o pleito de Ednaldo Rodrigues e seus advogados.

O Tribunal de Justiça decidiu destituir o mandatário do cargo por entender que um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a CBF e o Ministério Público do Rio de Janeiro, em março de 2022, é ilegal. O documento, assinado pelo próprio Ednaldo Rodrigues, foi o que permitiu que fosse realizada a eleição que o colocou na presidência da entidade, com um mandato de quatro anos. Mas o imbróglio judiciário é bem mais antigo do que isso e começa em 2017. No plenário, a destituição foi aprovada por três votos a  zero. Os desembargadores Mauro Martins e Mafalda Luchese acompanharam o voto do relator Gabriel Zéfiro.

Entenda o caso

O processo judicial foi aberto em 2018, após o Ministério Público questionar uma Assembleia Geral da CBF que mudou as regras para as eleições na entidade, à época sob o comando de Marco Polo Del Nero. O MP contestou a mudança porque ela ocorreu sem a participação dos clubes na tomada de decisão.

Sob o novo regimento eleitoral, Rogério Caboclo foi eleito presidente da CBF para um mandato de quatro anos, desde abril de 2019 até abril de 2023. Em 2021, o ex-mandatário foi afastado do cargo por conta de denúncias de assédio sexual. A Justiça decidiu anular a eleição e nomeou o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro, e o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, como interventores.

Esta decisão acabou sendo anulada pelo Tribunal meses mais tarde. Em agosto daquele ano, os vice-presidentes da CBF nomearam Ednaldo Rodrigues como presidente interino até a conclusão do mandato de Caboclo, em abril de 2023. Em do ano passado, o agora presidente deposto assinou um TAC com o Ministério Público do Rio de Janeiro para extinguir a ação na Justiça contra a CBF.

Foi graças a esse termo e às novas regras, que Ednaldo foi candidato único na eleição e acabou eleito presidente da CBF em 2022, para um mandato de quatro anos. A alegação do Tribunal de Justiça é que Ednaldo não poderia assinar o TAC na condição de interino, porque ele poderia se beneficiar do acordo. A CBF irá recorrer da decisão na Justiça.

9 comandantes e uma barca furada: essa é a CBF desde 2012
Com a destituição de Ednaldo Rodrigues e a nomeação de novo interventor, CBF teve nove presidentes em 11 anos, desde a saída de Ricardo Teixeira (Foto: Rafael Ribeiro / CBF)

Presidente deposto em momento que a oposição renasce

A decisão ocorre justamente em um momento em que opositores a Ednaldo Rodrigues se articulam para tentar tirá-lo do poder. Esta, aliás, é a primeira vez que a oposição faz um movimento mais forte neste sentido. Mesmo banidos pela Fifa, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira agem nos bastidores para juntar provas que apontariam gastos excessivos e questionamentos de decisões administrativas na atual gestão.

O que não deixa de ser irônico, dado o histórico de denúncias contra os dois ex-presidentes da CBF. Mandatário entre 2015 a dezembro de 2017, Del Nero foi banido do futebol pela Fifa por receber propina em troca de vantagens em contratos de direitos de televisão. Mesmo assim, ele lançou uma campanha para derrubar Ednaldo em um texto publicado na última quinta-feira (30) no portal Uol, em que ele também disse estar preocupado com os rumos financeiros da entidade.

Del Nero citou um suposto déficit de R$ 400 milhões da “gestão precária, temerária e dissociada da realidade” e ainda teve a coragem de afirmar que escreveu o texto por ser “torcedor e entusiasta do potencial do futebol brasileiro”. O ex-presidente ainda falou em “gastos descontrolados, receitas em queda e contratos renegociados de forma absurda para valores inferiores aos praticados atualmente”, mas em nenhum momento citou qualquer fonte para bancar as declarações.

Em dezembro de 2015, Marco Polo Del Nero foi indiciado pela Justiça dos Estados Unidos na operação Fifagate, que investigava esquemas de corrupção de dirigentes ligados ao futebol. Na eclosão do caso, mandados de prisão foram emitidos e cumpridos na Suíça, onde estava o ex-mandatário para um congresso da Fifa. O brasileiro conseguiu deixar o país antes de ser detido pelas autoridades.

Outro ex-presidente da CBF, José Maria Marin não teve a mesma sorte, foi detido em Nova York condenado por organização criminosa, fraude financeira e lavagem de dinheiro. Em depoimento à corte americana, o advogado de Marin incriminou Del Nero e o identificou como o chefe do esquema de corrupção da entidade brasileira.

Mesmo depois de ser indiciado, Del Nero seguiu no comando da CBF por mais dois anos e se manteve em solo brasileiro para se esquivar do FBI. No sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2018, realizado no início de dezembro do ano anterior na Rússia, o Brasil foi o único participante do torneio que não contou com a presença do presidente da sua federação. No mesmo mês, ele acabaria suspenso preventivamente pela Fifa e entregaria o cargo nas mãos do Coronel Nunes.

Mesmo cumprindo suspensão, ele orquestrou a eleição de Rogério Caboclo, que assumiria o comando da CBF em abril de 2019 e ali permaneceria até junho de 2021, quando foi afastado da presidência por ter sido denunciado por assédio moral e sexual.

Em abril de 2018, a Fifa baniu Del Nero do esporte, alegando que o dirigente do Palmeiras no começo da década de 1970 concedeu contratos de direitos de transmissão e marketing de torneios de futebol, incluindo Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil, em troca de suborno. A investigação da entidade máxima do futebol mundial declarou-o culpado de suborno e corrupção, oferecer e aceitar presentes e outros benefícios, conflitos de interesses, quebra de lealdade e regras gerais de conduta.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.
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