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Se é pra tombar, tombou: Rogério Caboclo é afastado da presidência da CBF em meio a caos nos bastidores

Conselho de Ética da CBF afasta Caboclo por 30 dias, depois de denúncia de assédio moral e sexual; Antonio Nunes, vice mais velho, assume interinamente

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, foi afastado pelo Conselho de Ética da entidade por um período inicial de 30 dias. A decisão foi tomada neste domingo, de forma excepcional, depois de denúncia de assédio sexual e moral contra o dirigente por uma funcionária. O vice-presidente mais velho, Antônio Nunes, assume o cargo durante o afastamento.

Caboclo era pressionado por todos os lados para tomar a iniciativa de se afastar. Os jogadores e comissão técnica da seleção brasileira estavam insatisfeitos com o dirigente há algum tempo, mas as coisas pioraram quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa América. O torneio seria na Colômbia e na Argentina, mas os colombianos tiveram que desistir pelo caos social e a pandemia. Os argentinos, dias depois, também desistiram pelo agravamento da pandemia.

Dentro da seleção brasileira que treinava para as partidas das Eliminatórias da Copa, acreditavam que o torneio seria cancelado. Se surpreenderam quando o Brasil foi anunciado como sede. Já havia uma sensação estranha quando foi revelado que a CBF procurou por Xavi para ser auxiliar de Tite, e que iria sucedê-lo após a Copa 2022. Algo que não fez muito sentido.

Em sua coletiva de imprensa antes do jogo contra o Equador, Tite deixou clara a insatisfação dentro da seleção brasileira com a situação. Contou que disse ao presidente junto a Juninho qual era a sua posição em relação a isso. Os jogadores, em reunião posterior, também se posicionaram. O técnico disse que tanto comissão técnica quanto jogadores se manifestariam publicamente depois do jogo contra o Paraguai, nesta terça-feira, em Assunção.

Depois da vitória do Brasil sobre o Equador, o jogo ficou de lado e o que chamou a atenção foi a declaração do capitão Casemiro. Ele deixou claro que os jogadores tinham uma posição e que a tornariam pública depois do jogo contra o Paraguai.

Caboclo não dobrava diante das pressões. Chegou até a ir ao vestiário da seleção brasileira antes do jogo contra o Equador e constrangeu os jogadores, sendo até cortado por Neymar. Em meados de maio, o presidente da CBF já tinha que enfrentar um imenso problema com o que foi chamado, no dia 12 de maio, de “um desgaste com uma funcionária da CBF”.

Diante da crise, Caboclo estava isolado na CBF. Por todos os lados, Caboclo recebia pressões: diretores da própria CBF, patrocinadores, Tite, jogadores da seleção e até da Conmebol e da Fifa, indiretamente. Patrocinadores da seleção brasileira também se manifestaram preocupados com a situação. Até mesmo a sua família e advogados o aconselhavam a deixar o cargo. Ele, porém, resistia. O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, aconselhou Caboclo a se afastar. O diretor de Governança e Conformidade também. Caboclo não ouviu. Assim, foi afastado temporariamente neste domingo.

A Conmebol se preocupou e fez uma reunião com o presidente da CBF e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O governo brasileiro garantiu apoio à realização da Copa América, algo que o repórter Martín Fernández publicou. Contra a parede, Rogério Caboclo tentou uma última cartada: ofereceu ao presidente Jair Bolsonaro a cabeça de Tite, muito criticado por apoiadores do governo por sua posição. Contrataria, assim, Renato Portaluppi, notório apoiador de Bolsonaro. A informação foi trazida por André Rizek, no ge.globo. Nem isso o segurou no cargo. O Conselho de Ética tomou a sua decisão neste domingo.

A informação de Ancelmo Gois, d’O Globo, é que Caboclo iria demitir a diretoria da CBF nesta segunda-feira. Segundo o colunista, a ideia do presidente da CBF era demitir os “traidores”. Com isso, o Conselho de Ética acelerou um processo que parecia inevitável do afastamento do dirigente, como ele tinha sido aconselhado a fazer não quis seguir.

Com o afastamento de Caboclo, resta saber como ficará o poder na CBF. Antônio Nunes assume o cargo, mas uma vez que o afastamento se torne definitivo, o que parece inevitável, há um prazo de 30 dias para convocação de novas eleições para um mandato tampão, que completaria a gestão para qual Caboclo foi eleito. O mandato vai até 2023. Nesta eleição, só vice-presidentes podem participar. Um nome muito falado é de Castellar Neto, ex-presidente da Federação Mineira. Ele é o vice mais jovem da CBF, com 38 anos. O afastamento de Caboclo, porém, pode abrir uma nova disputa de poder na entidade. Será preciso ver o que virá dos próximos capítulos.

O “homem do compliance” só mostrou incompetência

Rogério Caboclo, presidente da CBF (Foto: Getty Images)

Rogério Caboclo se elegeu presidente da CBF em 2018. Na época, explicamos como a entrada do dirigente representava “uma mudança para que continua tudo como está”. Marco Pólo Del Nero, o presidente afastado da entidade, antecipou as eleições para que Caboclo levasse. Foi quase uma unanimidade: apenas três clubes não votaram nele: Athletico Paranaense, que nem mandou representante para a reunião; Corinthians, que votou em branco; e Flamengo, que se absteve de votar.

Isso tudo em uma eleição que tinha sido arranjada para não dar poder aos clubes. Diante de uma mudança de legislação que obrigava a participação dos clubes, a CBF deu um jeitinho: fez uma reunião de emergência com as federações, que aprovaram dar pesos maiores a elas mesmas e menores aos clubes. Assim, os votos das federações estaduais continuavam tendo o maior peso eleitoral. Para isso, a CBF financiou com alguns milhões a mais de auxílio da entidade e ainda bancou a viagem de 27 presidentes de federações estaduais e mais 10 presidentes de clubes à Copa do Mundo da Rússia. Uma verdadeira mamata da CBF. Isso era abril de 2018. Como escrevemos na época:

Caboclo ficou conhecido entre os presidentes de federações estaduais como “o homem do compliance”, por ser alguém que manteria uma gestão para impedir gastos, em tese, desnecessários. Ou seja: não é alguém da política dos clubes, é alguém que chega ao principal cargo do futebol brasileiro com o verniz de gestor, não de político. Mesmo sendo um cargo político. Você já viu isso em outros lugares, não é mesmo?

Foi justamente a falta de habilidade política que começou a minar Caboclo na CBF. Sua falta de trato com funcionários, clubes e a falta de habilidade de se articular com todas as partes envolvidas o colocou em xeque. O vídeo de uma reunião do presidente da CBF com presidentes de clubes, no dia 10 de março, vazou e mostrava um comportamento bastante agressivo do mandatário. “Eu vou mandar no futebol brasileiro e vou determinar que vai ter competição. Porque vocês estão foder se não tiver. Eu assumo o ônus por todos vocês”, disse Caboclo, na reunião.

O homem do compliance mostrava ser pouco afeito à política que precisava para exercer o cargo. Isso, somando ao comportamento inadequado, como descrito inicialmente, passou a pesar. A denúncia de assédio sexual e moral da funcionária da CBF que o ge.globo revelou é estarrecedora.

Vale lembrar uma frase que Caboclo disse quando assumiu o cargo: “Nossa gestão será marcada por dois pilares: eficiência e integridade, dos quais decorrerão todos os demais”. Não é o que tem aparecido na sua gestão. A incompetência, ou talvez o cinismo, é uma marca dessa gestão. Primeiro, fez uma mudança de escudo, como se isso apagasse o passado. Ainda em junho de 2019, antes da pandemia de COVID-19, o então presidente anunciou que o futebol brasileiro não iria parar durante a Copa América.

O cinismo continuou. Em outubro de 2019, a CBF anunciou o calendário alegando que respeitaria as datas Fifa, o que mostramos que era uma mentira. Isso se repetiu no ano seguinte. O calendário de 2021 divulgado pela CBF em agosto de 2021 foi um símbolo descarado do cinismo da entidade. Em maio, em meio à crise da CBF, falamos sobre isso no podcast Trivela, na Central 3.

Sua decisão de trazer a Copa América para o Brasil, em meio a tantos problemas, foi apenas a mais recente de diversas decisões questionáveis de Rogério Caboclo. A Copa América sequer deveria acontecer, com ou sem pandemia. Ela acontecer quando o Brasil e a América do Sul vive uma crise sanitária grave é um escárnio da Conmebol, da CBF e também do governo brasileiro, que quis usar esse trunfo para dar ares de normalidade a um país assolado por mortes aos milhares por dia.

Resta saber quais serão os próximos passos diante de uma situação em crise. Qual será o posicionamento dos jogadores da seleção brasileira, agora com o afastamento de Rogério Caboclo? Irão jogar a Copa América? Se não forem jogar, a Copa América será mantida? São questões, por enquanto, ainda sem resposta.

 

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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