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De Jobson a Cristiano Ronaldo: por que a Liga Saudita mudou tanto em 10 anos

Em 2013, futebol saudita tirava jogadores que eram destaque do futebol brasileiro; dez anos depois, os sauditas atacam estrelas da Europa

Perder jogadores para a Arábia Saudita não é novidade, especialmente no futebol brasileiro. Em 2023, Cristiano Ronaldo foi o primeiro a chocar o mundo saindo da Europa para a Arábia Saudita, ainda em janeiro, seguido por Karim Benzema, N’Golo Kanté, Marcelo Brozovic, Rúben Neves, Sergej Milinkovic-Savic e outros. Estrelas internacionais, que fazem inclusive muito clube europeu (e sul-americano) ficar com medo desse caminhão de dinheiro tirar jogadores seus (alô, europeus, viram como é bom?).

Há 10 anos, os sauditas também levavam jogadores, mas era completamente diferente.

Em 2013, o mundo era outro. A empolgação tomava conta da seleção brasileira com a ilusória conquista da Copa das Confederações contra a Espanha. Fora de campo, o clima era agitado e havia quem tivesse esperança que os protestos de junho daquele ano mudariam o país (algo que pede “Padrão Fifa” em educação e saúde jamais poderia dar certo). No futebol, a Arábia Saudita também causava algumas ondas no Brasil e na América do Sul, mas não na Europa.

O mercado de transferências de 2013 teve nomes relevantes do futebol brasileiro fazendo as malas para jogar na Arábia Saudita. Nomes como Jobson, Thiago Neves e Fernando Baiano trocavam o futebol brasileiro e partiam para o Oriente Médio. Por isso, fazemos uma viagem no tempo para olhar o que aconteceu naquela janela de meio de ano na Arábia Saudita, em comparação com o que acontece neste 2023, com a onda saudita arrastando estrelas europeias.

Al Ittihad: antes de Benzema, Jobson e Fernando Baiano

Fernando Baiano e Jobson quando foram para o AL Ittihad, em 2013 (reprodução)

O Al Ittihad, o clube que desta vez levou Karim Benzema, N’Golo Kanté e Jota (ex-Celtic) e que já tinha Romarinho, que foi estrela do título saudita na temporada 2022/23, fez um pacotão de reforços em 2013. Naquele ano, o clube levou Jobson, atacante do Botafogo, emprestado aos sauditas, Marquinho, ex-Fluminense, que veio por empréstimo da Roma, Fernando Baiano, que estava no São Bernardo e Leandro Bonfim, ex-Vitória, que estava no Audax-RJ.

Jobson vivia um dos seus momentos conturbados na carreira e o empréstimo foi uma forma do Botafogo se livrar do problema por um tempo. Ele passou um ano no Al Ittihad, onde fez 15 jogos e marcou cinco gols. Marquinho jogou por uma temporada no Al Ittihad, com 28 jogos disputados, dois gols e uma assistência. Um ano depois da sua saída do futebol saudita, em 2015, ainda jogou pelo Al Ahli, também da Arábia Saudita.

Fernando Baiano na época já tinha 34 anos, era um veterano com diversas passagens por clubes do exterior. Naquele ano de 2013, disputou o Campeonato Paulista pelo São Bernardo e foi muito bem e marcou 10 gols. A passagem pelo Al Ittihad, porém, não foi um sucesso. Fernando Baiano fez apenas cinco jogos e marcou um gol. Foram apenas seis meses atuando na Arábia Saudita antes de retornar o Brasil para encerrar a carreira em 2014 jogando pelo Mogi Mirim.

Leandro Bonfim surgiu como uma grande promessa no Vitória, foi campeão sul-americano sub-17 pela seleção brasileira e foi vendido ainda muito jovem ao PSV, da Holanda. Jogou também pelo Porto e passou pelo São Paulo, por um curto período. Rodou por diversos clubes brasileiros, como Cruzeiro, Vasco, Fluminense e até o Bahia, rival do seu clube de formação. Jogou o Campeonato Carioca de 2013 pelo Audax-RJ, que fez uma boa campanha. Ficou um ano no Ittihad, onde fez 27 jogos, marcou quatro gols e fez três assistências. Na temporada seguinte, em 2014, se transferiu ao Al Wehda e encerrou a carreira em 2015.

Al Hilal: Thiago Neves foi a grande contratação

Thiago Neves no Al Hilal (divulgação)

A Arábia Saudita levou uma boa leva de jogadores brasileiros. Thiago Neves era uma estrela do Fluminense na época e foi vendido ao poderoso Al Hilal por €6 milhões (em valores corrigidos pela inflação, equivalente a € 7,5 milhões atualmente).

Naquela época, Thiago Neves retornava ao Al Hilal, onde já tinha atuado de 2009 a 2011, depois de deixar o Hamburgo, da Alemanha. Sua saída, em 2011, foi para jogar no Flamengo, onde ficou por um ano, até trocar o rubro-negro pelo tricolor das Laranjeiras. Após um ano e meio no Flu, ele retornou ao clube saudita para sua segunda passagem na Arábia Saudita.

Naquela temporada, 2013/14, Thiago Neves fez 39 jogos pelo Al Hilal, marcou 18 gols e nove assistências. Não conquistou o título naquele ano, mas conquistaria no seguinte, na Copa da Arábia Saudita. Somando as duas passagens, o Al Hilal se tornou um dos clubes mais importantes na carreira de Thiago Neves. Fez 122 jogos, com 59 gols marcados, além de 33 assistências. Conquistou quatro títulos pelo clube: a liga saudita duas vezes, a Copa do Príncipe e a Copa da Arábia Saudita.

Al Shabab: levou o desejado Macnelly Torres

O Al Shabab foi outro que buscou uma estrela da América do Sul. No caso, da Colômbia: o meia Macnelly Torres, que durante muito tempo foi sonho de consumo de muitos clubes brasileiros. Então com 28 anos, o meia deixou o Atlético Nacional por €4,75 milhões (€6 milhões, em valores corrigidos pela inflação). O time também contratou o atacante Rafinha, então no Coritiba.

McNelly Torres jogou 32 partidas pelo Al Shabab, com um gol marcado e sete assistências. Só durou mesmo uma temporada no clube saudita e voltou ao futebol colombiano para defender o Junior Barranquilla. Se aposentou do futebol em 2021, depois de rodar no futebol sul-americano, especialmente na própria Colômbia.

Já Rafinha foi muito melhor: fez 38 jogos, marcou 12 gols e deu cinco assistências, sendo importante na campanha do título da Copa da Arábia Saudita. Ainda conquistaria uma Supercopa da Arábia Saudita e ficou por três anos no clube antes de retornar ao Brasil para defender o Cruzeiro. Jogou ainda pelo Coritiba novamente. Atualmente está com 39 anos, mas sem clube.

Al Hilal: de Márcio Mossoró a Roberto Firmino

Márcio Mossoró no Al Ahli (reprodução)

O Al Hilal, clube que em 2023 levou Roberto Firmino e Edouard Mendy, em 2013 fez uma incursão mais modesta, embora com muito carisma também: Márcio Mossoró, meia que estava no Braga na época, por €35 milhões (€4,4 milhões, em valores corrigidos pela inflação). Era esse tipo de jogador que o futebol saudita tirava da Europa naquela época. O meia fez 33 jogos, marcou oito gols e fez oito assistências. Ele ficou apenas um ano na Arábia Saudita e voltou à Europa para atuar pelo Istambul Basaksehir.

Além de Márcio Mossoró, o Al Ahli também levou outro jogador do futebol europeu: o atacante Suk Hyun-jun, sul-coreano então com 22 anos. Foram 16 jogos, com dois gols e uma assistência. O custo de €3 milhões (€3,75 milhões, em valores atualizados) e não se pagou. Atualmente, o jogador está suspenso após se recusar em prestar o serviço militar obrigatório. Aos 32 anos, ele só poderá voltar a jogar em fevereiro de 2024.

Al Nassr: a maior contratação foi no mercado interno

O Al Nassr, que em 2023 ganhou manchetes no mundo inteiro por ter contratado Cristiano Ronaldo, foi muito mais modesto naquela época. A maior contratação foi de uma transferência interna na própria Arábia Saudita: a chegada do meia Yahya Al-Shehri, então com 23 anos e que custou €9,80 milhões (€12,3 milhões, em valores atualizados). O jogador fez 29 gols naquela temporada e marcou sete gols, além de fazer 10 assistências. Atualmente, joga pelo Al Raed, também da Arábia Saudita, aos 33 anos.

A única transferência internacional feita pelo Al Nassr naquela época foi o desconhecido brasileiro Everton, então com 30 anos, que tinha surgido no Grêmio Barueri e foi vendido ao Heracles Almelo, em 2006. Foi liberado sem custos ao Al Nassr, em 2013, e ficou apenas seis meses. Foram apenas nove jogos, com três gols marcados. Ele deixaria o clube com contrato rescindido em janeiro de 2014.

Governo estatizou quatro clubes da Arábia Saudita

Em junho, o governo saudita anunciou um processo de estatização dos quatro maiores clubes do país. O PIF, Fundo de Investimento Público, do governo saudita, passou a ser dono de 75% dos clubes, com outros 25% pertencentes a uma associação ligada ao clube.

Os clubes estatizados na Arábia Saudita:

  • Al Hilal
  • Al Ahli
  • Al Ittihad
  • Al Nassr

É justamente isso que está por trás dessa onda de dinheiro nos clubes sauditas, contratando diversos jogadores do futebol europeu e com a clara intenção de causar impacto com estrelas. Karim Benzema talvez tenha sido a maior delas, contratado pelo campeão saudita, Al Ittihad. O clube também tem Romarinho, destaque na última temporada, além de ter contratado N’Golo Kanté e o atacante Jota, que estava no Celtic (não confundir com o jogador do Liverpool, que segue por lá).

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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