Menos pressão e novo estilo de vida: Países do sudeste asiático atraem brasileiros no futebol
Atacante Guilherme Bissoli e técnico Maurício Souza falam à Trivela sobre a rotina na região e destacam diferenças e pontos positivos da mudança profissional
A rotina diária de Guilherme Bissoli normalmente é ocupada por fisioterapias, treinos e períodos de descanso, mas em uma quarta-feira ele fez ajustes na agenda para incluir entrevista exclusiva à Trivela por videochamada.
Era 10h30 no horário de Brasília, cerca de 20h30 na província tailandesa Buri Ram, casa do atacante desde janeiro de 2024. “Eu já estava com vontade de sair do Brasil, e o empresário que jogou no Buriram United entrou em contato”, diz ele sobre a mudança.
Quando se fala em transferência internacional, o primeiro pensamento de boa parte dos atletas no Brasil é rumar à Europa. Com o crescimento recente, a liga saudita também entrou no radar. Porém, há possibilidades menos convencionais a se explorar, assim como fez Bissoli.
Países do sudeste asiático têm se tornado atrativos para brasileiros que trabalham no futebol.
Bissoli havia se transferido ao Ceará em julho de 2023 e estava em vias de iniciar a primeira temporada completa na equipe quando recebeu a proposta para trocar o Vozão pelo Buriram United, o clube potência na Tailândia que é o maior campeão nacional com 11 taças e o atual vencedor da competição.
— Sempre que eu pensava neste lado do planeta acabava pensando em Japão, Coreia, China… Na época, fiquei com um pouco de receio porque nunca tinha ouvido nada sobre a Tailândia, mas o empresário me explicou como funcionava, como era o campeonato. Acabou despertando o interesse e deu tudo certo.
Essa parceria já dura mais de um ano e meio e lhe rende números expressivos, como 73 gols e 14 assistências em 95 jogos. No entanto, mais do que o desempenho em campo, proporciona ao camisa 7 outro estilo de vida e uma nova relação com o esporte.
Bissoli comenta semelhanças e diferenças entre a vida no Brasil e na Tailândia
O artilheiro de 27 anos mora com a esposa no pequeno município de menos de 30 mil habitantes, a cerca de 300 km da capital Bangkok. Acostumado com o agito de cidade grande, ele explica o que mais sente o impacto de ser diferente na rotina.
O local é muito frequentado por turistas, mas não tem tantas coisas para fazer no cotidiano. As atividades no clube só se iniciam na parte da tarde devido às altas temperaturas, que podem superar a marca de 30º.
— Os treinos começam em torno de cinco da tarde. Geralmente, na parte da manhã, eu vou ao clube fazer algum complemento, às vezes fisioterapia. Depois, volto para casa e fico até o horário do treino. Umas quatro da tarde costumo chegar lá. O treino acaba por volta de sete da noite. Volto para casa e os dias vão se repetindo — comenta.
Bissoli conta que se adaptar ao ambiente do time ficou mais fácil com o compatriota José Antônio Lera, fisioterapeuta que trabalha no Buriram desde 2016. Outro fator atenuante foi a recepção calorosa.
“O povo tailandês em si é bem parecido com o povo brasileiro“, conta.
— Gosta de conversar, de saber sobre nossa vida, conhecer a cultura, então acabou sendo um pouco mais fácil.
— Isso ajudou a dissipar qualquer possível dúvida sobre a transferência. “Já cheguei a jogar pela Champions League (Asiática) no Japão, na Coréia, e o povo é um pouco mais fechado, mais frio, e aqui acho que o jeito dos tailandeses ajudou na adaptação. Desde o começo, a maioria dos atletas já chegava, conversava e perguntava as coisas, acabou ajudando nessa interação com eles”, ressalta.
Há semelhança também na admiração pelo futebol. “Desde que cheguei, vi que é muito parecido (com o Brasil), só não é muito reconhecido aí no Brasil. Mas aqui, o pessoal valoriza bastante”, reforça o jogador, que também fala das distinções.

Uma das diferenças está no estilo de jogo adotado na Thai League, primeira divisão do país. O atleta, representado pela Khodor Soccer desde os 14 anos, foi revelado no São Paulo e também defendeu Athletico-PR, Cruzeiro e Avaí FC no futebol brasileiro. Bissoli analisa que as partidas são “mais abertas” na competição tailandesa.
— No Brasil, às vezes temos menos oportunidade de finalizar e fazer gol. Acho que aqui é mais valorizado o futebol bem jogado. No Brasil, se pega um adversário mais difícil, muitas vezes você vai fazer lançamento direto e bola longa para não correr o risco de perder uma bola mais próxima do seu gol — inicia ele.
— Teoricamente, fica um jogo mais feio, mas é menos arriscado. Aqui, eles têm a cultura de, independente da dificuldade ou se o outro time é melhor, ter essa qualidade de jogo desde a defesa, forçar o jogo bem jogado… Isso pode resultar em a outra equipe roubar a bola mais próxima do seu gol e você acabar sofrendo o gol, mas é algo da cultura deles.
Outra distinção está nas cobranças. O atacante relembra casos recentes ocorridos no futebol brasileiro de jogadores confrontados por alguns torcedores fora dos gramados, em algumas situações, até ocorreu invasão a centros de treinamentos.
Bissoli destaca que tanto a Tailândia quanto outros países da Ásia têm uma forma singular de tratar atletas de futebol neste sentido. Ele reforça haver pressão por resultados e desempenho, mas, em geral, apenas nas dependências dos estádios.
Tão logo a partida termina, os jogadores mantêm a vida particular sem interferências de torcedores insatisfeitos, por exemplo.
— No supermercado, no restaurante… O pessoal te trata super bem, como fã. Pede para tirar foto ou mandar mensagem para alguém. Independente se ganhar ou perder, o tratamento é o mesmo, diferente do Brasil, principalmente hoje em dia — diz.
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Maurício Souza encontra mais tranquilidade na Indonésia

O técnico Maurício Souza compartilha do mesmo sentimento que Bissoli em relação ao trabalho na Indonésia. Ele já comandou Athletico-PR, Flamengo, Guarani, Vasco e Red Bull Bragantino sub-23 no Brasil, e está em sua segunda passagem pelo futebol indonésio.
O comandante esteve no Madura United por um ano, na temporada 2023/24, e é responsável por treinar o Persija Jakarta desde julho de 2025. Para ele, o ambiente é mais saudável também internamente.
— Futebol é igual a todo lugar: temos que dar resultado. Mas acredito que aqui respeitam muito mais a figura do treinador — declara à Trivela.
Souza opina que o “prazo de validade” de um técnico no futebol brasileiro é curto, com duas ou três derrotas suficientes para causar pressão sobre o comandante. “Entramos em uma ‘vibe’ no Brasil de achar que ninguém presta, que nenhum treinador brasileiro está prestando. Sabemos que não é assim. Temos vários muito capacitados, muito bons, mas se não tiver o comando interno, vai ser sempre nessa loucura”, ressalta.
— Acho que eles entendem um pouco mais o processo que está sendo montado e, antes de mandarem embora o treinador, vão tentar mexer no elenco e ver o que pode ser feito. Os clubes normalmente não são geridos de fora para dentro, como muitos no Brasil são. A imprensa aqui não faz tanta pressão para derrubar treinador como se faz no Brasil. Não para derrubar diretamente, mas sabemos que as falas influenciam, acabam potencializando também a torcida contra o treinador. Aqui, isso não é tão forte. A interferência de fora é muito menor, e isso acaba ajudando nas análises.
De seu apartamento em Jacarta, o carioca explica por videochamada porque decidiu retornar à Indonésia. No Madura United, fez 30 jogos e somou 13 vitórias, nove empates e oito derrotas. O time foi 4º colocado na Liga 1, a principal competição nacional.
Depois de sair do Guarani, em abril, começaram as conversas entre ele e representantes do Persija, onde registra sete vitórias, dois empates e duas derrotas. O técnico afirma que houve sondagens de outros clubes, inclusive do nosso País, mas estava focado em voltar ao Campeonato Indonésio.
Uma das motivações foi a possibilidade de iniciar um trabalho “do zero”, com pré-temporada e projeto bem definido, e mais participação na tomada de decisões. Além disso, pesou a parte financeira, que ele enfatiza ser mais vantajosa.
Há aspectos negativos também. Souza ressalta que os treinadores recebem mais respaldo, podem exercer liderança e se envolvem em todos os assuntos, porém, diz que ainda há certo “amadorismo” em boa parte das instituições.
No entanto, não se arrepende da decisão. Mesmo depois de encarar terremotos, o que ele considera ser o “maior perrengue” de viver na Indonésia.

O país está integra o Círculo de Fogo do Pacífico, maior zona sísmica do mundo. Enquanto comandava o Madura e vivia na região de Pamekasan, que fica a mais de 700 km de Jacarta, Maurício Souza enfrentou um grande abalo e chegou a pensar que morreria.
Recuperado do trauma, ele relembra o momento com serenidade. “Morávamos no 33º andar e tive que descer esses 33 andares de escada. O prédio tremeu muito, muito, muito. Até falei: ‘Acho que vou morrer’, porque tremia demais. Foi bem difícil retornar (ao apartamento depois que o terremoto acabou). Faz rachaduras, cai pedras na varanda, o prédio faz barulho de estar trincando, foi um momento bem difícil”.
— Os prédios são adaptados a esse tipo de tremor, só que você está lá em cima, sentado no sofá, e de repente é jogado para frente e para trás. A luz começa a balançar para lá e para cá… Você fica desesperado. Não sabe se vai cair ou não e sai correndo. Foi um susto. Nós, que não estamos adaptados, sofremos. Foi o primeiro grande terremoto que peguei na vida — completa o treinador.
Agora na capital, ele e a esposa não têm sofrido tanto com terremotos. Quando sentem o sismo, é fraco, ele diz. Além disso, são menos frequentes se comparados ao endereço anterior.
— Em compensação, aqui tem outras coisas que a gente não se assusta. Não escutamos tiro, não somos roubados na rua… Troca uma tranquilidade pela outra.
Brasileiros são maioria na Indonésia e na Tailândia
Ainda assim, Maurício Souza aconselha brasileiros a “irem sem susto” à Indonésia para atuar no esporte — e essa migração tem tido força nos últimos anos. A liga permite a inscrição de até 11 jogadores estrangeiros, e sete podem ir a campo ao mesmo tempo. Na Copa da Ásia, não há limite.
O meia Fábio Silva deixou o Confiança para rumar ao Persija na janela do meio deste ano, assim como o lateral-esquerdo Alan Cardoso. Os atacantes Allano (ex-Operário-PR), Bruno Tubarão (ex-Ceará) e Maxwell (ex-Remo) também reforçam a equipe.
Souza, meia ex-Náutico, e o meia-atacante Gustavo França, que estava no Londrina-PR, foram outros brasileiros a se transferir ao clube, e o zagueiro Thales, que já estava no futebol indonésio no Arema, chega ao time de Maurício Souza por empréstimo.
Todos se unem ao atacante Gustavo e ao goleiro Carlos Eduardo, brasileiros que já estavam no plantel.

O Brasil, inclusive, é o país estrangeiro com mais representantes na Liga 1 atualmente, com 68 jogadores.
A segunda nação com mais atletas migrantes na elite da Indonésia é Portugal, que registra 14. “Acho que (a mudança) se deve à possibilidade de melhores salários, viver em um país onde se é mais respeitado, vai conseguir desempenhar um papel e vai ter tempo”, opina Maurício Souza.
— Para todos os jogadores que vêm para cá, é bem maior (o salário). Estrondosamente maior do que a realidade de muitos que estavam no Brasil. Junta tudo isso: poder viver em um país que, claro, tem suas dificuldades, mas é pacato, pode andar na rua tranquilamente. O clube te oferece quase tudo: casa, carro, você pode viver em um bom apartamento ou casa. Isso tudo acaba trazendo uma gama grande de jogadores brasileiros. Quem vem para cá, não quer voltar.
Essa quantidade de brasileiros ajuda a atrair mais olhares aos torneios. Souza lembra quando Allano foi apresentado à torcida, antes de partida contra o Arema na pré-temporada. Com a viagem longa do Brasil à Indonésia, era provável que o atacante não entrasse em campo, mas houve muito apelo dos quase 30 mil presentes por vê-lo atuar.
A comissão técnica decidiu colocá-lo por cerca de 10 minutos e fez a festa dos espectadores. “Quando ele entrou, a torcida vibrou muito, e ele foi muito bem no jogo. O brasileiro, pela qualidade de jogo, pela malemolência, jogo mais irreverente, acaba sendo atrativo”, destaca.
O Brasil também está no topo do ranking de estrangeiros da Thai League (45), que permite até sete atletas que não tenham a nacionalidade tailandesa. Em seguida estão os filipinos, com 15.
Além de Bissoli no Buriram, outro destaque é o centroavante Raniel — ex-Santa Cruz, Cruzeiro, São Paulo, Santos e Vasco — no BG Pathum United.
O ponta Negueba, que passou pelo Tricolor Paulista e vestiu ainda as camisas de Flamengo, Grêmio, Coritiba, Atlético-GO, Londrina, Criciúma e Ponte Preta no País, também atua na competição, e defende o Ratchaburi.
Embora tenha atraído muitos jogadores, a elite tailandesa ainda não é muito difundida entre o público fã de futebol no Brasil. Para alcançar um patamar mais elevado no cenário, Guilherme Bissoli acredita ser necessário investimento.
— O Campeonato Tailandês acho que precisava crescer de nível um pouco, ser um pouco mais equilibrado entre os times, como é no Japonês e no Brasileirão, que é sempre uma incógnita quem será o campeão ou os rebaixados. Aqui na Tailândia a disputa fica entre uns três, quatro melhores, e o resto tem um nível um pouco inferior. Dos últimos anos para cá, tem melhorado um pouco. Acho que se tivesse investimento maior nesses clubes, contratações melhores, elevaria o nível do campeonato e, consequentemente, seria um pouco mais valorizado.
Tal visibilidade até poderia ajudar o artilheiro e os compatriotas a aparecerem no radar da seleção brasileira. “Sei que aqui estamos bem longe dos olhares do Ancelotti, mas estamos sempre prontos. Se algum dia a Seleção precisar, estamos preparados”, frisa Bissoli.



