Inglaterra

Kanté acerta com o Al-Ittihad, após ser um gigante da Premier League, ídolo do Chelsea e campeão de tudo

O volante marcou época em sua posição e conquistou duas Premier Leagues, uma Copa da Inglaterra, uma Champions League - ah, e uma Copa do Mundo

Para entender a importância que N’Golo Kanté teve ao Chelsea, precisamos apenas recorrer a esta declaração de Thomas Tuchel, em maio de 2022: “Ele é nosso Mohamed Salah, nosso Virgil Van Dijk, nosso Kevin de Bruyne. Ele é simplesmente esse jogador. Nosso Neymar, nosso Kylian Mbappé. Ele é nosso jogador chave, chave, chave, mas jogadores chave, chave, chave precisam estar em campo e, se ele jogar apenas 40% das partidas, é talvez um milagre que estejamos em terceiro lugar”. Talvez fosse mesmo porque Kanté fez apenas sete jogos de Premier League na última temporada, e o Chelsea, agora se preparando para seguir a vida sem o excepcional volante francês, uma lenda do clube e da Premier League, terminou em apenas 12º lugar.

A saída de Kanté ao fim do seu contrato era esperada. O Chelsea sofre com superlotação de jogadores e, por melhor que o francês seja, sua contribuição foi limitada por problemas físicos nos últimos dois anos. Antes disso, foi bicampeão inglês, por clubes diferentes, eleito o craque da temporada, tanto pela liga inglesa quanto pela associação de jogadores, e provavelmente o principal jogador dos Blues na conquista da Champions League com Tuchel. Apesar das dúvidas, atraiu interesse no mercado de transferências porque ainda tem 32 anos, muita experiência e qualidade de sobra, mas adivinha o que aconteceu? A Arábia Saudita apareceu com um contrato de quatro anos e € 100 milhões apenas em salários. Kanté foi oficializado como o novo companheiro de Karim Benzema no Al-Ittihad e será mais uma das estrelas da próxima temporada do Campeonato Saudita após sete temporadas em Stamford Bridge.

O Leicester surpreendeu o mundo ao conquistar o Campeonato Inglês em 2015/16 com base em um triunvirato: Jamie Vardy fazia os gols, Riyad Mahrez criava e encantava, e Kanté dava o equilíbrio no meio-campo. Contratado do Caen por € 9 milhões para substituir Esteban Cambiasso, depois de uma única temporada na primeira divisão, Kanté foi um dos maiores achados da história da Premier League. Uma vez, o zagueiro Robert Huth foi questionado sobre como as Raposas conquistaram a liga inglesa, talvez a mais difícil do mundo, com uma linha defensiva formada por ele, Danny Simpson, Wes Morgan e Christian Fuchs. Respondeu com simplicidade: “Kanté”.

Também foi a grande venda do Leicester depois do milagre com Claudio Ranieri. Estava próximo do Arsenal, mas uma ligação de última hora de Antonio Conte, prometendo que ele conquistaria a Premier League pela segunda vez seguida se fosse para Stamford Bridge, fez com que mudasse de ideia. Conte entregou a promessa, Kanté foi o melhor jogador da temporada e subiu um pouquinho mais de estatura. Para variar, o trabalho do italiano se deteriorou rápido. Kanté ainda conseguiu levar uma Copa da Inglaterra e, naquele verão europeu, ajudou a França a ser campeã do mundo.

Quando retornou para o Chelsea, encontrou Maurizio Sarri e havia uma questão tática a ser resolvida. Àquela altura, estava mais do que consolidado como o melhor cabeça de área do mundo, mas Sarri havia recomendado a contratação de Jorginho, com o qual trabalhara no Napoli, porque prefere um organizador começando o meio-campo. Isso fez com que Kanté jogasse um pouco mais adiantado e ainda não sabíamos que ele também era muito bom ofensivamente. Aprendemos, principalmente, em uma vitória marcante contra o Manchester City em dezembro, e essa faceta do seu futebol seria importante em outros momentos. A passagem de Sarri foi frustrante, mas Kanté conseguiu colocar mais uma medalha no pescoço, com a vitória sobre o Arsenal na final da Liga Europa.

A temporada seguinte foi a em que começou a ter problemas físicos, depois de quatro em alto nível e parecendo inabalável. Quando estava em campo, ainda parecia em todos os lugares, ainda passava a sensação de que seu time atuava com um a mais, mas conseguiu fazê-lo apenas 22 vezes no Campeonato Inglês comandado por Frank Lampard, no momento em que o Chelsea passava por um embargo de transferências e havia vendido Eden Hazard ao Real Madrid. A campanha seguinte foi bem mais estável para ele, embora não para o clube, que precisou demitir seu maior ídolo para tentar resgatar alguma coisa.

A maneira como Thomas Tuchel rapidamente organizou o Chelsea para conquistar a Champions League foi impressionante, e uma das chaves foi o desempenho de Kanté, o melhor em campo nas duas semifinais contra o Real Madrid, enfrentando o histórico meio-campo com Casemiro, Luka Modric e Toni Kroos, e influenciando bem no setor ofensivo. A grande taça que lhe faltava foi conquistada contra o Manchester City na Cidade do Porto, onde voltaria a ser escolhido o craque da partida. Terminou aquele mata-mata com um ótimo aproveitamento: o melhor em quatro dos sete jogos do mata-mata. E consagrado como um ídolo do Chelsea que ajudou a renovar o sucesso do clube na principal competição de clubes da Europa.

Kanté sempre impressionou pela abnegação, a humildade e o índice de trabalho, a força mental para conseguir ser um volante combativo e intenso, apesar do físico pouco avantajado – tem cerca de 1,70 metros. A inteligência para ocupar espaços e antecipar jogadas complementou esses atributos e, quando teve a oportunidade, mostrou que também tinha qualidade técnica com a bola nos pés. Foi inclusive escalado como um camisa 10 por Lampard – em seu retorno mais recente como interino -, uma última cartada para tentar surpreender o Real Madrid na Champions League. Até teve oportunidades de mudar os rumos da eliminatória, se estivesse um pouco mais afiado nas finalizações. Foi um dos únicos nove jogos que conseguiu fazer na última temporada. A lesão muscular que sofreu contra o Tottenham ainda em agosto foi séria e o impediu de disputar mais uma Copa do Mundo. A maior nota triste foi não ter conseguido se despedir em alta do Chelsea.

Outra nota triste é que o futebol de mais alto nível perde um jogador que marcou época, extrapolou os limites da sua posição e sempre se portou como pessoa normal, em um meio cada vez mais badalado e preenchido por super-estrelas. Em novembro de 2018, por exemplo, perdeu o trem depois de uma goleada sobre o Cardiff City. A ideia era passar a folga em Paris com a família. Preso em Londres, foi a uma mesquita próxima à estação para fazer as orações noturnas e acabou cercado por fãs. Um deles convidou Kanté para jantar em sua casa, provavelmente brincando. E não é que Kanté aceitou? Comeu um prato à base de Curry, conversou com os amigos, discutiu futebol, assistiu ao Match of The Day e até jogou umas partidinhas de Fifa. Sua grande qualidade sempre foi essa: conseguir parecer sobre-humano dentro de campo e um simples ser humano fora dele.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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