Champions League

Completo ao longo da noite, Kanté adicionou uma semifinal de Champions à sua extensa lista de atuações impressionantes

O desafio na semifinal da Champions League não seria simples a N’Golo Kanté. Afinal, o Real Madrid escalava uma das trincas de meio-campistas mais marcantes das últimas décadas: Casemiro, Toni Kroos e Luka Modric. O trio merengue não viveu uma noite tão inspirada no Estádio Alfredo Di Stéfano. Da mesma forma, Jorginho e Mason Mount deram uma boa ajuda à superioridade do Chelsea na faixa central. Ainda assim, Kanté adicionou mais uma partida impressionante à longa lista de atuações marcantes em sua carreira. O francês foi o todo-campista de seus melhores momentos e, se os Blues poderiam ter voltado para a casa com a vitória, muito tem a ver o trabalho brilhante do camisa 7. Kanté se multiplicou, bombeando sangue na marcação, mas também servindo de pulmão e cérebro nas transições dos londrinos.

Durante a noite, Cesc Fàbregas comentou como Kanté é um cara que gosta de jogos grandes. O espanhol, seu antigo companheiro no Chelsea, sabe muito bem o que está falando. E o potencial de Kanté parece realmente aproveitado nos Blues com Thomas Tuchel, como não se via há algum tempo no clube. Muito provavelmente o ápice do volante em Stamford Bridge tenha acontecido sob as ordens de Antonio Conte, num forte sistema defensivo, mas com espaços para acelerar nos contragolpes. Com Maurizio Sarri e Frank Lampard, Kanté até viveu fases mais prolíficas, com mais liberdade para atacar, mas que não necessariamente enchiam os olhos. Tuchel reaproveita as melhores virtudes do francês no atual sistema de jogo.

Num Chelsea mais equilibrado, e mais veloz, Kanté cresce. Pode ser o marcador incansável, mas também continua com espaços para contribuir ao setor ofensivo e facilitar as transições – mesmo sem precisar participar tanto das finalizações. Foi o que se notou em algumas grandes atuações recentes do francês, evoluindo com os Blues à medida que Thomas Tuchel deixa suas ideias mais claras. O volante também enfrentou lesões que atrapalharam sua progressão nos últimos anos. Neste momento, além de se mostrar em ótima forma, o camisa 7 se torna um centro de gravidade dos londrinos.

O momento de superioridade do Chelsea na semifinal durante os primeiros 30 minutos dependeu de uma marcação intensa na intermediária. A equipe travava os meio-campistas do Real Madrid e acelerava para pegar o trio de zaga mais exposto. A multiplicação de Kanté ajudava neste sentido, não necessariamente com ações defensivas, mas ao aumentar a pressão e forçar os erros dos adversários. Além do mais, o camisa 7 muitas vezes iniciava os ataques com velocidade, sobretudo do lado direito. Algumas boas jogadas dos Blues surgiram a partir das arrancadas de Kanté, mesmo que os companheiros não tenham aproveitado.

Já no segundo tempo, se o Chelsea não conseguiu manter o ritmo, Kanté trabalhava dobrado (dobrado para seu nível, quadruplicado para o dos demais) ao empurrar o time e ajudar os Blues no domínio territorial. O futebol é um jogo de ocupação de espaços e facilita bastante contar com um meio-campista que consegue preencher tantos cantos do campo em tão pouco tempo. Todavia, com o Real Melhor protegido e dando menos espaços aos atacantes londrinos, a equipe visitante não produzia tanto assim. De qualquer maneira, a regularidade de Kanté ao longo da noite foi excepcional.

Kanté representa o futebol jogado em sua máxima vontade. E ainda que seu trabalho constante sem a bola seja quase sempre o mais elogiado, o meio-campista apresentou contra o Real Madrid outros predicados, como o desafogo ofensivo e a leitura de jogo na ignição de sua equipe. O francês é daqueles jogadores que sempre dão gosto de ver, e que a gente sempre quer vestindo a camisa do nosso time. É entrega a todo momento, mas com lealdade ao jogo e capacidade técnica em sua função.

As partidaças de Kanté na Premier League são praticamente incontáveis, desde os tempos de Leicester, assim como o francês possui uma grande Copa do Mundo marcada em sua trajetória. Na Champions seu protagonismo é menor, apenas em sua terceira participação. O camisa 7 acaba mais destacado por um título na Liga Europa, faturado nos tempos de Sarri. No entanto, jogar tanta bola numa semifinal contra o Real Madrid prova como qualquer palco é palco para Kanté arrebentar. A Champions merece ter um pouco mais de destaque numa carreira tão brilhante como a do volante.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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