Champions League

A conquista da Champions reforça o posto de Kanté como o marco de uma geração entre os volantes

Dos sete jogos do Chelsea nos mata-matas da Champions, Kanté levou quatro vezes o prêmio de melhor em campo, inclusive na final

Vencedor da Premier League como motor de uma façanha sem precedentes e, uma temporada depois, repetindo o título com o mesmo protagonismo por outro clube. Vencedor da Copa do Mundo gastando a bola durante os mata-matas e botando no bolso um dos melhores jogadores da história em sua atuação mais impressionante. Por fim, vencedor da Champions League, emendando uma série de exibições impecáveis na fase final. Em apenas seis anos, N’Golo Kanté causou um impulso tremendo em cada equipe que defendeu, numa função que não é exatamente a mais prestigiada, e rompendo limites do que se imagina de um bom volante. Assim, colecionou os principais títulos. E a grande taça que faltava veio, neste sábado, com uma partidaça do francês. Se não havia dúvidas quanto ao lugar de Kanté como um dos mais impactantes de sua geração, o brilho da Champions com tamanha influência de seu jogo ao Chelsea o garante, definitivamente, num lugar especial da história.

Uma das respostas mais brilhantes sobre a capacidade de Kanté foi dada por Robert Huth, seu companheiro no Leicester campeão da Premier League. Perguntado sobre qual a razão do título com uma zaga formada por Simpson, Morgan, Huth e Fuchs (um quarteto que jogou muito naquela temporada, mas era um tanto quanto lento e envelhecido), o alemão foi breve em sua explicação: “Nós tínhamos Kanté”. E isso diz muito sobre a maneira como o volante facilita o trabalho dos companheiros e consegue se multiplicar em campo. Ao mesmo tempo em que atenua debilidades, ele dá consistência para que suas equipes sejam extremamente competitivas. Ainda no Caen, conseguiu conquistar o acesso à Ligue 1 sendo um dos melhores da segundona, o que nem todo mundo viu. Mas todo mundo sabe a transformação promovida pelo meio-campista no Leicester e no Chelsea, bem como na seleção da França.

O sucesso de Kanté é marcante principalmente pela forma como ele quebra padrões ao que se espera do “futebol moderno”. Sua contratação no próprio Leicester só seria possível depois de muita insistência do diretor Steve Walsh, já que Claudio Ranieri não via o pretendido reforço como “apto para aguentar as exigências da Premier League”. Ledo engano, embora não fosse o único errado nas impressões iniciais sobre o meio-campista. Relutância foi algo que Kanté encarou desde a base. Para muitos clubes, o que se imagina de um volante é um jogador alto e forte fisicamente para ganhar as bolas aéreas na intermediária. Até por isso, o francês demorou a ser descoberto durante a adolescência.

Kanté fazia parte do JS Suresnes, uma academia famosa na formação de talentos em Paris. Contudo, enquanto os olheiros dos clubes profissionais pinçavam outros jogadores, ninguém queria apostar naquele garoto mirrado que atuava no meio-campo. Seus treinadores já reconheciam como era diferenciado – seja por sua inteligência, pela forma como absorvia os ensinamentos ou mesmo pelo esforço. Quem via de fora, porém, não conseguia captar aquilo. Não observavam que era uma promessa em função do time, não em função de si.

Kanté só saiu do Suresnes quando estava prestes a estourar a idade nas categorias de base. E sua transferência para um clube profissional teve influência direta do presidente da academia, que aproveitou seus contatos no modesto Boulogne para indicá-lo. Mesmo assim, houve resistência na utilização do francês como volante no nível principal. De novo, viam mais físico do que capacidade. Ele precisou se virar como lateral direito ou como ponta de início, até que suas virtudes se tornassem inegáveis: a resistência física enorme, a força mental para se superar, a leitura de jogo privilegiada. Mesmo rebaixado com o Boulogne, o francês conseguiu seu lugar no Caen. E, depois do acesso, firmado como volante já na Ligue 1, era visto como o “herdeiro de Makélélé”.

Kanté e o prêmio de melhor da final (Foto: Uefa)

A partir de então, o mundo tomou conhecimento de Kanté. E não tem mesmo como um jogador onipresente em campo passar despercebido. Era assim no Leicester, mesmo que os astros fossem outros. Não foi eleito o melhor jogador da Premier League 2015/16 pela imprensa ou pela liga, mas ganhou o prêmio de melhor da temporada escolhido pelos próprios companheiros. E isso quando tinha o fardo de substituir um medalhão como Esteban Cambiasso na faixa central das Raposas. O mesmo se repetiria no Chelsea e na França, com igual combatividade, mas adicionando elementos ao seu jogo.

Em seis anos no mais alto nível, também dá para perceber a evolução de Kanté. O jogo do meio-campista se tornou mais completo. Sua versão nos tempos de Antonio Conte era predominante no Chelsea, mas não a mais efetiva no ataque. Os períodos com Maurizio Sarri e Frank Lampard, por outro lado, perderam um pouco esse protagonismo de Kanté. Em compensação, por mais que parecesse atuar fora de posição, acabava empurrado a desempenhar mais as funções ofensivas e isso adicionou novas aptidões. O Kanté que sabia aproveitar muito bem suas virtudes sem a bola, amadurecido em seu jogo, hoje em dia também potencializa sua participação com a bola através da inteligência na leitura dos espaços e da intensidade física.

O estilo de jogo aplicado por Thomas Tuchel também ajuda. Assim como nos tempos de Antonio Conte, há mais campo aberto para Kanté acelerar. Ele aperta a marcação e limpa os trilhos diante da zaga, possibilitando um sistema defensivo tão forte. Mas faz mais neste Chelsea direto e voraz. Serve mesmo como uma válvula de escape pela direita, mordendo e já arrancando para iniciar as transições rápidas. Muitas vezes prepara as jogadas para que os companheiros criem os lances ofensivos e definam nos arredores da área. Foi assim que o camisa 7 contribuiu tanto para a jornada dos Blues nesta Champions.

Kanté foi impressionante como sempre na marcação e decisivo como nunca na fase ofensiva. Basta ver que, dos sete jogos que o Chelsea fez a partir das oitavas de final, ele acabou eleito quatro vezes o melhor em campo. Brilhou contra o Atlético de Madrid na volta das oitavas, mas conseguiu se agigantar mesmo nas semifinais contra o Real Madrid, premiado com o troféu de destaque tanto na ida quanto na volta. O francês deu duas aulas contra os merengues. Era o marcador incansável de sempre, capaz de deixar seu time em vantagem numérica inclusive no 11 contra 11. Mas desequilibrou mesmo por sua contribuição no ataque, participando diretamente de ambos os gols no reencontro em Stamford Bridge.

E a final da Champions, por fim, teria de novo o melhor dos mundos de Kanté. Numa partida com intensidade no talo, é claro que um talento do seu calibre ia aparecer. O volante, além do mais, gosta dos jogos grandes. Foi o que se notou em Portugal. Teve seus avanços para acelerar o ataque do Chelsea, ainda que não tenham rendido necessariamente frutos à vitória. Desta vez, sua combatividade se fez mais necessária, até pela forma como os Blues anularam o furor ofensivo do Manchester City. A zaga é mais segura com um Kanté à sua frente, apertando os adversários e tomando a bola sempre que possível. Mais do que isso, forma uma dupla que se complementa bem com Jorginho.

Os pontos do campo onde Kanté recebeu ou tomou a bola ao longo da final (Fonte: WhoScored)

O Kanté onipresente nos quatro cantos do campo se viu claramente no Estádio do Dragão. Foi exatamente um dos jogos mais inacreditáveis do camisa 7 neste sentido. Aparecia na linha de fundo para travar a criação do City, mas também estava na outra ponta para tentar gerar perigo ao seu time. Até cabeçada no meio dos dois beques adversários ele deu. E estava perfeito no tempo de bola. No início da segunda etapa, veio seu lance mais emblemático. Quando Kevin de Bruyne encontrou um pouco mais de espaço, o carrinho veio limpo, na bola, para desarmar o craque adversário e dar tranquilidade aos seus companheiros.

Difícil não ver Kanté como merecedor de tudo isso. Muitos de seus colegas tratam de elogiá-lo publicamente, algo que Cesc Fàbregas fazia durante esta decisão ou que era constante entre os franceses na Copa. Vai muito da personalidade e de um carisma até natural do meio-campista, apesar de sua timidez. Mas vai ainda mais da ética de trabalho e da forma como sempre parece pronto para ir além – a serviço do time. “Eu sempre tento dar meu melhor”, seria a explicação do próprio Kanté para sua ótima Copa do Mundo. O ponto é que o melhor dele supera os níveis de normalidade. Há uma questão de aptidão física e capacidade natural. Há bem mais de empenho e vontade de evoluir. E isso caracteriza exatamente sua força mental, talvez pelo passado humilde na periferia de Paris ou mesmo pelos “nãos” que precisou receber até virar unanimidade.

O lugar de Kanté na história do Chelsea é entre os grandes. Não é um dos senadores do passado, mas esse título da Champions o habilita a ter uma consideração próxima – se foi não por “fundar” a gloriosa história moderna dos Blues, ao menos por consolidar os londrinos mais uma vez no topo da Europa. Este é, antes de qualquer outro, o “Chelsea de Kanté” – por mais que sua contribuição coletiva seja a antítese de tal rótulo. E existe mesmo uma questão de respeito à camisa. Obviamente, Kanté está entre os jogadores mais bem pagos da Premier League, algo mais que justo por seu futebol. Mas dá para perceber ali como ele se sente à vontade em Stamford Bridge. Como se sente feliz. É o cara que chega aos treinos com seu carro modesto. É o cara que busca seu máximo e, se consegue tanto, é porque há méritos. Merece a idolatria pela forma como honra a camisa do Chelsea.

Kanté saiu de campo com o troféu individual de melhor da final, assim como com uma candidatura genuína para ser eleito o melhor desta Champions e até com um clamor para concorrer a sério pela Bola de Ouro. Isso é um reflexo direto de seu jogo, da maneira como consegue ser muito acima dos outros em suas principais virtudes – e, em suas capacidades, fica difícil de apontar outro jogador atual parecido com meio-campista. Tais condecorações são inclusive importantes, para um futebol que não valorize apenas gols, mas que saiba aplaudir mais predicados que fazem a diferença no jogo. E Kanté faz a diferença no jogo, muita, com sua intensidade e sua constância em níveis altíssimos.

Em termos de habilidade, Kanté não é exatamente o jogador que recebe a pecha de craque. É excelente tecnicamente e a Champions evidenciou um pouco mais isso, mas não recebe a badalação de outros astros pelo trato com a bola. Kanté, porém, merece ser chamado de craque pelo impacto em si. E consegue ser mais: consegue ser aquele que marca época. Estes são os atletas que extrapolam os limites do que se imagina em sua posição e estabelecem novos parâmetros no esporte. O francês realizou isso nos últimos seis anos. E essa conquista da Champions, aliada ao que já protagonizou na Premier League ou na Copa do Mundo, alça o meio-campista a um posto privilegiado entre os grandes volantes da história. Fica difícil de contestar quando ele consegue ser tão preponderante ao sucesso de suas equipes (diferentes equipes, aliás) e quando elas invariavelmente alcançam o topo do pódio.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador de anúncios? Aí é falta desleal =/

A Trivela é um site independente, que precisa das receitas dos anúncios. Desligue o seu bloqueador para podermos continuar oferecendo conteúdo de qualidade de graça e mantendo nossas receitas. Considere também nos apoiar pelo link "Apoie" no menu superior. Muito obrigado!