Copa América 2024

Na seleção brasileira, tudo é muito, da história à frustração

Impressiona o fato de que todos jogadores saíram da Copa América com menos moral do que entraram

Não há muita mediação possível quando a seleção brasileira de futebol faz um torneio tão pobre de bola, se limitando a guerrear por um palmo de campo contra um rival histórico e não achando uma saída de jogo decente, um momento de domínio do meio-campo, um lance envolvente para que seu talento no ataque possa ao menos chegar perto de marcar, levantar o astral do time, mexer com a torcida. Nada. O desencanto é do tamanho da camisa, a frustração é do tamanho da história. Não há tempo para contexto quando do campo não se tira nada.

É claro que se fala da desorganização da CBF, que em um ano e meio fez gincana com o posto de técnico, mas não deixa de ser muito flagrante que todos os jogadores que foram a campo na Copa América acabaram saindo com menos moral do que entraram. Um onze formado majoritariamente por gente que esteve na Copa do Mundo, um elenco de gente graúda, e ninguém joga um pelinho acima de uma tarde discreta em suas ligas ordinárias. Os que temos de melhor, em tese, sem muita capacidade de encontrar um caminho possível, mesmo que da linha para lá não exista projeto, nem acordo com Ancelotti, nem ideia nenhuma por trás duma cascata de ‘Brasil com S’ em vídeo bonito de redes sociais.

A primeira seleção que acompanhei é a tetracampeã do mundo, um recorte privilegiado, e nesses trinta anos não me lembro deste nível de sensação de impotência. Houve times ruins, claro, equipes alternativas, renovações mais radicais que não funcionaram, tantas noites que craques não acharam nada, mas dessa vez o time é esse e não há um técnico pedindo passagem com a cara estampada e dizendo ser o próximo – tal qual Felipão em 2001 ou Tite em 2016. É estranhamente meio isso mesmo. Um Brasil que não vence por inércia, não tem tantos craques incontestáveis, nem tem uma faísca de sinal de que amanhã vai ser melhor.

Soma-se a isso uma relação bastante peculiar da atual geração de boleiros com isso tudo. Eles continuam achando que se trata de falta de apoio da torcida, que eles precisam recuperar algum sentimento perdido num vento que fez a curva em Weggis, que o fato de jogarem no Campeonato Inglês os faz, por si só, uma elite notável. São alimentados também por um debate que diz, todo dia, que a Premier League é outro esporte, que o torcedor liga mais para o clube, que futebol é processo, e outros vícios, ruídos, que no fim nos alienam, inclusive acreditando que um técnico de longo prazo pudesse dar conta de alterações realmente sensíveis (Tite, ótimo, fez um bom time e só, foi tudo). A mudança de cultura é para todos, estrutural e que pegue os de chuteiras, de agasalhos, de ternos e de microfones, reiniciar as convenções. Constrangedora a fala de Andreas sobre o nível do time uruguaio, sintoma dessa confusão.

Enfim, existe uma urgência, e o futuro é um espelho. O que não existe é naturalizar a mediocridade, ao menos não na amarelinha. Se não for exigência máxima, régua alta e time para tirar o melhor dos melhores, servirá para o quê? Nos dez anos do 7-1, está aí o pior dos legados: condenou-se uma suposta arrogância, aceitou-se um lugar de coadjuvante, e sobrou um gigante mambembe. Nada é mais vazio que uma seleção vazia, peso e delícia, inevitáveis, para carregar.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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