Copa América 2024

Jogar aqui, jogar lá: o dilema que define o futebol sudaca

Colombianos e argentinos, uma porção de cada qual à sua maneira, são inspirações para um Brasil meio perdido

A seleção brasileira é a grande decepção da Copa América, e se tornou inevitável questionar a capacidade de um meio-campo atuante no futebol inglês enquanto o melhor jogador do torneio é um organizador não utilizado (um tanto por culpa dele próprio, claro) pelo São Paulo, amparado por ótimas atuações de um parceiro do Fluminense e outro do Palmeiras. Trata-se de uma discussão que nos jogos só se dá pela metade, porque estrutural. Mas necessária, importante, sonegada ao longo dos últimos anos, no velho dilema sobre a diferença dos que jogam lá com os que jogam cá.

No Brasil, ela vem sendo adiada desde que o mercado de transferências e o êxodo de jogadores se tornaram a principal atração do futebol mundial. Se antes o sonho do garoto era fardar num grande clube, agora é acertar a vida com um convite à Inglaterra. Foi assim com Gustavo Scarpa, melhor jogador do campeonato, que foi ao Nottingham Forest, mal jogou, mas diz ter adorado a experiência. Entrar em campo na Premier League virou uma coisa, um selo, isso é fato. Depois acaba sendo natural a frustração quando essa turma não consegue controlar meio jogo vestindo amarelo.

Então, do ponto de vista das aparências e de uma subjetiva representação, os meninos brasileiros pisam no estrangeiro e se tornam elite. João Gomes, ótimo jogador, jamais seria titular da seleção brasileira nem que comesse a bola no Rio de Janeiro. Andreas Pereira, num sincericídio ególatra amparado por essa babação desenfreada a Londres, Manchester, Liverpool e adjacências, acredita mesmo que o nível do elenco verde e amarelo em relação ao uruguaio poderia ser medido porque um é Fulham, o outro é Flamengo. Na cabeça dele isso faz todo sentido. Isso é um problema. Vincular a seleção brasileira a um tipo de jogo que se pratica na Europa é um problema.

Não quer dizer que Dorival precise convocar uma seleção do Brasileirão, longe disso. É óbvio que a maior parte dos grandes jogadores está lá fora, vivemos aqui uma liga de aspirantes, de adolescentes vendidos ou a expectativa por retornos. Mas é preciso que se discuta certas convenções, como essa que diz, sábado após sábado, que lá se pratica outro esporte. Que outro esporte é esse que não consegue trocar três passes ou proteger a bola por dez segundos contra o Uruguai? Os meninos são bons de bola, talvez esse time ainda dê jeito, mas não se ganha nada com esse monopólio da suposta qualidade. O time nacional não é melhor desde que se considera que aqui no Brasil é fácil, tsc.

Lembrei da provocação de Afonso Alves, centroavante do Heerenveen, a Romário, em fim de carreira, quando chamado por Dunga em 2007, numa consolidação do radar aos clubes europeus como termômetro da seleção brasileira. Essa hierarquia do jogo, como se houvesse também um certo padrão Fifa para competir num campo de futebol, é péssimo. Jogadores precisam ser avaliados pelo que conseguem fazer em todos os aspectos da partida, inclusive os que envolvem responsabilidade, poder de decisão, senso, criatividade, coisas que não se encomenda. Enzo Fernández e Julian Alvarez viraram titulares campeões do mundo pelo que jogavam na Argentina. Aqui o Fagner chegando para marcar o Hazard ganhou ares de meme, como se firmar uma titularidade de anos no Corinthians fosse algo menor, banal.

E aí quando Arias, Rios e James competem numa boa com Valverde, De Paul, Bruno Guimarães, Paquetá e companhia, vem a música de Tom Zé: eu tô te explicando, pra te confundir. O futebol de seleções tem dessas, essa bagunça nas certezas, esse caso a caso, essas liberdades concedidas com suas combinações para durarem um mês, essas aptidões num tipo de jogo, numa urgência de tiro curto, que extrapolam o comentário da mesa redonda de toda temporada europeia. Carrascal e Quintero podem decidir uma Copa América num lampejo de talento, mas não estarão no próximo mata-mata da Champions League.

A discussão, meio torta, vai seguir. A revelação de hoje muda de clube amanhã, o técnico da seleção não tem nenhuma garantia de que vai esquentar a cadeira, o tempo de treinamento é curto, a coisa se decide num mata-mata de um gol, um VAR, uma disputa por pênaltis. Mas é um tema interessante, mais que a ironia de que um jogador da Real Sociedad marcou o gol do título da Espanha (como se houvesse alguma relação com o que ocorre no êxodo sul-americano). Preguiça da pasteurização, a da bola e a da ideia. Precisamos falar sobre a dificuldade de montar times que crescem nos grandes jogos mesmo com atletas atuando no que é considerado o primeiro nível do futebol. Mesmo com eles achando mesmo que são os melhores.

A Copa América vale muito

A Colômbia jogou o futebol mais legal de se ver nesse mês, e de tempos em tempos nos dá essas efêmeras alegrias – que coisa aquele chocolate na Polônia em Kazan. A Argentina deu no que se tem de mais difícil no contexto da bola atual, que é montar uma seleção cheia de cobra, de gente de barriga cheia, com uma pegada de ganhar, de jogar junto e de querer viver aquilo até o limite que, olha, são raras de ver. É uma geração histórica, que chegou, a duras penas e muitas lágrimas depois, finalmente a orbitar num Messi que só traz coisas boas, mesmo que aquém. Uma grande final, truncada, arrastada, mas grande, importante. Colombianos e argentinos, uma porção de cada qual à sua maneira, são inspirações para um Brasil meio perdido, nem lá, nem cá. E não porque se estruturam para isso, nada. Mas acharam um encaixe que a gente segue sondando, arrodeando, desde o gol da Croácia.

A Copa América vale muito: a escolha é nossa em não ter um Obelisco para encher a cara depois de um gol de Lautaro. Ainda assim, os Estados Unidos da América deveriam nunca mais receber um torneio de futebol sul-americano, porque, não bastarem estarem à margem da modalidade, nem espaço para jogar bola eles foram capazes de oferecer. Uma edição vexatória, provavelmente o pior ambiente, tratamento e organização da história desse troféu centenário. Vivemos num continente com questões sociais complexas e graves, mas digno em ao menos riscar um campo do tamanho de… um campo. Muita submissão ao Norte, credo. Em dois anos tem mais, fazer o quê.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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