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Uma semana, vários casos: Futebol se torna ‘confortável’ para propagação de racismo e machismo

Episódios reforçam a importância de combater essa normalização o quanto antes no esporte

O futebol é um importante alto-falante. Esta analogia foi usada pelo professor doutor Carles Viñas, PhD de História Contemporânea na Universidade de Barcelona (UB), especializado na relação entre futebol e sociedade, durante entrevista concedida à Trivela.

O especialista comentava sobre como amistosos realizados entre Palestina, País Basco e Catalunha ultrapassavam a esfera esportiva e mandavam um recado de que a modalidade é carregada de fenômenos sociais.

Alguns meses após essa conversa, isso ficou ainda mais evidente. Desde terça-feira passada, dia 17 de fevereiro, oito acusações de racismo e caso de machismo se sucederam em uma semana.

O futebol tem se tornado ambiente confortável para propagação de preconceitos e discriminação. Quanto mais se normaliza a situação, mais difícil é evitar o retrocesso.

Machismo e acusações de estupro no futebol

Prova de quão cômodas as coisas estão é a declaração de Gustavo Marques após Red Bull Bragantino 1 x 2 São Paulo no sábado (21), nas quartas de final do Paulistão.

O zagueiro de 24 anos está emprestado pelo Benfica B ao Massa Bruta e concedeu entrevista à “TNT Sports” ainda no campo para falar sobre o revés. Ele havia sido o autor do único gol do time na partida.

O jogador se sentiu à vontade para, ao vivo e abertamente diante dos microfones, proferir falas repletas de machismo e misoginia contra a árbitra Daiane Muniz.

— Primeiramente, quero falar da arbitragem. Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras e Corinthians, e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Eu acho que ela não foi honesta pelo que ela fez — iniciou.

— Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para em jogos desse tamanho não colocar uma mulher. Todo respeito às mulheres do mundo. Eu sou casado, eu tenho minha mãe, então desculpa aí se eu estou falando alguma coisa para as mulheres, mas do tamanho dela, eu acho que ela não tem capacidade de estar apitando um jogo desse — complementou ele.

Houve repúdio às declarações de Gustavo Marques nas redes sociais. No entanto, as críticas dividiam espaço com comentários de apoio ao jogador mascarados por argumentos como “ele tem o direito de dizer o que pensa” e “mulher só deveria apitar futebol feminino”.

Árbitra Daiane Muniz integra quadro da Fifa (Foto: Iconsport)
Árbitra Daiane Muniz integra quadro da Fifa (Foto: Icon Sport)

A maior questão deste caso é também uma resposta, de certa forma. Se o árbitro fosse homem, Gustavo Marques diria que ele não está apto a apitar “um jogo desse tamanho” por causa do gênero? A postura de Gustavo Marques foi rudimentar e inaceitável.

Quando — e se — o homem erra, a culpa nunca é atribuída ao gênero dele. A arbitragem polêmica de Ramon Abatti Abel no Choque-Rei de outubro de 2025 foi definida como “escandalosa” e até “revoltante”, mas ninguém afirmou que ele não deveria mais apitar um duelo ou estaria inapto ao posto por ser homem.

O zagueiro “justificou” a desvalorização e deslegitimação da mulher nas quatro linhas como tendo ocorrido em um momento “de cabeça quente” e “muita frustração”. Depois da entrevista, pediu desculpas nas redes sociais e na zona mista.

— Estou aqui para pedir perdão para todas as mulheres do mundo e do Brasil. Falei coisas que não deveria. Fui ao vestiário dela e pedi perdão para ela e para a assistente dela. Estou aqui para pedir perdão para todas as mulheres do mundo. (…) Estou mal, triste. Minha esposa já me xingou, minha mãe já me xingou. Estou aqui para pedir perdão, estou sendo homem. Todo ser humano erra. Estou aqui para pedir perdão — começou o zagueiro.

— Acho que o futebol faz parte disso que aconteceu, sendo mulher ou homem. O que eu falei ali não condiz com o que eu sou. Sou um cara muito honesto em tudo o que eu faço. Quero pedir perdão de novo para ela, acabei de falar com ela. A gente tem que ter respeito, seja quem apitar nosso jogo, homem ou mulher. (…) No momento do nervosismo, da chateação, da tristeza, da amargura, a gente estava tão empenhado pelo título… — continuou.

A Federação Paulista de Futebol (FPF) afirmou em comunicado ter recebido “com profunda indignação e revolta” a entrevista do jogador e que vai encaminhar as declarações à Justiça Desportiva “para que esta tome todas as providências cabíveis”.

Nesta segunda-feira (23), o Red Bull Bragantino anunciou que Gustavo Marques “receberá uma multa de 50% do total de seus vencimentos” pela declaração e também não será relacionado para o próximo jogo da equipe, diante do Athletico-PR, na próxima quarta-feira (25), pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro.

Gustavo Marques e Daiane Muniz durante partida entre São Paulo e Red Bull Bragantino (Foto: Iconsport)
Gustavo Marques e Daiane Muniz durante partida entre Red Bull Bragantino e São Paulo (Foto: Icon Sport)

No mesmo dia, os Ministérios das Mulheres e do Esporte vieram a público repudiar o fato de que três de quatro atletas suspeitos de estupro coletivo tenham sido homenageados durante jogo da Copa do Brasil na quinta-feira (19).

Os jogadores em questão defendem o Vasco-AC. São eles: Erick Luiz Serpa Santos Oliveira, Matheus Silva, Brian Peixoto Henrique Iliziario e Alex Pires. O quarteto foi acusado de estuprar duas mulheres no alojamento do clube acreano em 13 de fevereiro, de acordo com informações do “g1”. Todos negam o crime.

Ainda segundo o portal, Erick Serpa foi preso em flagrante no dia 14 de fevereiro e está em preventiva desde o dia 15. Os outros três jogadores estão em prisão temporária.

Antes de a bola rolar no jogo de quinta-feira, contra o Velo Clube, os demais atletas da equipe “exibiram as camisas dos colegas presos em gesto de apoio”, conforme escreveram os ministérios. As entidades ressaltaram que prestam solidariedade às vítimas e reafirmaram confiança no processo legal.

A nota enfatizou ainda que “a partida também marcou a estreia do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza (Vasco-AC), condenado pelo homicídio triplamente qualificado da modelo Eliza Samudio”.

— É inaceitável que o esporte, espaço de formação e inspiração para a juventude, seja utilizado para naturalizar ou relativizar a violência contra a mulher. O governo do Brasil reafirma seu compromisso inegociável com o enfrentamento firme e coordenado de todas as formas de violência contra meninas e mulheres, com políticas públicas que promovam ambientes seguros, justos e livres de violência — dizia o texto.

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Combate ao racismo no futebol passa por mais espaço a pessoas negras

Além de dar mais voz às mulheres, a semana deixou evidente que o alto-falante do futebol precisa de mais pessoas negras em posições de destaque.

Quando técnicos como Vincent Kompany, do Bayern de Munique, Liam Rosenior, do Chelsea, e Nuno Espírito Santo, do West Ham, que atuam nas cinco principais ligas da Europa, lamentam profundamente casos de racismo e a forma como a acusação de Vinicius Junior, jogador do Real Madrid, contra Gianluca Prestianni, do Benfica, tenha sido descredibilizada, a luta antirracista mostra um lado importante.

Eles contrastam com profissionais como José Mourinho, que sugeriu que o Benfica não poderia ser racista porque a maior figura de sua história é Eusébio, e Luis Enrique, que disse que o que ele tem a dizer “sobre este assunto não tem importância”.

Usar o alto-falante para amplificar vozes de pessoas negras, que por vezes já foram vítimas de racismo, como Rosenior afirmou, é fundamental na construção de um futebol — e, consequentemente, uma sociedade — cada vez menos discriminadora.

Vinicius Junior virou uma voz contra o racismo em todo o mundo esportivo (Foto: Icon Sport)

A UEFA optou por punir Prestianni com um jogo de suspensão enquanto a investigação do caso segue em curso.

A sanção mínima em casos de racismo é a suspensão de 10 jogos. A medida pode ser acompanhada de iniciativas de conscientização, conforme apurou o “The Athletic”.

Contudo, não faltaram exemplos de como o esporte influencia a sociedade neste sentido no decorrer da semana. Depois da acusação de Vini contra o argentino na terça-feira (17), o jornalista Vítor Almeida Gonçalves, do jornal português “Record”, apresentou uma situação.

— Grande parte do mal já está feito. Eu tenho uma filha de 10 anos e, no dia seguinte ao ocorrido (Benfica x Real Madrid), minha filha disse que, na escola, os colegas tampavam o rosto com a camisa e chamavam uns aos outros de macaco. São crianças. É uma imagem chocante dos danos que uma situação dessa pode fazer — disse ele em comentário no “Record na Hora”, do “NOW”.

Além disso, o incidente abriu margem para deixar as pessoas mais confortáveis em destilar o preconceito online.

Sábado (21), na Premier League, Wesley Fofana, do Chelsea, e Hannibal Mejbri, do Burnley, denunciaram terem sido vítimas de racismo no Instagram, e no domingo (22), Tolu Arokodare, dos Wolves, e Romaine Mundle, do Sunderland, também se queixaram de insultos discriminatórios.

Na Escócia, dois jogadores do Rangers, Emmanuel Fernandez e Djeidi Gassama, expuseram comentários racistas recebidos por meio das redes sociais no domingo. Ambos foram alvos de mensagens com emojis de macaco.

— Quando o racismo e o preconceito se tornam normalizados na sociedade, há consequências para todos. (…) Quando o racismo ocorre no futebol, apenas reflete a existência de um problema que ocorre na sociedade em geral. Imploramos a todos que parem e considerem o impacto de seu comportamento online e a contribuição que isso faz na normalização de atos racistas. Não há desculpas — escreveu a organização britânica “Show Racism the Red Card”.

A entidade ressaltou que cobra instituições governamentais e as plataformas sociais na tentativa de implementar “regulamentação mais rigorosa”.

Em relação aos casos registrados na Premier League, torcedores que forem identificados podem ser banidos dos estádios do Reino Unido e estão suscetíveis a responder criminalmente.

Wesley Fofana, zagueiro do Chelsea
Wesley Fofana, zagueiro do Chelsea (Foto: Imago)

No Brasil, o goleiro Hugo Souza, do Corinthians, foi alvo de insultos racistas após o jogo contra a Portuguesa no domingo, pelo Paulistão. O alvinegro derrotou a Lusa por 8 a 7 nos pênaltis nas quartas de final.

Enquanto deixava o gramado, o arqueiro, herói da classificação, ouviu ofensas como “favelado”, “passa fome”, “sem dente” e “piolhento” das arquibancadas do Canindé. Policiais militares estavam bem próximo ao grupo. O momento dos insultos foi flagrado pela “Jovem Pan”.

Em nota, a Portuguesa informou que tenta identificar os responsáveis para aplicar as penas cabíveis e prestou solidariedade a Hugo Souza. O Corinthians também se pronunciou.

— Como agremiação popular, diversa e comprometida com a justiça social, reafirmamos que não aceitaremos que o racismo passe impune em nenhuma circunstância — escreveu o clube.

O goleiro Hugo Souza em partida do Corinthians
O goleiro Hugo Souza em partida do Corinthians (Foto: Icon Sport)

Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, já havia enfatizado à Trivela a necessidade de mudanças em sentenças relacionadas a casos de racismo e apontou como o protocolo da Fifa pode ser “cruel com a vítima”.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) estabelece no Artigo 243-G que “ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência” é cabível de pena de suspensão de cinco a dez jogos e multa que pode variar entre R$ 100 e R$ 100 mil.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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