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Palestina, País Basco, Catalunha e o futebol ‘como alto-falante de causa sociopolítica’

Catalães e bascos, com histórico de luta por independência, fazem amistosos com a seleção palestina e reforçam proximidade entre o esporte e as questões sociais

A Palestina usa a Data Fifa de novembro para fazer dois amistosos no território espanhol, mas nenhum deles contra a Espanha. A seleção asiática marcou uma partida contra País Basco (dia 15) e outra diante da Catalunha (18), regiões com fortes ideais separatistas.

Os jogos naturalmente ultrapassam o mérito esportivo e entram nas esferas política e social pelo apelo às vítimas dos conflitos em Gaza. Os valores são destinados a ações humanitárias no local.

— São amistosos relevantes precisamente devido ao contexto em que ocorrem, de série de mobilizações ao redor do mundo em prol do fim da hostilidade e apoio aos palestinos — explica à Trivela o professor doutor Carles Viñas, PhD de História Contemporânea na Universidade de Barcelona (UB), especializado na relação entre futebol e sociedade.

— O futebol novamente surge como alto-falante de uma causa sociopolítica, porque esportes, em geral, e futebol, em particular, carregam inerentemente esse histórico de serem fenômenos sociais — complementa.

Porém, há outro fator politicamente relevante nesta história. As partidas podem ser uma maneira de indicar que aliados aos movimentos separatistas de Catalunha e País Basco devem ter no futebol uma ferramenta em suas lutas?

“Mais do que isso”, enfatiza Viñas. “Acho significativo que sejam justamente duas seleções nacionais que buscam reconhecimento oficial a jogar contra a Palestina”.

— Apesar do apoio do governo espanhol ao reconhecimento da Palestina, a Federação Espanhola nunca considerou a possibilidade de realizar um amistoso contra a Palestina. O fato de o País Basco e a Catalunha estarem fazendo isso parece muito relevante e demonstra a solidariedade entre os dois povos.

A história dos movimentos separatistas de Catalunha e País Basco

Além dos viés separatista, catalães e bascos têm idiomas próprios e compartilham a resistência à Espanha.

A Catalunha fica no nordeste do país, na divisa com Andorra e França. Tem o catalão como idioma e é parte do território espanhol desde o século XVIII.

O distanciamento para a Espanha com o tempo não ficou restrito à língua, e passou, por exemplo, pelo processo de industrialização mais acelerado e consequente desenvolvimento das cidades. Com autonomia e quase nenhum apego aos conceitos espanhóis, houve movimento por independência da região.

Em 1932, a capital espanhola Madri reconheceu a criação da gestão autônoma e a aprovação de um estatuto próprio da Catalunha. No entanto, o ditador Francisco Franco barrou a emancipação.

As ações voltaram com mais força nos anos 2010, marcados por iniciativas em prol da separação catalã. O governo de Carles Puigdemont, separatista, assumiu em 2016, e no ano seguinte foi anunciado um reverendo por independência.

Na ocasião, 90% foi favorável à emancipação, segundo as autoridades locais. Representantes governamentais espanhóis consideraram o resultado ilegal e o processo não evoluiu até agora.

Torcedores do País Basco com a bandeira da região no estádio em San Mamés
Torcedores do País Basco com a bandeira da região no estádio em San Mamés (Foto: Imago)

A oeste da Catalunha, Aragão e Navarra separam catalães do País Basco. A origem histórica da região basca é marcada por resistência a invasões estrangeiras e preservação de costumes, de modo que falam o idioma mais antigo da Europa: euskara.

Os bascos integram parte da Espanha desde o século XV e também da França, mas neste segundo caso, a separação ficou bem estabelecida no século XVII e não há problemas.

Assim como os catalães, o País Basco teve planos de independência afetados por Franco, o que frustrou a população que lutava por autonomia. Dessa forma, surgiu a organização nacionalista e separatista Euskadi Ta Askatasuna (ETA), que significa “Pátria Basca e Liberdade”. O grupo, criado em 1959, foi classificado como terrorista na União Europeia (UE) e anunciou a dissolução em 2018.

Até que as atividades fossem encerradas, porém, realizou manifestações consideradas muito violentas pelos especialistas, com ataques letais a autoridades militares e governamentais. Dada a forma hostil em que reivindicava a independência, a organização perdeu força com o tempo, mesmo entre os bascos.

Apesar de ter certa autonomia, o local ainda busca ser totalmente independente da Espanha. Contudo, Carles Viñas ressalta que o processo é difícil tanto para bascos quanto para catalães.

— Os contextos interno e externo, o conceito de Estado, especialmente um Estado que faz parte da UE em um mundo globalizado, são fatores importantes — diz.

— A atual conjuntura geopolítica complica esses processos no século XXI, independentemente do apoio social a essas reivindicações. É evidente que o País Basco e a Catalunha possuem identidades distintas, mas a questão mais complexa é em como essa diferença se encaixa em um Estado-nação moderno, sobretudo quando há um nacionalismo que concebe a Espanha de forma antagônica aos nacionalismos periféricos ou alternativos — explica.

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Por que esses amistosos na Espanha vão além do futebol?

O futebol também se aplica neste contexto. Historicamente, afirma o professor, o esporte das quatro linhas não costuma liderar os movimentos sociais, e sim acompanhá-los. Clubes se posicionam, uniformes são pensados para passar algum tipo de mensagem, comunicados divulgados e afins.

Por exemplo, o Barcelona é fortemente associado à Catalunha, e até lançou camisa que reforça o vínculo com a região. Isso mobiliza torcedores, o que reflete outro aspecto — não tão — alheio aos gramados: propaganda.

Torcida do Barcelona com a bandeira da independência catalã durante El Clásico em LaLiga (Foto: Imago)

A visibilidade proporciona que causas de cunho social ou político sejam costumeiramente relacionadas à modalidade, tal qual os amistosos de ambas as seleções contra a Palestina — que também é uma forma de mostrarem que podem “caminhar sozinhas”.

Segundo o especialista, não se pode “dissociar” o futebol da política.

— As partidas permitem que as seleções basca e catalã continuem competindo, mesmo que não oficialmente, mantendo visíveis suas reivindicações por reconhecimento — salienta.

Enquanto tudo está no campo da informalidade legal, não deve haver rusgas entre Catalunha, País Basco e a seleção espanhola, analisa Viñas. Se houver reconhecimento oficial no futuro, os jogadores precisam, então, escolher a qual país desejam representar. “Mas, por agora, isso é puramente hipotético”, reforça.

No cenário hipotético, poderia ocorrer o que há no Reino Unido, onde Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales podem competir separadamente.

Viñas, no entanto, não consegue projetar uma realidade em que isso aconteceria na Espanha dadas as implicações políticas e sociais, embora destaque que o futebol pode, sim, ser aliado de grupos pró-independência.

— Os respectivos movimentos independentistas estão plenamente conscientes do potencial do futebol como ferramenta de propaganda. É por isso que uma de suas reivindicações é o reconhecimento oficial de suas seleções nacionais, que consideram um passo simbólico que os aproxima da conquista de seus objetivos políticos.

Ele relembra ainda que a seleção argelina — por meio da Frente de Libertação Nacional (FNL) — usou o esporte para conscientizar sobre a colonização francesa, e comenta sobre a importância desse tipo de destaque também aos palestinos.

— No caso palestino, os amistosos permitem que sua seleção nacional ganhe visibilidade internacional para sua causa. A seleção palestina tem clareza de que essas partidas, além de proporcionarem alguma continuidade esportiva, são uma ferramenta de propaganda para a causa, devido ao alcance social global do futebol — conclui o professor.

Assim, o placar final fica como mero detalhe nessas partidas.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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