‘Absurdo e perverso’: Mourinho é criticado após ‘justificar’ racismo contra Vinicius Júnior
Técnico do Benfica distorce debate, transfere responsabilidade para a vítima e reforça uma lógica que o futebol insiste em tolerar
José Mourinho sempre flertou com o papel do antagonista. Durante décadas, construiu sua imagem pública misturando carisma, ironia, provocações e ataques diretos. Muitas vezes, isso funcionou como parte de um espetáculo quase teatral. Agora, porém, o treinador ultrapassou uma fronteira mais grave.
Após a vitória do Real Madrid sobre o Benfica por 1 a 0, pelo jogo de ida dos playoffs da Champions League, Mourinho decidiu comentar publicamente a acusação feita por Vinicius Júnior, que afirmou ter sido alvo de insultos racistas durante a partida. Ao invés de adotar uma postura de cautela, respeito e responsabilidade institucional, o português escolheu o caminho da deslegitimação, da insinuação e da transferência de culpa.
Ao sugerir que o comportamento de Vinicius em campo teria provocado a situação, e ao afirmar que “essas coisas acontecem em todos os estádios onde ele joga”, Mourinho não apenas enfraquece o combate ao racismo, como reforça uma lógica perigosa: a de que a vítima é corresponsável pela violência que sofre.
As críticas sobre Mourinho após polêmica com Vinicius Júnior
Ao dizer que o Benfica não poderia ser racista porque a maior figura de sua história é Eusébio, Mourinho recorre a um raciocínio que há décadas sustenta a negação estrutural do racismo: a ideia de que a existência de ídolos negros invalida qualquer denúncia. O “The Athletic” foi crítico ao argumento do treinador:
“A ideia de que, só porque o maior jogador da história do clube é negro, ninguém ligado a eles poderia possivelmente ser racista, é, na melhor das hipóteses, surreal e absurda; na pior, um gaslighting perverso“, diz o site.
Esse tipo de argumento ignora por completo que o racismo não se manifesta apenas em instituições, mas sobretudo em indivíduos, comportamentos, gestos e palavras. A presença de Eusébio na história do Benfica não impede, nem jamais impedirá, que jogadores, torcedores ou membros do clube cometam atos racistas.

Na prática, o que Mourinho fez foi desacreditar publicamente o relato de Vinicius e sugeriu que a vítima interpretou mal, exagerou ou não compreendeu corretamente o que viveu. Quando essa estratégia parte de uma figura com tamanho peso simbólico no futebol europeu, o dano é amplificado.
Não se trata apenas do que foi dito, mas de quem disse. Mourinho é uma das vozes mais influentes do futebol mundial. Tudo o que ele afirma ecoa em jogadores, torcedores, dirigentes e na imprensa. Quando alguém com esse alcance relativiza denúncias de racismo, contribui diretamente para um ambiente de tolerância e silenciamento.
A crítica feita por Jamie Carragher e Micah Richards, na transmissão da “CBS”, escancarou a contradição: poucos personagens no futebol comemoraram e provocaram tanto adversários quanto o próprio Mourinho. Jamais se considerou que isso legitimasse ataques pessoais ou preconceituosos.
A reação pública de Vinicius, em suas redes sociais, expôs não apenas dor, mas exaustão. Mais uma vez, o brasileiro precisou justificar sua existência dentro de campo. Mais uma vez, venceu no futebol e perdeu na humanidade do espetáculo.
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A transferência de culpa em casos de racismo
Talvez o ponto mais grave esteja na tentativa de associar o comportamento de Vinicius em campo ao episódio. Ao criticar sua comemoração e sugerir que ela teria “provocado” reações adversas, Mourinho flerta diretamente com a normalização do abuso racial como resposta emocional.
Trata-se de uma inversão moral: como se a celebração, a irreverência ou a personalidade do atleta justificassem insultos racistas. Como se, diante de um drible, de uma provocação ou de uma dança, o racismo se tornasse uma reação compreensível e quase inevitável.
“Mourinho estava, na prática, dizendo a Vinicius Jr. que ele não ouviu o que diz ter ouvido. Se Mourinho quisesse ser “independente”, tudo o que precisava fazer era dizer que deixaria as coisas até que fossem investigadas”, opina o The Athletic.
🎯 @vinijr pic.twitter.com/GsFh5rDW2p
— Real Madrid C.F. (@realmadrid) February 18, 2026
Essa lógica, infelizmente, acompanha Vinicius ao longo de sua trajetória na Espanha e na Europa. Repetidas vezes, sua postura em campo foi usada como pretexto para relativizar ataques racistas, deslocando o debate da violência sofrida para o comportamento da vítima.
O ex-jogador Clarence Seedorf, hoje comentarista da “Amazon Prime”, sintetizou com precisão o erro de Mourinho: ao dizer que esse tipo de situação “sempre acontece” com Vinicius, o treinador sugere, ainda que implicitamente, que o racismo seria uma consequência natural de seu estilo de jogo. Um raciocínio tão equivocado quanto perigoso.
“Ele (Mourinho) cometeu um grande erro hoje ao justificar o abuso racista. Não estou dizendo que foi o caso hoje, mas ele mencionou algo muito além de apenas hoje; que essas coisas acontecem com Vinicius onde quer que ele vá. Ele está, na verdade, dizendo que está tudo bem quando o Vinicius te provoca você abusar dele racialmente. Isso é muito errado“, disse o holandês.



