Machismo contra Daiane Muniz é mais um show de horror em um futebol que coleciona decepções
Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, proferiu falas machistas e misóginas contra a árbitra após eliminação para o São Paulo
O futebol brasileiro tem gabaritado quando o assunto é tentar diminuir feitos importantes de mulheres no esporte. Seja pela intimidação, desvalorização, falta de reconhecimento, discriminação de gênero e tantas outras formas de exclusão.
Neste sábado (21), Gustavo Marques, zagueiro do Red Bull Bragantino, utilizou a derrota para o São Paulo no Paulistão para atacar a árbitra Daiane Muniz em uma sequência de afirmações machistas e misóginas.
— Primeiramente, quero falar da arbitragem. Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras e Corinthians, e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Eu acho que ela não foi honesta pelo que ela fez — iniciou o jogador.
Eliminado nas quartas de final do estadual, o jogador chegou a afirmar que a Federação Paulista de Futebol não deveria escolher uma mulher para comandar jogos decisivos.
— Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para em jogos desse tamanho não colocar uma mulher. Todo respeito às mulheres do mundo. Eu sou casado, eu tenho minha mãe, então desculpa aí se eu tô falando alguma coisa para as mulheres, mas do tamanho dela, eu acho que ela não tem capacidade de estar apitando um jogo desse — afirmou.
A fala reforça um preconceito diante de um espaço de constante exclusão das mulheres. Para se ter uma ideia, sete dos 18 árbitros brasileiros do Quadro Fifa nunca apitaram uma partida de Série A do Brasileirão masculino na carreira, segundo o levantamento do “ge”, feito em 2025. Todas as sete são mulheres.
Aliás, Daiane foi indicada ao quadro de árbitros da Fifa em janeiro de 2025 após atuar nos Jogos Olímpicos de Paris, incluindo em jogos que decidiam medalhas no torneio de futebol feminino.

Quando um jogador, que diz que proferiu as frases em meio ao “nervosismo, chateação, a tristeza, a amargura”, considerou que a arbitragem “não teve critério para apitar os dois times” por ser mulher, ele tenta encobrir uma atitude rudimentar e inaceitável. A típica raiz do machismo: a tentativa de descredibilizar a mulher.
Aliás, entre as definições de misoginia estão desvalorização no trabalho e fomentando a deslegitimação das mulheres com o ódio direcionado.
É preciso, mais do que nunca — especialmente em um mês em que o futebol brasileiro reinseriu (novamente) um goleiro condenado a 22 anos de prisão pelo assassinato de Elisa Samúdio, mãe do seu filho — que os homens que integram o futebol passem a ser punido pelos crimes e preconceitos proferidos.
Caso a impunidade seja omitida, continuaremos a vivenciar o que a jornalista Milly Lacombe já havia nos alertado: “o futebol será o último espaço onde o machismo deixará de existir. É um meio muito concentrado e poderoso. Um reduto da misoginia”.
É preciso que as ações sigam além de uma simples nota de repúdio, que cairá no esquecimento e muito em breve voltará a ser repetida caso não haja uma punição severa.
O esporte e, especialmente o futebol, precisa deixar de ser espaço em que as ofensas e crimes são passados impunes e os agressores são acolhidos. Ele precisa com urgência torna-se exemplo para a sociedade.

Gustavo Marques, Bragantino e FPF se pronunciam
Após a partida, o jogador Gustavo Marques voltou a falar sobre o ocorrido. O atleta afirmou que se arrependeu e que se dirigiu ao vestiário de Daiane para pedir desculpas pelas ofensas.
— Mais uma vez para pedir perdão para todas as mulheres do Brasil e do mundo. Falei coisa que não deveria naquele momento para a Daniela. Eu fui ali no vestiário dela, pedi perdão a ela e a assistente dela também. Estou aqui mais uma vez para pedir desculpas para todas as mulheres do mundo — declarou.
— Aqui [na zona mista] também tem várias mulheres, quero que possam me perdoar pela minha fala. Tô mal, tô triste… A minha esposa já me xingou, a minha mãe já me xingou, então tô aqui para pedir perdão — afirmou.
Ainda segundo o zagueiro, a árbitra teria aceitado as desculpas do jogador, mas alertou para as falas e para a reação de outras mulheres às declarações que reforçam a discriminação de gênero.
— Ela aceitou o meu perdão. Ela só falou que eu deveria tomar cuidado porque tem mulheres que não vão aceitar a minha fala, mas ela viu que eu estava nervoso, triste e amargurado, ela me perdoou. Ela só falou para ter mais cuidado com as minhas palavras — pontuou.
Em nota, a Federação Paulista de Futebol declarou que recebeu a entrevista do atleta Gustavo Marques com “profunda indignação e revolta” e reforçou que a profissional é uma árbitra da mais alta qualidade técnica, correta e de caráter.
— Uma declaração em relação à árbitra Daiane Muniz que reflete uma visão primitiva, machista, preconceituosa e misógina, incompatível com os valores que regem a sociedade e o futebol. É absolutamente estarrecedor que um atleta, em qualquer circunstância, questione a capacidade de um árbitro com base em seu gênero — destacou a entidade.
Já o Braganino reforçou o pedido de desculpas a todas as mulheres “e, principalmente, à árbitra Daiane Muniz”. O clube afirmou que “não compactua e repudia a fala machista do zagueiro Gustavo Marques, dita após a partida”.
— Sabemos que o peso de uma eliminação é frustrante, mas nada justifica o que foi dito. Seja no futebol ou em qualquer meio da sociedade. O clube vai estudar nos próximos dias a punição que será aplicada ao atleta — afirmou o Bragantino.



