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O segredo da Ferroviária para manter o sucesso que envolve até parceria com o MST

Parceria ofereceu seletiva em assentamento localizado em São Paulo e rendeu integração de jogadora no sub-12

Dois títulos da Copa Libertadores, dois do Campeonatos Brasileiro, uma da Copa do Brasil e quatro de Campeonato Paulista. Com um projeto iniciado ainda em 2001, a Ferroviária entrou para a lista de clubes pioneiros no desenvolvimento do futebol feminino no Brasil, o que proporcionou ao clube um sucesso incomparável ao tradicional time masculino de Araraquara, a quase 300 quilômetros de São Paulo.

A lista de troféus desperta algumas questões. Como um clube do interior de São Paulo mantém um projeto tão vencedor, com a modalidade funcionando de forma ininterrupta há 25 anos?

A Trivela foi atrás das respostas, que convergiram num “segredo” principal: o investimento nas categorias de base.

Em entrevista exclusiva, Nuty Silveira, diretora de futebol da Ferroviária, explicou os investimentos voltados à base e como a iniciativa de fomentar seletivas em diferentes locais pode atrair novos talentos, além de oportunizar carreira para meninas e mulheres que vivem distantes dos polos esportivos.

— Nós sempre gostamos de ter parcerias com projetos porque, mesmo que a gente faça seletivas aqui [Araraquara] ou acompanhe em outros estados, é provável que a gente não consiga chegar em todas as atletas — afirma.

A Escola das Guerreiras atende meninas de 6 a 10 anos e o clube conta com as categorias de competição sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20. Em 2026, a Ferroviária comunicou que adotou o conceito de gestão de segunda equipe, fornecendo os mesmos processos e infraestrutura a todas as equipes. 

A dirigente informou que o processo de captação de novas jogadoras conta com uma profissional voltada especificamente para analisar cenários, buscar parcerias e identificar novos locais para implementar testes.

— Desde 2020 nós temos esse investimento em uma observadora técnica onde essa pessoa, de fato, pode fazer parcerias com projetos, viajar para alguns outros estados para fazer seletiva. [Ela avalia] tanto no estado de São Paulo quanto fora, para que a gente possa chegar mais longe e encontrar, de fato, as jogadoras — explica.

Parceria com MST

A iniciativa do clube abriu margem para algumas histórias interessantes, como a observação de potenciais atletas em assentamentos do Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST).

Ainda em 2025, as Guerreiras Grenás fecharam uma parceria com o MST com o objetivo de realizar seletivas e fazer com que mais atletas de assentamentos e acampamentos de reforma agrária possam construir trajetórias esportivas profissionais.

— Tivemos uma conversa juntos sobre a quantidade de assentamentos que nós temos no Brasil, os diferentes locais, atletas, [o interesse] de meninas que gostavam de jogar futebol, de algumas que já estavam em outros clubes e mostrou esse interesse de fazer essa parceria — detalha Nuty.

— Nós topamos [a parceria] na hora porque é sensacional. Primeiro porque o futebol feminino ele já tem uma causa, já ultrapassa muitas barreiras. Além disso, a gente quer oportunizar à essas meninas, essas mulheres, jogar o futebol — reforça a dirigente.

De acordo com o MST, outro objetivo da parceria é viabilizar que integrantes do movimento possam ser capacitados em diferentes áreas do futebol feminino. No projeto, a ideia é que a Ferroviária viabilize orientação, cursos e vivências no Centro de Treinamento com a finalidade de formar profissionais nas áreas de arbitragem, metodologias de seleção, observação de potenciais atletas e atuação em escolinhas de aprendizagem nos territórios da Reforma Agrária. 

— Essas meninas que estão no assentamento também estão buscando acesso [ao esporte]. Então, convergiu totalmente. Foi de encontro muito do que a gente pensava, e aí nós começamos a idealizar — comenta.

Segundo Nuty, o primeiro movimento aconteceu por meio de uma seletiva em Araraquara. Posteriormente, o setor pediu indicações de jogadoras em que o movimento acreditava que teria potencial para integrar a modalidade.

— Nós conversamos com o pessoal e falamos: “Se vocês tiverem alguma atleta que acham que tem potencial, vem que a gente organiza, custeia as despesas…” e deu certo da Nicoly passar. A nossa ideia é que, a partir de 2026, a gente direcione alguns assentamentos e a gente possa chegar cada vez mais longe — afirma.

Nicoly Gonçalves Dias ganhou uma chance na Ferroviária após parceria com o MST (Foto: Arquivo Pessoal/MST Divulgação)
Nicoly Gonçalves Dias ganhou uma chance na Ferroviária após parceria com o MST (Foto: Arquivo Pessoal/MST Divulgação)

Em meio ao pedido, surgiu a indicação de Nicoly Gonçalves Dias, de 12 anos, que conquistou uma vaga para atuar no clube. Integrante do assentamento Eli Vive, em Londrina, no Paraná, a jovem havia enfrentado algumas recusas de clubes, além da falta de recursos.

— Eu comecei me interessando por futebol, acho que eu tinha uns cinco a seis anos. Para mim está sendo muito gratificante estar vivenciando tudo isso, porque para mim futebol é minha paixão. Para mim é um passo muito a frente, porque disso eu tenho certeza, que vou ser uma nova jogadora — afirmou em entrevista ao MST.

A dirigente das Guerreiras Grenás também relembrou a importância de levar projetos pelo Brasil, fortalecendo a modalidade e criando oportunidade para meninas de diferentes lugares do país.

— Tem muitas meninas jogando futebol no Brasil e a gente precisa chegar até elas. Temos uma força muito grande na nossa formação e sabemos que somos hoje um dos projetos mais robustos na categoria de base. Nós queremos continuar dessa forma. Cada vez mais a gente tem que se reinventar, pensar além, fora da caixa — pontua.

Às vésperas da Copa do Mundo Feminina no Brasil, em 2027, Nuty destaca que os projetos de desenvolvimento se tornam ainda mais importantes as meninas que sonham em jogar futebol, trazendo referências e possibilitando que elas consigam iniciar a trajetória na modalidade.

— [Estamos na] Véspera de Copa do Mundo feminina aqui no Brasil, tem uma ampliação ainda maior para que que as meninas que achavam que era muito distante já comecem a a considerar ser um sonho mais possível — lembra.

Elenco da equipe sub-20 das Guerreiras Grenás, em treinamento no CT do Pinheirinho (Foto: Rafael Zocco/Ferroviária)
Elenco da equipe sub-20 das Guerreiras Grenás, em treinamento no CT do Pinheirinho (Foto: Rafael Zocco/Ferroviária)

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Ferroviária terá o primeiro CT exclusivo para o futebol feminino do Brasil

Atualmente, metade das atletas que formam o elenco do futebol feminino da Ferroviária que disputará a temporada de 2026 foi formada nos campos do Parque Pinheirinho, em Araraquara.

Pela base no clube, a equipe conquistou quatro títulos da Conmebol Fiesta Evolución, sendo três com a categoria Sub-16 e um com a Sub-14, fazendo com que a Ferroviária se tornasse o único clube do continente a conquistar títulos sul-americanos na base e no profissional do futebol feminino.

Com os resultados históricos, a Ferrinha anunciou ainda em 2024 a construção do primeiro Centro de Treinamento do Brasil exclusivo para o futebol feminino. As obras tiveram início em janeiro deste ano e tem previsão de serem concluídas em um ano.

O investimento estimado é de R$ 34 milhões, valor viabilizado por meio da Fundação de Amparo ao Esporte de Araraquara (Fundesport) em convênio com a Petrobras e o Governo Federal.

Projeto CT Ferroviária para o futebol feminino (Foto: Fundesport/Divulgação)
Projeto CT Ferroviária para o futebol feminino (Foto: Fundesport/Divulgação)

A estrutura será construída onde hoje é o CT Olegário Tolói de Oliveira – Dudu, que ficou conhecido como CT do Pinheirinho. Ao final da obra, o espaço passará a ser chamado de “A Aldeia das Guerreiras”, em alusão à alcunha das Guerreiras Grenás.

O projeto prevê seis campos de futebol, sendo um deles estruturado como estádio para mando de jogos das categorias de base e outro contará com gramado sintético. Além disso, o espaço contará com áreas para preparação física, departamento médico e setor de fisioterapia.

O complexo também inclui um hotel para acomodar até 82 atletas de todas as categorias, cozinha industrial, restaurante, lavanderias, rouparias e vestiários, espaços de convivência e apoio à formação das jogadoras.

A ideia do clube é receber meninas do Brasil inteiro e poder desempenhar cursos, palestras para toda a cadeia que envolve o futebol feminino, com parcerias com a Federação Paulista e CBF. Caso esteja finalizado, a ideia é disponibilizar a estrutura para uma seleção durante a Copa do Mundo de 2027.  

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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