Camisa suada, confiança e mais bastidores de como Bad Bunny vestiu agasalho de Pelé
Trivela ouviu colecionador brasileiro responsável pelo empréstimo da peça ao cantor porto-riquenho
O segundo show de Bad Bunny, no último sábado (21), no Allianz Parque, ganhou um apelo especial dos fãs de futebol por um ato do artista. Benito, o nome de registro do cantor porto-riquenho, apareceu em um dos momentos da apresentação vestindo um icônico agasalho utilizado pela seleção brasileira e, especialmente, por Pelé.
A peça, ainda com o logo da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, que se tornaria a CBF), foi usada na Copa do Mundo de 1966 e faz parte do acervo de Cássio Brandão, maior colecionador de camisas do mundo segundo o Guiness Book e sócio de um projeto para preservar itens do Rei do Futebol chamado “Joias da Coroa”.
A Trivela conversou com Brandão para entender os bastidores de todo o processo, desde os primeiros contatos e tratativas com o staff do cantor até Bad Bunny vestir a raríssima peça que foi de Pelé.
Acaso levou camisa de colecionador brasileiro a Bad Bunny
A história que levou o agasalho do acervo de Brandão tem muito de sorte e coincidências.
Ocorreu a partir do produtor Caco de Sousa, que, na noite de quinta, 19 de fevereiro, para sexta-feira, 20, dia do primeiro show de Bunny (no qual o artista se apresentou com uma camisa retrô da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1962), encontrou, por acaso, o estilista do cantor porto-riquenho Marvin Douglas Linares, em uma noitada no centro de São Paulo, que assumiu estar procurando um item para ilustrar a cultura brasileira.
O produtor, como revelou em vídeo nas redes sociais, contatou o colega Dan Moreira já com o agasalho da Seleção da Copa de 1958 em mente. Dan buscou o item e chegou a Cássio Brandão ainda na sexta. A ironia é que Brandão, como vinha do lançamento de um livro sobre camisas do Corinthians, seu time do coração, tinha dado folga a toda sua equipe no Alambrado Futebol e Cultura, o projeto que serve para englobar sua coleção.
— Eles vão na loja do Alambrado, mas estava fechada porque a gente vinha desse lançamento, super intenso, e eu liberei o time inteiro essa semana. Então, por meio de um outro colecionador parceiro, o Dan me procura, com um time que estava cuidando de algumas iniciativas do Bad Bunny, e diz: ‘estamos buscando caminhos para fazer uma conexão entre o Benito e o Brasil. A gente já está falando com os estilistas dele e vimos que você já tinha colocado um agasalho de 1958 que o Pelé usou no Museu do Futebol’ — conta Brandão à Trivela.
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Suspense toma conta antes de cantor usar peça da seleção brasileira
Alinhados na sexta, Dan, Caco e Marvin vão no dia seguinte ao escritório de Cássio Brandão, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, e iniciam o processo de seleção que leva cerca de duas horas, marcado por “muita confiança” e entre cervejas e petiscos.
Após filtrarem dez itens, escolhem três: os agasalhos das Copas de 1958 (este, o objetivo do staff inicialmente e bem parecido) e 1966 (o utilizado) e uma camisa de manga longa da Copa do Mundo de 1978 — produzida pela Adidas, mesma marca que também patrocina Bad Bunny.
— No sábado à tarde, o Marvin, estilista responsável pelo Bad Bunny, visitou o Alambrado e tivemos um papo super legal, uma grande rodada de cocriação juntos aqui. A gente conversa bastante sobre a importância de se reverenciar o Pelé e a seleção brasileira. Discutimos até a lista no final de três itens, selecionados por Marvin e levados ao cantor.
— Eu escrevi um contrato na hora, a gente trocou esse documento por WhatsApp, foi um processo de muita confiança. Eu confiei bastante na equipe do Bad Bunny, eles confiaram bastante em mim — revelou.


A seleção de peças teve algumas limitações, pois algumas camisas, autografadas, poderiam perder sua marca pela previsão de chuva para o sábado — que depois se confirmou no show. “Entendi que seria um risco que a gente não poderia correr”, explica Brandão.
— Eles entendem que aqueles três itens escolhidos conectavam e estavam alinhados com a premissa de resgate da história, de preservação e, naturalmente, eram fashion, estilosos e serviam no Benito.
— Nós reforçamos muito a importância do Pelé, o maior jogador de todos os tempos, um homem negro, latino-americano, e muito conectado com tudo que o Benito vem trazendo dessa latinidade, o quanto poderia ser bacana esse tributo — completa.
O empréstimo das três peças, no entanto, não garantiu que o cantor porto-riquenho realmente usaria algumas delas. Seria uma decisão do estafe dele. A resposta só veio no sábado à noite, com Cássio e os produtores no Allianz Parque para acompanhar o show, convidados pela equipe de Bunny.
— Antes do show, o Marvin me manda uma mensagem dizendo que o agasalho de 66 foi muito bem aceito. E eu contei um pouco mais sobre o item, falando que era um momento de uma transição entre a marca Athleta e a marca inglesa Umbro que deveria vestir a seleção brasileira na Copa de 70. É uma peça que era do acervo do Pelé, vindo direto do Rei. Ela conecta muito com a outra de 58, que tem aquela foto com Pelé e Garrincha abraçados juntos — aponta.
O cantor surgiu com a peça de 1966 em um dos momentos da apresentação, para celebração acalorada dos brasileiros. Até o perfil póstumo de Pelé nas redes sociais exaltou a utilização do agasalho.
— [Ver Benito com a roupa] Foi como comemorar um gol mesmo, muito legal. Eu falei para o pessoal, vamos fazer igual a gente faz lá na Arena Corinthians, só comemora na hora que ele vestir, só grita gol na hora que a bola entrar, não pode gritar gol antes. E foi o que aconteceu.
Bad Bunny mostrou que o futebol tem tudo a ver com música e alegria.
— Pelé (@Pele) February 22, 2026
Em seus dois shows no Brasil, ele fez questão de homenagear o nosso eterno Rei. E isso diz muito. Sobre respeito. Sobre legado. Sobre como o futebol atravessa fronteiras, idiomas e gerações.
Pelé sempre foi do… pic.twitter.com/U7cPV0zGJ0

— O agasalho caiu como se fosse desenhado para ele. Tem uma curiosidade aqui, Pelé e Bad Bunny têm praticamente a mesma altura, só dois centímetros de diferença entre um e outro, isso também ajudou bastante. Que bom que de novo a gente está aqui podendo celebrar um grande artista latino-americano e o maior jogador de todos os tempos.
Bad Bunny ainda homenageou o Rei do Futebol em sua música “MONACO”, na qual trocou a citação a Lionel Messi e colocou o nome do maior atleta brasileiro.
O que você faz não me impressiona
É como marcar um gol depois de Pelé e Maradona
— Cantou Benito durante apresentação no Allianz Parque
Agasalho de Pelé voltou molhado, mas não foi lavado
Como choveu durante a apresentação, o agasalho de Pelé voltou todo molhado, tanto com a água da chuva, como com o suor do cantor.
Como faz em toda peça que recebe no Alambrado, Cássio Brandão não a lavou, apenas higienizou, mesmo processo quando a recebe de algum jogador. “Quando a camisa vem dos gramados, a gente tenta ao máximo preservar sujeira, preservar imperfeição, isso é um elemento fundamental de autenticidade desse item”, explica.
–No domingo pela manhã, eu encontro o estilista Marvin no hotel onde eles estavam hospedados, e ele me devolve as três peças na mesma mala, com o mesmo cuidado que elas saíram do escritório. A peça estava absolutamente molhada, de suor, de chuva, acho que esse foi um elemento bacana.
Além dos shows em São Paulo, Bad Bunny ganhou mais popularidade no Brasil com o show no intervalo do Super Bowl, a final do futebol americano, em 8 de fevereiro, ao reforçar a cultura dos países do continente americano e, em especial, os latinos.
Benito, artista mais ouvido do Spotify por quatro anos (2020, 2021, 2022 e 2025) e com mais de 100 bilhões de reproduções, nunca tinha estado entre os 50 mais ouvidos do streaming no Brasil até sua apresentação na decisão da NFL. Agora, é o cantor internacional mais ouvido, número reforçado também no YouTube.
— [Bad Bunny vestir Pelé] traz muitos significados que transcendem a música, que conectam com a sociedade, que conectam com um princípio tão poderoso quanto o que o futebol traz, que os esportes trazem, de inclusão e conexão. Eu fiquei muito feliz com tudo isso — avalia Cássio Brandão.
Cássio Brandão tinha emprestado roupa da seleção brasileira a Lewis Hamilton
Não é a primeira vez que uma estrela mundial recebe uma peça do maior colecionador do mundo para celebrar a cultura brasileira.
No Grande Prêmio de Fórmula 1 de São Paulo, em 2023, Lewis Hamilton apareceu totalmente trajado com um icônico conjunto da seleção brasileira utilizado na Copa do Mundo de 1994, parte do acervo do Alambrado.
Inclusive, Cássio tentou que o piloto britânico, um “Sir” pela Coroa Britânica, vestisse algo sobre Pelé, mas acabou que Hamilton vestiu a peça do tetra brasileiro.
🏁 Quand Lewis Hamilton était descendu des paddocks de F1 avec ce survêt vintage de la Seleção Brasileira 🇧🇷 des années 90… 💦💦pic.twitter.com/C7Zd3Ic0kS
— MaxMaillots 🇫🇷 (@__MaxMaillots) March 28, 2024
A Trivela questionou se houve similaridade entre os processos de empréstimo à estrela da F1 e a Bad Bunny. “Foram muito parecidos. Teve muito amor envolvido, teve muita confiança envolvida”, detalha.
— Eu não sou um colecionador de muitas camisas, eu sou um colecionador de muitas histórias, um cara apaixonado pelo futebol. Tanto a equipe do Lewis Hamilton lá atrás, quanto agora a do Bad Bunny, entenderam um pouquinho desse amor, o amor em entender que o item não está à venda — completou.
Com os holofotes sob si após os dois casos muito midiáticos, Cássio Brandão, perguntado se gostaria de se tornar o cara a ser procurado por artistas internacionais sempre que quiserem expor a cultura brasileira em suas apresentações ou esportes, se mostrou absolutamente aberto à possibilidade.
— Adoraria ser esse conector, sim, de novos artistas, de novas figuras. E eu quero muito poder, todos os dias, repetidamente, falar mais sobre a história do futebol, sobre o legado. Camisas contam histórias — finalizou.



