Brasil

Busca por item raro e ozônio para preservar peças: conheça a maior coleção de camisas de futebol do mundo

Sonho de criança virou recorde para Cássio Brandão, que tem maior coleção de camisas de futebol do planeta na zona oeste de São Paulo

Limitado para pouquíssimos, o sonho de ser um jogador de futebol parece unânime entre as crianças no Brasil, o dito país do futebol.

Mas o que aproxima um garoto sonhador de um jogador da elite do futebol? No Brasil marcado pela desigualdade social, parece haver um abismo entre os dois, quase impossível de ser ultrapassado.

Há um elemento para que esse menino ou menina fique mais próximo daquele ídolo, se sinta parte do meio. É a camisa do seu time do coração, peça que preserva histórias e pode fazer uma criança se transportar para dentro dos gramados.

Foi esse sentimento que inspirou o paulistano (e corintiano roxo) Cássio Brandão, criado na Vila Albertina, bairro da periferia de São Paulo, a colecionar os uniformes de futebol e se tornar, em abril deste ano, o maior colecionador do mundo pelo Guinness Book.

A Trivela visitou o escritório na zona oeste da capital paulista que guarda as 6101 camisas de futebol, cujas avaliações vão de 400 R$ e R$ 40 mil reais, e também ouviu do colecionador como a Inteligência Artificial tem automatizado o processo para identificação dos uniformes.

O elemento lírico dos uniformes fazia o garoto Cássio sonhar

O menino Cássio da Vila Albertina, que chegou a jogar em times de várzea, via a camisa de time como algo que o fazia ser um verdadeiro jogador do Corinthians.

– A camisa sempre teve para mim um elemento forte de me colocar dentro do gramado. Então, vestir uma camisa meio que automaticamente me transportava para dentro do Pacaembu. Uma coisa era jogar com uma camiseta qualquer, outra era estar com uma camiseta do Corinthians. Eu me senti um pouco jogador. Era como se eu habilitasse uma ‘skin’ de jogador, de melhor jogador. Para mim, a camisa do futebol veio desse campo lírico, desse campo de emoção – contou em entrevista exclusiva à Trivela.

Pela dificuldade em ter acesso a uma camisa, hoje também considerado um “artigo de luxo”, o corintiano, filho de costureira, nunca esperou alcançar a marcar no livro dos recordes.

– Nunca passou pela minha cabeça. Nem no meu melhor sonho eu imaginei que eu poderia transformar essa paixão num negócio, que esse negócio entraria no Guinness e que a gente poderia contar tanta história bacana de uma preservação do futebol. […] Minha mãe é costureira, eu cresci num bairro da periferia da zona norte de São Paulo. Era muito difícil ter uma camisa do Corinthians, era caro. Minha primeira camisa foi meu tio que me deu, eu sou muito corintiano por causa dele — revelou.

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A coleção do recordista

O negócio, citado por Brandão, é o Alambrado Futebol e Cultura, um marketplace de uniformes de futebol criado pelo corintiano em 2018 que já reúne 65 colecionadores.

Guinness Book, o livro dos recordes, reconheceu o paulistano Cássio Brandão como o maior colecionador de camisas do mundo
Guinness Book, o livro dos recordes, reconheceu o paulistano Cássio Brandão como o maior colecionador de camisas do mundo (Foto: Reprodução)

Se antes vestir o manto de seu time de coração te fazia se sentir “parte do jogo”, agora Cássio, também um executivo bem-sucedido, busca preservar a história do futebol brasileiro, não apenas do Corinthians.

– A camisa representa hoje a possibilidade de contar a história, de tirar uma camisa do cabide e vir com ela junto uma história de superação, uma vitória, uma derrota, uma curiosidade sobre um patrocínio, uma discussão que houve na época. Então ela sai desse campo da fantasia e hoje ela está no campo da preservação histórica. E esse é um trabalho que eu tenho muito orgulho de fazer – detalhou.

São 1800 times e seleções diferentes na coleção. De históricas camisas vestidas por Pelé, Maradona e Zico para até times de várzea e outros que nem existem mais.

Em todo ambiente há espaços dedicados aos ídolos do paulistano. Vários quadros do Rei Pelé, referências a Sócrates e a coleção completa com todas as camisas utilizadas pelo outro Cássio, o goleiro, xará do colecionador.

Escritório do brasileiro que é o maior colecionador de camisas do mundo
Camisa de Pelé que seria da icônica imagem com o suor em formato de coração (Foto: Trivela)

“Shazam do Futebol”: como a inteligência artificial pode ser usada para autenticar os itens de colecionador

E quem pensa que é apenas colocar as camisas em cabides e as estender em araras está enganado. No escritório de 150 metros quadrados, há todo um cuidado especial e regular.

Para evitar mudanças bruscas de temperatura, o ar-condicionado está sempre nos 26 °C, e a umidade é controlada para permanecer nos 55%. Acontecem até aplicações de ozônio a cada três meses, além de dedetização a cada seis.

O escritório que abriga as mais de 6 mil camisas do maior colecionador do mundo
O escritório que abriga as mais de 6 mil camisas do maior colecionador do mundo (Foto: Trivela)

Tudo isso para preservar o que há de mais importantes nesses tecidos: as histórias. Nenhuma camisa é lavada ou restaurada. Para Cássio, cada mancha de lama ou um patrocínio descolando contam o que aconteceu naquele jogo ou um conto pregresso.

Inclusive, as marcas da partida servem para o colecionador até como uma comprovação que aquele uniforme foi realmente vestido por alguns jogadores.

O paulistano busca fotos e matérias de jornais e revistas da época do jogo, consulta outros colecionadores de confiança e fontes ligadas ao futebol e procura detalhes de patrocínios e do formato dos números nas costas.

— Só falamos que a camisa foi usada pelo jogador quando a gente tem certeza. Quando a gente consegue uma foto antiga, uma história profunda de alguém ligado ao futebol e também o endosso de algum outro colecionador que faz parte da nossa rede. […] Às vezes você entra lá no Mercado Livre, o cara tá dizendo o camisa usada pelo Zico. Quem garante que essa camisa foi usada pelo Zico? Quais são as imagens? — questiona ele.

Definido pelo colecionador como um trabalho manual, como uma alfaiataria, ele quer tirar esse olhar humano e incluir a inteligência artificial no processo.

Neste momento, Cássio trabalha com engenheiros da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) para ensinar uma máquina a fazer esse trabalho de checagem com fotos e jornais da época e confirmar se realmente um atleta vestiu o uniforme.

— A missão hoje é tirar a certificação da visão do Cássio e colocar a certificação na visão da máquina. Eu gostaria de que se eu receber uma camisa, por exemplo do Darío Pereyra, ao invés de buscar as imagens do São Paulo do ano, cruzar imagens da Revista Placar, da Gazeta Esportiva e conversar com os colecionadores, eu fotografe essa camisa em 5 ou 6 posições diferentes e um sistema vai me dizer se ela foi ou não usada pelo jogador.

— Acredito que utilizar a IA vai não só ampliar a possibilidade de mais colecionadores certificarem os seus itens, como ela traz um pouco do charme da tecnologia, e mantém o objetivo de contar histórias e preservar a memória do futebol. […] A ideia amanhã é, quem sabe, ser um APP, um ‘Shazam’ [aplicativo que identifica músicas] das camisas de futebol.

Cássio busca preservar a história do futebol brasileiro a partir da coleção de camisas (Foto: Reprodução)

Viagem de carro até Londrina e parado pela polícia: o maior perrengue de Cássio para aumentar coleção

Quem nunca fez uma loucura por uma paixão, né? É assim que se justifica a busca de Cássio, de carro de São Paulo até Londrina, por um lote de camisas de um ex-presidente da já extinta Sociedade Esportiva Matsubara.

Além da coragem, o colecionador passou por um perrengue: na volta, foi parado pela polícia, que exigia a nota fiscal das centenas de camisa que adquiriu.

– As compras por lote são compras que, se bem garimpadas, são muito interessantes, porque pega uma vários uniformes por um preço menor. Uma vez eu comprei uma coleção grande de um presidente do Matsubara e fui buscar essas camisas, em Londrina, de carro. E aí, na volta, fui parado pela polícia, que me deu uma canseira. Ele viu que o carro estava cheio de camisas e queria saber de onde vinha, o que estava fazendo com aquelas camisas. ‘Cadê a nota fiscal dessas camisas?’, pedia.

No fim, após mais de meia hora de conversa entre o colecionador e a autoridade policial, ele conseguiu impedir que o lote fosse apreendido.

A negociação mais complexa atrás de um uniforme histórico

Como um cara que escolhe bem as palavras, Cássio Brandão define as camisas com o “peso de obra de arte” e trata a negociação por elas como uma dança.

Às vezes está mais próximo, colado, aí certo momento se distancia, indo e voltando.

Nesses 24 anos colecionando, desde 2000, o paulistano tem uma camisa muito especial, de um personagem de família também especial, que rendeu o processo longo até, enfim, ter em mãos.

Era o último uniforme que vestiu Sócrates pelo Corinthians. O item pertencia a Sérgio Rebolo, neto de Francisco Rebolo, marcante artista plástico brasileiro e o responsável por desenhar o escudo do Alvinegro de Itaquera.

— O Serginho, neto do Francisco Rebolo, tinha a camisa do Sócrates do último jogo dele pelo Corinthians. Ficamos numa negociação por mais de um ano. Ele não queria vender e eu queria muito comprar. Enfim, a gente conseguiu fechar esse negócio, e é uma camisa que eu tenho muito orgulho e muito carinho de ter lá na coleção.

Falta alguma camisa para o maior colecionador do mundo?

 
Coleção de 1,7 mil camisas do Corinthians de Cássio Brandão

Dentre mais de 6 mil, alguns podem pensar que já está ótimo por ter alcançado o Guinness. Há quase de tudo na coleção: várias camisas usadas por ídolos brasileiros e internacionais.

Os valores vão de R$ 400 até R$ 40 mil (no caso, a última usada por Diego Armando Maradona no Napoli). Mas isso não quer dizer que a coleção para por aí e ainda falta muita coisa, segundo o corintiano.

Hoje, ele ainda busca vários uniformes diferentes, obviamente com a preferência ao Alvinegro do coração. Só do Corinthians são 1,7 mil itens e tem mais para serem adicionados à coleção.

— São algumas (que eu busco), tá? Tem uma camisa do Corinthians que é muito rara porque jogou apenas duas vezes na Taça de Porto Alegre com o patrocínio da Lojicred [extinta empresa financeira]. Na sequência, o Corinthians jogou pouquíssimos jogos com patrocínio na Bradesco, também não tenho essa camisa na minha coleção.

Cássio também busca tudo o que vestiu o ex-goleiro Ronaldo Giovanelli, ídolo corintiano, e também do outro Ronaldo, o Fenômeno, mas uniformes que o então atacante vestiu antes do Timão, já que tudo que o camisa 9 usou no Alvinegro ele tem.

— Ronaldo Giovanelli falta bastante coisa pra mim ainda, ele jogou com muitas estampas, a Finta produziu bastante coisa, então eu tenho buscado bastante coisa dele. Ronaldo Fenômeno eu tenho tudo que ele jogou no Corinthians, mas queria as do comecinho da carreira dele, no São Cristóvão, no PSV. É um trabalho contínuo. Eu vou continuar procurando, buscando e com muito respeito, com muito cuidado, tentando construir e aumentar a história do futebol.

Camisa branca com detalhes em azul do Napoli de 1991, último ano de Diego Armando Maradona no clube
Camisa branca com detalhes em azul do Napoli de 1991, último ano de Diego Armando Maradona no clube (Foto: Trivela)

Os novos mercados: camisas “tailandesas” e junção de uniformes e moda

É quase impossível ser fã de camisas de futebol e nunca ter ouvido falar das famosas “tailandesas“, uniformes piratas, cópias quase idênticas feita em países asiáticos e comercializados em sites como Shopee e AliExpress.

E isso também chega e impacta no trabalho de Cássio Brandão. Segundo o colecionador, isso atinge toda a cadeia, mas entende que o movimento nada mais é que uma consequência dos preços exorbitantes dos itens oficiais.

— As tailandesas surgem um pouco no vácuo desse da carga tributária, do custo alto, enfim, isso é muito ruim para o mercado. Deveria existir um olhar mais amplo de discussão envolvendo os fabricantes, os clubes de futebol, os varejistas, toda a cadeia para que não tivesse camisas sendo lançadas a R$ 500 num país como o Brasil, onde as pessoas não tem dinheiro muitas vezes para ter essa camisa oficial.

E com esse boom de mais camisas no mercado, sejam oficiais ou não, também surgem movimentos para torná-las uma peça do look para ir para qualquer lugar.

Pode ser uma simples ida ao mercado, um jantar romântico ou até um desfile de moda – a Trivela abordou essa nova onda na última semana.

Esse movimento chegou também ao maior colecionador de camisas do mundo. O paulistano percebeu um novo perfil de comprador, que muitas vezes nem liga para o que a camisa significa e sim para o estilo que pode montar.

— Tem crescido um comprador que cada vez mais não tá nem ligado se a camisa é do Coritiba ou não, mas ele quer uma camisa verde para montar um look que ele tá desenhando, que é um homem ou uma mulher ligados no estilo e compram nessa pegada de fashion mesmo, de moda. E eu adoro isso, cara, eu acho que é importante, porque nesse processo todo de fashion a gente continua falando sobre de alguma maneira preservar a história.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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