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Arrume-se comigo e o bloke core: como o futebol furou a bolha e virou, de fato, moda

Das periferias do Brasil às ruas de Paris, de Beckham a Jules Koundé, mistura entre futebol e mundo fashion é antiga, mas ganhou novas conotações

Você, leitor, com certeza já se deparou com aquele meme de um casal saindo para um encontro, a mulher, toda arrumada, usando saltos, com maquiagem, unhas e cabelos feitos, enquanto o homem aparece de bermuda e camisa de time.

A mensagem é sempre clara: ele não está “arrumado o suficiente”. Mas sejamos realistas: em 2024, esse conceito não faz mais tanto sentido assim. E a Trivela te explica por quê.

A verdade é que futebol e moda sempre estiveram juntos – talvez não tão próximos como atualmente. Mas é certo que o uso das redes sociais, principalmente as baseadas em vídeos curtos, intensificaram essa relação. Os dois mundos, porém, se misturam há mais tempo do que se imagina.

Os anos 1990 e 2000 e o fenômeno David Beckham

Há 30 anos, um jovem talentoso inglês aproximou os universos fashion e da bola como nunca antes em qualquer país. David Beckham foi alçado a símbolo metrossexual e conciliou a carreira de jogador com aparições em capas de revistas e eventos de moda. Suas cobranças de falta reverberaram não só a favor do Manchester United, mas viraram filme e o primeiro grande papel da musa Keira Knightley (‘Bend it Like Beckham' – Driblando o Destino).

Os “looks”, penteados e estilo de Beckham influenciaram toda uma geração – tudo, claro, com um empurrãozinho de sua esposa Victoria Beckham, à época um ícone pop por sua participação no grupo musical Spice Girls.

A mudança do casal para Los Angeles, onde o meia atuou pelo LA Galaxy, e posteriormente para Milão (Milan) e Paris (PSG), só reforçaram a presença de Beckham e Victoria em tapetes vermelhos de estreias cinematográficas e em campanhas publicitárias das principais marcas de luxo do planeta.

Michael Jordan, o tênis proibido e o pioneirismo

Para falar de moda e esporte, não podemos deixar de lado o basquete. Como se não bastassem os 6 títulos de NBA nas costas, Michael Jordan fez história também na moda. O jogador foi o primeiro a usar os shorts longos como os que vemos atualmente, fazendo a NBA abandonar os shorts curtos pelos mais alongados e largos.

E se você acha que isso já é muita influência, o tênis histórico que carrega seu nome, o Air Jordan, criado pela Nike quando ele chegou na liga, é um dos maiores até hoje – e quem diz isso são os números: segundo relatório do Front Office Sports, a marca Jordan (parceria entre Nike e Michael Jordan) faturou, nos últimos cinco anos, US$ 19,4 bilhões em receita entre 2018 e 2022.

O que Jordan fez com o tênis foi transformar um simples artigo esportivo em verdadeira expressão de estilo, conforto e identidade. Não à toa, o camisa 23 dos Chicago Bulls foi proibido de usar seu tênis em parceria com a Nike porque a liga o considerava chamativo demais. Depois de muita discussão e multas, a NBA cedeu à pressão das marcas e liberou o uso do tênis. E o resto é história.

Seguindo os passos de Jordan, vieram Dwyane Wade, P.J. Tucker, LeBron James e muitos outros. Este último, inclusive, é embaixador da grife Louis Vuitton.

Futebol e grifes se auto-impulsionam

Que alguns jogadores e torcedores de futebol têm afinidade com a moda não é novidade. Mas agora estamos indo na direção oposta: uma nova era em que o mundo da moda está abraçando com entusiasmo o futebol. E não dá para começar a falar dessa nova era sem citar Virgil Abloh, designer norte-americano das marcas Louis Vuitton e Off-White.

Lá em 2017, quando a relação futebol x moda ainda não havia explodido, Abloh viu que existia potencial suficiente para mostrar ao mundo que juntar esses dois opostos seria sim uma boa ideia.

E foi com a ajuda de Kylian Mbappé que o designer abriu espaço para aquilo que muitos pensavam ser impossível: uma chuteira com assinatura de um designer renomado, exibida nos pés de um dos maiores jogadores da atualidade.

Mbappé é estrela de Virgil Abloh para lançamento de chuteira.
Mbappé é estrela de Virgil Abloh para lançamento de chuteira. (Foto: Divulgação/Nike)

Inspirado pelo sucesso, Virgil foi além e lançou uma coleção especial para a Copa do Mundo de 2018, chamada de “Football, Mon Amour”, que explodiu e virou, de fato, um encontro entre o futebol e a moda de rua. As camisas da collab entre a Off-White e a Nike foram utilizadas até por personalidades como Justin Bieber.

O futebol está em tudo

Diana Al Shammari é uma refugiada iraquiana de 27 anos, que hoje mora nos Estados Unidos, e seu hobby é bordar. Você deve estar se perguntando o que ela tem a ver com o futebol, e eu te respondo: tudo. A artista, que tem uma conta no Instagram chamada @thefootballgal, dá o toque de moda nas peças, com seus lindos bordados.

Em entrevista à CNN, a artista revelou que o futebol sempre esteve em tudo o que ela faz: “Meu trabalho surgiu do meu amor pela criatividade e de sempre incorporar o futebol em tudo que faço. O futebol, quando eu era mais jovem, era uma grande distração do caos que acontecia ao meu redor”, afirmou.

Em junho deste ano, Diana emplacou numa parceria gigantesca: ela, o jogador de futebol Jules Koundé e a Adidas fizeram um lançamento exclusivo para a nova loja da marca na Champs-Élysées, em Paris. O resultado: sold-out, todas as peças foram vendidas.

A camisa está estampada com o número de Barcelona '23' do Koundé na frente, e atrás e há um patch na manga com o número '98', o ano de nascimento do jogador e um ano histórico para o futebol francês também (quem não se lembra dos “3 a 0” na final da Copa do Mundo contra o Brasil?).

No colarinho da camisa, tem a frase “be you, do you” (seja você, faça você). Segundo Diana, a frase significa muito para ela e para o jogador e é “um ótimo lembrete de sempre ser verdadeiro a você mesmo e confiar na sua visão”.

Bloke Core: a moda abraça o futebol

Visto nos pés de influenciadores, modelos e cantores como Gigi Hadid, Kendall Jenner, Rihanna e ASAP Rocky, o Adidas Samba, tênis que virou febre na moda streetwear e, em especial, no Bloke Core (nicho da moda que combina camisas de time com moda casual), tem origem em uma chuteira.

Sim, isso mesmo. O tênis surgiu nos anos 50, quando um time alemão criou um tênis projetado especialmente para campos com gelo e neve, hoje é item indispensável nos pés de quem dita tendências.

Além dos tênis, uma peça que é item essencial na moda streetwear são as camisas, por muito tempo marcadas como itens da cultura da periferia e, obviamente, de uso exclusivo para os amantes do esporte – em especial, os homens, não à toa o meme do date.

Para entendermos como a Bloke Core alcançou no mundo, basta olhar para a própria Adidas. A marca lançou, em 2023, as camisas oficiais da Seleção da Jamaica de futebol na Semana de Moda de Paris – a mais importante do mundo fashion.

Esse ano, a supermodelo brasileira Alessandra Ambrósio apareceu em Paris com uma camisa do Grêmio, seu time de coração.

A ação foi realizada pela cerveja Brahma, que contratou a modelo para montar um look que representasse a paixão do brasileiro por camisas de futebol.

Para entender melhor sobre essa tendência, a Trivela conversou com a Kamila, criadora do perfil @vadecamisa, que cria looks com camisas de futebol e mostra que as peças não devem ficar apenas presas aos estádios, e muito menos só aos homens.

“Essa trend de Bloke Core, que é a das camisas de futebol, serviu pra quebrar muitos dos paradigmas e preconceitos. Realmente, antes, eu usava camisa e as pessoas sempre olhavam, meio assim: ‘por que você tá com a camisa?'. Hoje é mais comum sair numa balada e ver mais mulheres também. Realmente era muito difícil você ver uma menina num bar ou em algum lugar com uma camisa. Hoje em dia você vê mais – disse Kamila.

Se é para abrir espaço para mulheres e outras minorias, quem faz isso com maestria é Megan Rapinoe. A jogadora de futebol norte-americana, aproveitou a sua voz ativa e criou, com a Nike, uma coleção própria com o nome “Victory Redefined”.

A ideia da jogadora é ressignificar a palavra “vitória” e criar um legado no esporte. A logo é um “V” composto pelas cores do arco-íris e por cápsulas menores, onde cada uma representa diferentes comunidades de todas as esferas da vida.

“Eu amo jogar futebol e esse esporte me deu muitas coisas na vida. Mas a coisa mais incrível que ganhei com o futebol foi uma plataforma para me expressar e lugar pelas coisas que eu amo”, disse a jogadora.

A influência de Rapinoe chegou também às marcas de luxo. Em 2020, a norte-americana foi estrela da campanha de outono-inverno daquele ano da Loewe, que pertence ao grupo de luxo francês LVMH.

Get Ready With Me – versão camisa de time

Os influenciadores famosos não poderiam ficar fora desse movimento. Malu Borges, influenciadora carioca e assumidamente vascaína, ficou conhecida por montar looks extravagantes na internet, embarcando na trend Get Ready With Me (em português, arrume-se comigo), onde criadores de conteúdo gravam pequenos vídeos se arrumando para alguma ocasião.

Malu é o exemplo perfeito da atual sinergia entre futebol e moda. A influencer trabalha e monta looks com grandes marcas de grife, como Gucci, Prada e Yves Saint Laurent, mas viu no futebol uma forma de furar a bolha e atingir também outros públicos.

O mesmo acontece com Lelê Burnier, do mesmo nicho de Malu Borges, e torcedora do Fluminense.

Essa afinidade entre influenciadoras de moda com o futebol pode até dividir opiniões, mas não podemos negar que abre espaço para um público sempre muito desrespeitado no esporte, em especial no futebol: as mulheres.

A Trivela conversou com Bia Ávila, comunicadora de moda e adepta do estilo streetwear, sobre como a bloke core pode aproximar as mulheres do esporte:

– A sociedade não pensa no feminino quando falamos de futebol, por exemplo. Porém, as mulheres vêm se mostrando cada vez mais capazes e muitas vezes melhores do que os homens em muitas categorias de esporte e com o futebol não é diferente. Assim, eu acho que também influencia no uso das camisas de futebol! – analisa.

– Temos cada vez mais presença de comentaristas mulheres, equipes, arbitragem, jornalistas etc, formadas por figuras femininas muito fortes, então as barreiras entre usar algo considerado masculino estão cada vez menores. E na moda, como foco da pergunta, não existem limites – pontua.

A origem periférica das camisas de futebol

No dicionário, “moda” tem por definição o uso, hábito ou forma de agir característica de um determinado meio, ou de uma determinada épocacostume. E nesse sentido, é injusto e elitista dizer que “a moda das camisas de futebol” começou com uma trend nas redes sociais.

Há muitos anos, camisas de time fazem parte da cultura da periferia brasileira, como um verdadeiro símbolo de identidade.

Este símbolo, porém, sempre foi marginalizado, assim como toda a cultura o que nasce nos extremos das cidades. Observada sob uma ótica negativa, a camisa de futebol sempre fez parte do vestuário de meninos, meninas, homens e mulheres que moram na favela e nas partes mais pobres de todo o país.

O futebol, esporte preferido de muitos brasileiros, e popularizado nas camadas mais baixas da sociedade, ganha, sim, mais espaço com a internet, blogueiras e parcerias com grifes de moda, mas não devemos esquecer a importância da sua origem.

– A moda, as tendências, elas tendem a se aproveitar daquilo que acontece na rua, no dia a dia. Então, pensando aqui no Brasil, a moda imitou a vida, por assim dizer. As marcas e a tendência fashion, observou o movimento normal do brasileiro, principalmente aquele de comunidades e classes sociais mais baixas, conhecidos por sempre usarem camisa de time como peça chave nos looks, e se apagaram ao estilo – afirma Bia Ávila.

– E reforço que é uma estética que deriva, na maioria, de nossas comunidades, e apesar da camiseta de time ser algo cultural no Brasil, foi a periferia que transformou elas em ‘itens de moda' – conclui.

Foto de Gabriella Telles

Gabriella TellesRedatora de esportes

Gabriella Telles é jornalista formada pela UFRJ, faz pós-graduação em Gestão Estratégica de Marketing. Já trabalhou na TNT Sports na cobertura da Rio 2016, futebol internacional e eSports. Nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro.
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