Mundo

O importante apoio de técnicos negros a Vinicius Júnior é tão simbólico quanto revelador

Belga adota discurso mais direto e rechaça declarações de José Mourinho, enquanto o treinador brasileiro trata o incidente como 'caso isolado'

A comunidade do futebol — e em especial de treinadores negros — tem se posicionado sobre a acusação de racismo feita por Vinicius Júnior contra Gianluca Prestianni durante Benfica x Real Madrid na terça-feira (17), pela Champions League.

O mais recente a se pronunciar foi Vincent Kompany, treinador do Bayern de Munique. O belga é um dos técnicos negros que atuam em grandes equipes europeias a lamentar publicamente a forma como Vini teria sido descredibilizado e, de modo geral, condenar o racismo na sociedade.

A importância tanto de Kompany quanto de Liam Rosenior, do Chelsea, e Nuno Espírito Santo, do West Ham, treinadores negros nas principais ligas europeias, apoiarem Vinicius Júnior, é simbólica.

A falta de mais profissionais negros no futebol de elite, ainda mais na área técnica, é um problema antigo.

A solidariedade do trio em — mais um — momento delicado para Vinícius Júnior reflete a relevância de ter um futebol mais diverso e plural dentro e fora de campo.

Kompany fez discurso de quase 13 minutos e dividiu a situação em três prismas: o primeiro foi o que aconteceu no campo; o segundo, o que ocorreu nas arquibancadas. Em terceiro, o posterior à partida.

Ele afirmou ter assistido ao jogo — que terminou em 1 a 0 para os Merengues — e, assim, viu todas as nuances.

Kompany critica Mourinho após acusação de Vinicius Júnior contra Prestianni

O momento que deveria ser de alegria para Vini, que havia acabado de anotar um golaço, tomou proporções diferentes quando o protocolo antirracismo da Fifa precisou ser acionado.

O brasileiro correu ao árbitro Francois Letexier e denunciou ter sido vítima de racismo depois de ouvir uma fala do meia-atacante rival. O argentino cobriu a boca com a camisa antes de proferir a suposta ofensa.

De acordo com o astro do Real Madrid, Prestianni o chamou de “mono”, que é “macaco” em espanhol. O adversário negou e disse que “não dirigiu insultos racistas” a Vini. Segundo ele, o craque “interpretou errado” o que teria sido dito. O Benfica declarou apoio ao argentino.

Quando se vê como Vini Júnior reage, a reação dele não pode ser encenação. É uma reação emocional. Não vejo nenhum benefício em ele ir até o árbitro e assumir esse sofrimento. Não há absolutamente nenhum motivo para ele fazer isso. Acredito que ele fez isso porque achou que era a coisa certa a fazer — analisou Kompany em entrevista coletiva concedida nesta sexta-feira (20).

Vinicius Jr. denunciou ofensa racista de Gianluca Prestianni em Benfica x Real Madrid (Foto: Imago)
Vinicius Jr. denunciou ofensa racista de Gianluca Prestianni em Benfica x Real Madrid (Foto: Imago)

Conforme a ordem que dividiu a observação, o técnico bávaro ressaltou que pessoas no Estádio da Luz, em Portugal, fizeram gestos que imitavam macacos, e também lamentou isso. “Dá para ver no vídeo”, salientou.

Outros destaques na declaração de Kompany foram as reações posteriores ao jogo. “Além de Vini, há Kylian Mbappé, que costuma ser muito diplomático. Mbappé tem plena consciência do que viu e ouviu, e fala sobre isso depois do jogo“, disse o belga, que não gostou nada das declarações de José Mourinho, treinador do Benfica.

José Mourinho ataca o caráter de Vinicius Júnior ao mencionar o tipo de comemoração (dança próximo à bandeirinha) para descredibilizar o comportamento de Vinicius Júnior naquele momento. Para mim, é um grande erro de liderança. É algo que não podemos aceitar — disparou.

Na referida fala pós-jogo, Mourinho ainda sugere que o Benfica não poderia ser racista porque a maior figura de sua história é Eusébio, o que Kompany rechaçou.

— Você sabe pelo que jogadores negros tiveram que passar nos anos 60? Ele (Mourinho) estava lá para viajar com Eusébio em todos os jogos fora de casa? (…) Não estou julgando Mourinho como pessoa, mas ele cometeu um erro.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Técnicos negros endossam coro por combate ao racismo

Liam Rosenior, treinador do Chelsea, adotou abordagem semelhante a Kompany. “As pessoas precisam entender que ser julgado por algo que deveria te dar orgulho é o pior sentimento. O racismo tem raízes históricas”, declarou ele na quinta-feira (19).

O que digo é que, quando se vê um jogador ficar chateado como Vinicius Júnior ficou, normalmente há um motivo. Eu já sofri racismo — pontuou.

No mesmo dia, Nuno Espírito Santo, outro técnico negro, deixou suas considerações sobre o incidente. “Condeno sempre”, destacou o comandante do West Ham em coletiva. “Não há espaço para o racismo no futebol nem na sociedade”, complementou o português, que ainda considerou essencial que haja mais esforço em erradicar o problema.

Vinicius Júnior virou uma voz contra o racismo em todo o mundo esportivo (Foto: Icon Sport)

Treinadores brancos também se posicionaram. Arne Slot, técnico do Liverpool, ponderou ser necessário mais afinco neste combate.

Outro nome forte da Premier League a se pronunciar foi Pep Guardiola, do Manchester City. “Eu disse há uma semana atrás. O lugar onde você nasceu ou a cor da sua pele não te torna melhor ou pior que ninguém”, iniciou ele nesta sexta.

— Ainda há muito trabalho a ser feito. O racismo está na sociedade, não apenas no futebol. Está em toda parte.

Luis Enrique, do PSG, foi na contramão de Kompany em relação ao tempo e dedicou apenas alguns segundos ao tema. Depois de um silêncio considerável entre a pergunta e a resposta, o espanhol afirmou:

O que eu posso dizer sobre este assunto não tem importância.

Já no futebol sul-americano, Filipe Luís tratou a situação como “caso isolado”.

O treinador do Flamengo foi questionado sobre o incidente após a derrota em 1 a 0 para o Lanús na Recopa, na quinta-feira. O jogo ocorreu no estádio La Fortaleza, em Buenos Aires, Argentina.

— Sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo.

A frase de Filipe Luís repercutiu mal nas redes sociais e gerou críticas, especialmente diante do contexto de que há dezenas de denúncias de casos de racismo em jogos que envolveram times argentinos nas competições da Conmebol na última década.

A mensagem, ainda mais considerando que Vini Júnior foi revelado no próprio Flamengo, não caiu bem.

O caso do atacante do Real Madrid está sob investigação da Uefa e, de acordo com a “Sky Sports”, o processo pode levar até três semanas para ser finalizado.

A entidade estabelece como sanção mínima em condenação por racismo a suspensão de 10 jogos. A medida pode ser acompanhada de iniciativas de conscientização, conforme apontou o “The Athletic”.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes. Se formou em Comunicação Social em 2019.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo