Europa

Presidente do Real Madrid volta a defender a Superliga e ataca a Uefa, mas falta autocrítica

Para Pérez, futebol vive crise sem precedentes, faz previsões catastróficas e ataca mudanças feitas pela Uefa na Champions League

O presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, segue defendendo a ideia da Superliga Europeia de Clubes, algo que foi anunciado em abril de 2021 e colapsou 48 horas depois. O dirigente segue preso àquela ideia, tem esperança de vencer uma batalha jurídica com a Uefa, a quem atacou pela sua gestão. Aliás, atacou La Liga também. Fez previsões catastróficas, anunciando uma crise enorme do futebol, e deixando a entender que só uma ideia como a Superliga pode salvar o futebol.

Crise constatada e comparação com os EUA

“O futebol sofre uma crise institucional sem precedentes em todos os níveis, tanto na Espanha quanto na Europa. A situação é muito grave. Há uma série de gestores que atuam sem pensar nos torcedores. O futebol europeu não pertence ao presidente da Uefa e o futebol espanhol não pertence ao presidente de La Liga”, disparou Pérez.

“Os clubes de futebol têm sido superados pelos clubes americanos de outros esportes. As 10 primeiras entidades esportivas do ranking da Forbes são as equipes de outros esportes. Os americanos devem estar fazendo algo muito bem e algo que devemos estar fazendo muito mal na Europa”, disse Florentino Pérez, fazendo uma comparação bastante simplista.

O mercado americano é muito diferente porque suas principais ligas são mercados à parte do resto do mundo. A NBA não se compara a qualquer outra liga de basquete do mundo. O mercado americano para isso é enorme, maior do que a Europa inteira. O caso da NFL é ainda menos comparável. É um esporte que praticamente só existe, profissionalmente, nos Estados Unidos, que é um país muito particular em relação a direitos de TV.

Vale lembrar, por exemplo, que os direitos de transmissão da Copa do Mundo que custam mais caro são os dos Estados Unidos, não da Europa ou América do Sul. Comparar as franquias da NFL na lista da Forbes com os clubes europeus é difícil também por isso. Entrar na NFL é algo que nenhum Real Madrid poderá fazer, nunca. E criar uma NFL, uma liga fechada, dentro da realidade do futebol, um esporte global, é impossível. E mesmo que fosse possível, não é possível replicar o mercado americano.

Superliga: Pérez diz que objetivo é defender o espetáculo

“Precisamos impor, de uma vez por todas, máximo respeito pelas regras do Fair Play Financeiro. Para conseguir isso, precisamos ser transparentes e modernos nas estruturas de governança corporativa que sejam adequadas ao século 21 e sujeitos aos princípios e leis da União Europeia”, disse.

“A Uefa continua a gerir as competições do mesmo modo há 30 anos. Sem inovação, sem modernização, sem transparência, sem trazer a competição para mais perto dos torcedores”, disse o presidente do Real Madrid. “Temos muitos exemplos que grandes corporações pareciam invencíveis em seus setores e foram à falência porque não souberam como modernizar e se adaptar aos tempos”.

“O projeto está sofrendo campanhas constantes de desinformação e manipulação. Seria uma competição completamente compatível com as competições nacionais e seus calendários. Seu único objetivo é fortalecer e melhorar as competições europeias”, justificou o dirigente.

“Esperamos, portanto, que no dia 21 de dezembro, quando ouvirmos a decisão do Tribunal Europeu de Justiça sobre este caso, que marque o começo de uma nova era para o bem do futebol”.

Reforma da Champions League é alvo de críticas

“Os gestores da Uefa vão na direção contrária. Pretendem reformar a Champions League, um projeto insólito, absurdo e sem sentido futebolístico. Sem partidas de ida e volta e com mais jogos. Absurdo. Essa não é a solução. Os direitos das 125 partidas da Champions de agora se vendiam na Espanha por 360 milhões de euros. Para 2024, se vendeu 189 partidas por 320 milhões de euros. São 64 partidas a mais e 40 milhões de euros a menos”, disse o dirigente.

“Este modelo de competição vai afastar ainda mais os torcedores do nosso esporte. O novo modelo que prepara a Uefa não é que querem os torcedores de todo o mundo, e sim o que se ajusta melhor ao sistema de governança da Uefa, um sistema próprio e de outras épocas a serviço dos seus gestores. Não levam em conta as demandas dos torcedores e dos jogadores e nem as necessidades dos clubes”.

“Temos a obrigação de oferecer aos torcedores de todo o mundo o melhor espetáculo possível e baratear o futebol transmitido. Não tem sentido cobrar 100 euros por mês para ver futebol televisionado, é 10{62c8655f4c639e3fda489f5d8fe68d7c075824c49f0ccb35bdb79e0b9bb418db} do salário mínimo (o salário mínimo na Espanha em 2023 é de 1080 euros).

A reforma da Champions League merece todas as críticas, como as de Florentino Pérez. Sair do sistema de grupos para uma ideia que parece surgida do sistema suíço usado em esportes como o xadrez deixa tudo bastante confuso, como mostramos nesta explicação. Seria melhor manter o formato atual.

Só que há um ponto importante nisso: foram os clubes, especialmente os muito ricos e membros da Associação Europeia de Clubes (ECA, da sigla em inglês) que pressionaram para que isso acontecesse. Os clubes queriam mais duelos entre as maiores equipes para atrair maior atenção. Foi uma concessão da Uefa (mais uma, porque tem sido assim há 30 anos). Então, se os clubes realmente não quisessem, a Uefa não teria feito. Foi uma concessão, dar os anéis para não perder os dedos, e uma medida anti-Superliga. Então, criticar agora parece uma cara de pau absurda de Pérez.

De qualquer forma, o sistema deveria sim ser revisto. Infelizmente, parece tarde demais para evitar que ele entre em vigor. O novo formato entrará em vigor a partir da próxima temporada, 2024/25.

Como foi o anúncio da Superliga — e o seu colapso

Florentino Pérez é o principal defensor da ideia da Superliga, aquela união de 12 clubes europeus que tentou se desvincular da Champions League e fundar uma nova competição só entre eles. É uma ideia falada há anos, mas em 2021 ela saiu do papel. O anúncio foi feito em no dia 18 de abril de 2021, um domingo à noite, e chocou o mundo.

Era uma ideia absolutamente rechaçada pelo público: os clubes só jogariam entre eles e não haveria classificação alguma, como há hoje. Seriam membros fixos que se enfrentariam constantemente. Um clube fechado, algo feito pensando no que acontece no mercado dos Estados Unidos com as principais ligas, como a NFL, NBA e MLB. O contexto, porém, é completamente diferente e incomparável. Ainda mais porque os clubes, cinicamente, continuavam dizendo que queriam manter as competições locais.

Dos principais clubes das grandes ligas, o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique não aderiram. Aliás, nenhum outro clube alemão ou francês estava na lista de fundadores. A lista dos clubes fundadores foi a seguinte: Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Juventus, Milan, Internazionale, Manchester United, Liverpool, Arsenal, Chelsea, Tottenham e Manchester City. Doze homens e um desejo de destruir o futebol europeu.

Superliga: do céu ao inferno em 48 horas

A implosão aconteceu em 48 horas, depois de imensos protestos, especialmente na Inglaterra. Pouco a pouco, os clubes foram desistindo. Primeiro foram os seis clubes ingleses, que desistiram da iniciativa, o que desidratou a Superliga. Depois, foi a vez de Atlético de Madrid, Inter e Milan. Sobrariam só Juventus, Barcelona e o Real Madrid, de Florentino Pérez.

Já neste ano de 2023, a empresa que foi contratada para gerir o projeto da Superliga, que ainda vive, mesmo que nas sombras, anunciou mudanças na ideia inicial. Foi o momento Império Contra-Ataca: em vez de participantes fixos, haveria um sistema com 80 clubes, divididos em divisões.

Uma das consequências mais diretas disso tudo foi a aceleração da ideia de um regulador independente do futebol na Inglaterra. A partir da ideia da Superliga, parlamentares britânicos se uniram, trabalhistas e conservadores, para fazer essa ideia do regulador independente sair do papel.

Em mais um golpe nas pretensões da Superliga, a Juventus, depois de passar por crises institucionais e punições por fraude, mudou a sua diretoria. A nova gestão não quis mais o desgaste da Superliga e oficializou a saída da Juventus do bloco, deixando apenas Real Madrid e Barcelona como membros ainda ativos.

A Superliga decidiu judicializar a disputa com a Uefa e levou aos tribunais. Para a Superliga, a Uefa não tem poder de punir os clubes que decidirem aderir à nova competição. Mais do que isso, questiona o monopólio da Uefa em gestão de competições europeias. Barcelona e Real Madrid alegam que isso feriria os princípios da União Europeia. Mas parece que a opinião é contrária mesmo dentro do órgão europeu.

O advogado-geral da União Europeia considera que Uefa e Fifa têm direito de punir os clubes que aderirem à Superliga. O seu parecer não é definitivo e é só um dos itens que será usado no julgado, a ser concluído em 21 de dezembro. É, porém, um indício do que pode vir pela frente. Normalmente o parecer é seguido, mas não é uma garantia e nem é obrigatório que seja seguido. Como é um caso de muita visibilidade e gravidade, é possível que todas as variáveis sejam consideradas.

Pérez espera uma decisão favorável, que permitiria cria a nova competição sem ser punido por Uefa e Fifa. Os dois órgãos ameaçaram, por exemplo, impedir que os jogadores de clubes da Superliga joguem partidas pelas suas seleções. O que, evidentemente, pesaria muito contra a liga. Por outro lado, se a decisão jurídica for favorável à Superliga, a crença é que os clubes que abandonaram a entidade voltem para ela, de olho nas possíveis receitas que foram faladas.

Neste momento de retração dos direitos de TV no mundo inteiro, as ideias de explodir em valores por direitos de TV, mesmo em um torneio que parece de videogame (ou aqueles torneios amistosos dos Estados Unidos, como a International Champions Cup), parece irreal.

O que realmente falta aos clubes europeus não é uma Superliga

O que falta aos clubes europeus é uma gestão mais rigorosa do Fair Play Financeiro, com punições duras a clubes que descumprirem, como parece ser o caso de Barcelona e Juventus, por exemplo, além dos clubes como Manchester City e PSG, que já foram punidos antes, mas de forma muito branda e quase que serviu como um incentivo para as potenciais fraudes.

Se o futebol passa por uma crise tão grande quanto Pérez diz, por que os clubes seguem aumentando os seus gastos? Talvez porque achassem que vivessem em uma realidade que os direitos de TV jamais parariam de crescer, aumentando as receitas de forma infindável. Diante da crise, os clubes deveriam ter controles financeiros maiores, reduzirem seus gastos e pensar coletivamente em formas de controle e punições que sejam eficientes.

Isso, porém, dá muito mais trabalho. É mais fácil vender a ideia fantasiosa de ganhar dinheiro adoidado com direitos de TV com um torneio que parece feito no antigo Winning Eleven. Para quem diz que a Uefa está atrasada na sua gestão, Pérez parece preso a uma ideia que tem mais de 30 anos, já era falada desde Silvio Berlusconi, sempre com essa ideia de aumentar demais as receitas para cobrir os gastos incessantes de clubes que não sabem conter suas despesas. Uma bolha financeira insustentável que já começou a fazer PLOC.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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