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Dez pitacos sobre a abertura do Brasileirão – ou como tomar um cartão amarelo

Expectativa da rodada de abertura do Campeonato Brasileiro superou os acontecimentos

Fim de semana que, como de costume, teve a expectativa muito melhor do que os acontecimentos. É um esforço gostar do Brasileirão – vale um exercício pessoal para dar conta de conseguir assistir aos jogos com cabeça fresca e os olhos livres, tentando fugir da contaminação da arbitragem tão viciada, pedante, protagonista e de baixo nível, do tanto de assunto paralelo como o calendário, os gramados e as insinuações e suspeitas repetidas. Mas a gente se apega aqui e ali porque são 380 partidas até o final do ano, e não é com dez que a turma já vai se abater (talvez). Vamos a dez pitacos sobre a abertura do Campeonato Brasileiro, rodada 1/38.

1. Boa vitória do Cruzeiro no Mineirão, com William soltinho pela direita e Matheus Pereira circulando com a esperteza e o tapa técnico de poucos por dentro. O Botafogo é engraçado, porque a linha da frente pode ganhar qualquer jogo numa tabela ou trama individual, mas defensivamente é exatamente o oposto, com baixíssima capacidade de defender a área (será que dá jogo no treino?). Os laterais cruzeirenses subiram tranquilos, e os pontas botafoguenses não deram conta de repetir a jogada do gol de início. E o Barboza, quem viu o início do ano já sabe: cada enxadada, uma minhoca. Ritmo do bote ali é puro cartão vermelho.

2. Que segundo tempo do Fortaleza para ganhar o principal resultado da rodada no golaço de Lucero e no contra-ataque para terminar com Machuca. Vojvoda sabe demais dos adversários do campeonato, e minha impressão é que seu time sempre tem uma ideia para terminar os duelos, enquanto muitos por aí vão empilhando trocas por situação do momento do jogo. O São Paulo não funcionou com Galoppo, Luciano e Calleri, está sem Lucas e pode contar como James Rodríguez mais ou menos como aquele amigo que diz que vai, mas só chegando lá para saber. Joga muito, mas joga pouco, e já não pega o Flamengo. Carpini vive a rotina óbvia: novato ganha ou ganha. Pressão desproporcional, para variar.

3. Gostei do Fernando no Beira-Rio. Ainda não tinha visto ele jogar nessa volta ao Brasil, e a impressão foi ótima. Não só pelo gol da vitória (mas também, porque tem postura e força para subir bem no segundo pau), mas pelo nível de bola que pode construir tanto de zagueiro quanto de volante. O Inter ainda espera os gols de Borré e Alario, mas venceu, e era o que importava.

4. Bonita a festa da torcida do Vitória no Barradão, celebrando o campeão estadual mesmo com derrota na volta à elite. O time teve muita dificuldade em competir com o Palmeiras, e a derrota magra ficou de bom tamanho já que o atual bicampeão foi mais consistência que brilho, como de costume. Richard Ríos é hoje reserva de Zé Rafael, mas tem dado um ritmo bom para o time. Felipe Anderson é uma senhora contratação, podendo jogar por dentro com velocidade dos lados (Dudu e Estevão, por exemplo), ou mesmo aberto combinando com Veiga. É a maior contratação da era Abel Ferreira em termos de tamanho e nível de jogador, com folgas.

5. Corinthians e Atlético-MG deram o tom de uma rodada que decepcionou tecnicamente. Quem foi ver Garro, Wesley, Arana, Paulinho ou Hulk acabou vendo cartão para dar e vender, literalmente do primeiro minuto de jogo até depois dos dez de descontos no segundo tempo. Tem um mérito defensivo corintiano aí, sim, talvez, mas o jogo guerreado, a meu gosto, passou do ponto. O único xoxo do fim de semana acabou com a sensação de que ninguém fazia questão de mais jogo, não.

6. O Fluminense vem deixando para lá essa ideia supostamente antiquada de ter zagueiros, para desespero de muitos tricolores, e há uma tremenda dificuldade em manter o equilíbrio nos jogos. Mas Ganso faz valer o ingresso, de novo e de novo. O camisa 10 achou um passe ali na saída, esse que está correndo pelas redes e grupos, que ninguém entendeu direito como é que passou e correu ali. A forma com que ele esconde a escolha até o limite do toque na bola não tem muitas parcerias no futebol. Pensa um fiapo antes, parece uma eternidade. Cinema.

7. Não existe o Flamengo só acertar o gol uma vez num segundo tempo inteiro com um a mais contra o Atlético-GO, não importam as circunstâncias do jogo. Sensação de que o time se encaixotou meio óbvio, e nem com as mudanças conseguiu encontrar um gás de quem tinha tudo para vencer a partida até com certa naturalidade. É curioso porque toda a segurança de uma equipe que se forjou sofrendo poucos gols deu em dois jogos estranhos com vantagem numérica, em Bogotá e Goiânia, onde a firmeza acabou um tanto insossa. Vai chegar, sempre chega, mas fez pouco. Que golaço do De la Cruz.

8. Toda homenagem a Roberto Dinamite, o maior de todos, se somando à emoção do primeiro gol de Mateus Carvalho, a novidade do time, para São Januário tentar respirar dias melhores. É difícil olhar para o Vasco e garantir que haverá uma temporada sem sustos na parte de baixo da tabela, mas ganhar do vice-campeão está mais do que excelente para o momento. Soteldo, que não subiu na bola, e Pavón, do outro lado, não conseguiram render jogo para o Grêmio. Villasanti e Cristaldo também ainda vão jogar mais.

9. Canobbio, Pablo, Mastriani: se o fim de semana foi mais de briga no meio-campo e pouco brilho para vários dos candidatos à artilharia, em Curitiba o Athletico guardou goleada para chegar a 17 gols em quatro jogos no mês. Não é nada, não é nada… Mas a bola está entrando. E o que Fernandinho anda achando de bola é digno de nota.

10. Deixei para o final porque realmente não gosto do assunto, e para mim ele termina aqui, na primeira rodada. É inacreditável o quanto a arbitragem do futebol brasileiro consegue jogar contra as principais partidas do país. Não bastassem os mediadores serem ruins, com condições ineficientes de preparo e formados para terem péssimo diálogo ou autocrítica, o papel deles no campo só aumenta. Antes, só tinham de decidir em tempo real se falta, se pênalti. Agora eles podem ir ao vídeo, debater, voltar atrás, correr ao centro do campo, afastar os times, esperar o foco da câmera e o silêncio total para anunciar a marcação nas caixas de som (que, claro, ninguém entendeu direito).

Eles também podem amarelar as pessoas no banco, podem dar quantos minutos quiserem de acréscimos, podem decidir, ao gosto de cada início de temporada, qual vai ser o tom dessa vez. Os dez primeiros jogos do Brasileirão bateram um recorde de maior número de advertências em dez anos, segundo levantamento do GE. São 78 cartões, sendo 19 por reclamação, sete por atitudes antidesportivas, cinco por cera, três por comemoração de gol. Mediações muito ruins, confusas, autoritárias, exageradas e ainda muito controversas, porque vacilantes, sem a convicção para firmar um rumo de interpretação ao torcedor. O VAR, que me desculpem os fãs, piorou demais a sensação sobre lances de pênalti, inviáveis de se apitar em dois tempos medindo choque por vídeo. A gente tapa o nariz e segue, porque apaixonados demais, mas está ruim.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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