Copa América 2024

A cidade (quase) cabe no estádio: estação de trem e universidade moldaram lugar que recebe a Seleção

Brasil e México se enfrentam em College Station, no Texas, possivelmente para mais de 100 mil pessoas

Quando o amistoso da Seleção deste sábado (8), às 22h (horário de Brasília), contra o México, foi anunciado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o local ainda era uma incógnita.

O Texas foi escolhido como palco do amistoso. Logicamente, quando se pensa no estado, Dallas, Houston, San Antonio e até Austin são os destinos mais comuns, mas a partida foi marcada para College Station.

Uma cidade com apenas 120 mil habitantes segundo o último censo americano, College Station é casa de Texas A&M, uma das principais universidades do estado, e do imponente estádio Kyle Field, onde a Seleção atuará, com capacidade para mais de 102 mil torcedores.

Por que um estádio tão grande em uma cidade tão pequena?

Bom, a explicação está em um dos esportes preferidos dos norte-americanos, o futebol americano universitário. Para se ter ideia, dos 11 estádios do mundo com capacidade para mais de 100 mil torcedores, oito deles pertencem a faculdades americanas.

Aberto em 1927 para pouco menos de 33 mil pessoas, o estádio passou por diversas renovações ao longo do tempo, chegando a 83 mil em 2008.

Mas em 2012, para marcar o processo de transição de conferências — saindo da Big XII para a SEC, a melhor liga do esporte –, a universidade aprovou um projeto para tornar o Kyle Field uma das melhores instalações do país e apto a receber 102 mil pessoas regularmente.

O leitor que não é acostumado com o esporte universitário pode se perguntar: é realmente necessário um estádio deste tamanho para uma cidade que cerca de 20 mil pessoas a mais que lugares nas arquibancadas?

A resposta é sim. Muitas das principais universidades americanas estão alocadas em cidades fora das grandes capitais. Vários desses municípios vivem completamente em torno de suas escolas. Assim é College Station.

Segundo o censo americano de 2000, 51,2% dos habitantes de College Station tinham entre 18 e 24 anos. A porcentagem estimada caiu para 38,2% no censo de 2020, mas ainda é a maior faixa de idade representada na cidade.

Vendo esses números, a conta pode até não bater. Aí entra a paixão dos norte-americanos pelas faculdades onde se formaram, a famosa alma mater.

Em todos os sábados da primavera no país, diversos estádios de faculdades são lotados não só por estudantes atuais, mas também por ex-alunos e, em muitos casos, até habitantes que veem os esportes universitários como seu maior acesso ao alto rendimento.

Por que “Estação da Universidade”?

Durante a década de 1860, investidores criaram uma linha de trem que saia de Houston para Dallas, com bifurcações para Austin e Waco.

E foi justamente em uma dessas diversões que, na década seguinte, o estado do Texas escolheu construir sua primeira instituição de ensino superior, a Universidade de Agricultura e Mecânica do Texas (o nome foi alterado oficialmente para Texas A&M em 1963).

A universidade abriu as portas em 1876. No ano seguinte, uma agência do serviço postal americano foi aberta ao lado dos trilhos do trem que passavam pelo local. O nome? College Station (Estação da Faculdade, ou Estação da Universidade, em tradução livre), por causa da estação de trem que ficava no oeste do campus da universidade.

Não demorou muito para que a comunidade, até então bastante pequena e sem nome, adotasse College Station como sua denominação oficial.

Por mais que a universidade fosse crescendo bastante, demorou para que College Station fosse reconhecida como uma cidade. Isso só aconteceu em 1938, quando o local ganhou seu primeiro prefeito e passou pelo processo de criação de zonas para facilitar o planejamento.

A importância da universidade para College Station

A expansão de College Station aconteceu gradualmente. A comunidade que tinha cerca de 400 pessoas em 1900 passou a ser uma cidade com 11 mil habitantes nos anos 60. Foi aí que Texas A&M passou por um grande processo de expansão, e não demorou muito para que isso fosse notado nos números de população.

Já nos anos 80, a cidade registrava 37 mil habitantes, um aumento de 110% em relação aos 17 mil habitantes dos anos 70. A curva continua subindo, mas de forma menos expressiva, até o momento. O censo de 2020 estima que College Station tenha 120 mil residentes.

Por mais que a cidade tenha atraído grandes empresas de varejo e tecnologia, alunos e funcionários da universidade ainda representam grande parte desta população.

De acordo com a prefeitura de Bryan, cidade que forma região metropolitana com College Station, cerca de 17 mil pessoas são empregados pela universidade. O número pode chegar a quase 20 mil contando pessoas que trabalham para o Centro de Ciência e Medicina de Texas A&M.

O 12º Homem (mexicano)

Na década de 1920, o futebol americano ainda ganhava seu status de principal esporte universitário, mas já era fonte de tradições. Foi aí que um dos principais símbolos de Texas A&M surgiu.

Em 1922, Texas A&M enfrentava a melhor equipe do país, Centre Colonels, em Dallas. Os Aggies foram perdendo atletas por lesões e ficaram sem ninguém no banco. Foi aí que o técnico Dana X. Bible viu o ex-jogador E. King Gill ajudando jornalistas.

Bible pediu que Gill vestisse o uniforme e ficasse pronto para atuar. Mesmo com apenas 11 jogadores, Texas A&M completou a vitória surpreendente e Gill permaneceu como o único homem no banco, ganhando o apelido de 12th Man.

Ao passar do tempo, as seções de estudantes nos estádios e arenas dos Aggies incorporaram o apelido para si.

No Kyle Field, cerca de 38 mil alunos apoiam a equipe de futebol americano, com tradições que envolvem até um ritual na madrugada que precede jogos em casa.

Neste sábado, o 12º Homem não vestirá o vermelho-escuro dos Aggies, e sim o verde do México. Além do estado já contar com muitos imigrantes e descendentes de mexicanos, os torcedores do país viajam em peso para partidas da seleção.

No início da semana, 60 mil ingressos haviam sido vendidos com a expectativa de que o número chegaria perto dos 100 mil até o início do jogo.

A Câmara de Comércio do Bryan-College Station prevê que o evento possa ter um impacto econômico de 21 milhões de dólares (cerca de 110 milhões de reais) e que 130 mil pessoas passariam pela região.

Foto de Matheus Rocha

Matheus Rocha

Matheus Rocha é natural de Uberlândia, onde se formou em Jornalismo na Unitri em 2014. Começou a carreira no jornalismo na Trivela antes de passar por ExtraTime e Yahoo, participando da cobertura de três Copas do Mundo e cinco Olimpíadas.
Botão Voltar ao topo