Copa América

Bento, Arana, Endrick: Seleção acenou ao local, mas se firma em média europeia

Dorival Júnior terá três atletas que atuam no futebol brasileiro na lista dos que vão à Copa América

A torcida do Atlético-MG deu um show no final de semana. Dinheiro e mantimentos são fundamentais, óbvio, mas a solidariedade é também, e muitas vezes sobretudo, simbólica. Acolhimento é presença, é estar, e o Galo esteve à altura de um grande clube, um dos favoritos ao título, que toca o trio do Rio Grande do Sul ao fazer um treino aberto voltado para abraçar todo um Estado. Contraste evidente, preto com verde, com o dirigente do Palmeiras, Anderson Barros, um poço de insensibilidade ao microfone depois de uma atuação medíocre do seu time, sob meia lotação em seu estádio alternativo. Abraçar importa. As doações nesses bolsos são o de menos, dão um salário de um jogador reserva, quando muito. São empresas enormes, pessimamente administradas, cheia de dívidas pelos caminhos, que pagam milhões para negócios antigos. Então vale, sim, o simbólico. O futebol impacta no humor das pessoas. Tenho certeza que um carinho à distância conforta a manhã de gremistas, colorados e jaconeros. Seguir jogando é um tanto violento, se três times de vinte não estão pensando em futebol.

O pósCopa do Mundo da seleção foi um banho de Campeonato Brasileiro, chegando a estrear Rony, Yuri Alberto e outros jogadores que sob condições normais de uma competição – e o Brasil só tem duas a jogar, o Mundial e a Copa América que se aproxima agora – dificilmente sobreviveriam à lista. Ramon fez esse aceno, natural também numa entressafra após a frustração no Catar, e Fernando Diniz, um interino em plena atividade no futebol local, também ofereceu suas chances caseiras a Paulinho e Nino, por exemplo.

Dorival Júnior comentou em sua chegada ao cargo para esta temporada que teria um olhar bem afiado para os atletas que jogam por aqui. Em sua primeira lista, chamou sete, que depois viraram nove com as mudanças por conta de lesões. Surpreendeu com Rafael, Murilo e Pablo Maia. Mas agora, falando em questões meramente técnicas, tem só três para os próximos compromissos, mais ou menos o que acontecia antes, apesar de toda pompa das falas e intenções.

A seleção de Tite foi à Rússia com quatro nomes daqui, depois ganhou a Copa América no ano seguinte com três, perdeu a final para a Argentina na pandemia com quatro, e foi ao Catar novamente com um trio. Jogar, mesmo, só Renato Augusto e Fagner, em campo em quartas de final contra a Bélgica; Cebolinha, novidade no time na arrancada de taça em 2019; Everton Ribeiro e Gabigol, que até tiveram seus momentos em 2021; e Pedro, referência da indecorosa prorrogação contra a Croácia, mas que não dá para dizer que era de fato uma peça de muita confiança do treinador àquela altura. É mais ou menos por aí, goleiros reservas, zagueiros para completar treino, usos pontuais e só.

E vai ser meio isso mesmo. A elite está lá fora, com os meninos de exportação vendidos ainda chegando à maioridade, quando muito. Essa reflexão não é um grito pela maior presença de jogadores do Brasileirão, mas mais um olhar para pensar um pouco sobre essa bola de segurança que gente em atividade na Europa em tese projeta ao treinador ou ao ambiente do time nacional. É como se o cara daqui precisasse ser bancado e explicado pelo técnico, enquanto o de lá (independentemente de ser, em tese, melhor individualmente, claro) vem com uma certa chancela, um selo, pela liga que frequenta. Uma média europeia que se basta.

E digo isso não como fetiche, mas como um exercício de entender por que não cabe mais na seleção brasileira algum lampejo do futebol praticado ou combinado por nossos clubes. Tite não moveu muitos caminhos para fazer seu time ter algo do Flamengo de Jorge Jesus, do Palmeiras de Abel Ferreira ou do Atlético-MG de Cuca. Ainda antes, não achou muito espaço para confortar Luan, também nunca deu muita moral para Dudu. Tem algo aí para amadurecer no debate sobre entender o que o jogador pode te oferecer mesmo não estando naquele que é o campeonato do primeiro nível. Porque há outros atributos em jogo – capacidade de liderança, leitura de campo, vivência, a própria demanda e responsabilidade de sua função. Fabrício Bruno jogou mais que Beraldo na dupla de amistosos, por exemplo, mas um é Flamengo, o outro Paris.

Para o meu gosto, gostaria de acreditar que cabe um Matheus Pereira, do Cruzeiro, entre cinco meio-campistas de meio de tabela da Inglaterra e um acúmulo de pontas. A posição, aliás, tem bons nomes no Brasil, como Alan Patrick, que fez um ótimo 2023 pelo Internacional. Paulinho, do Galo, poderia também ter mais vazão no vestiário verde e amarelo, é jovem, joga aberto, atrás do nove ou mesmo de centroavante, cabendo em vários contextos. Não são muitos, não mesmo, mas também o que a seleção brasileira ganhou desde que começou a criar essa distância toda entre os daqui e os de lá? Acho que tem mais nuance aí. Mais coisinhas que gente graúda de time gigante rodando o país pode oferecer, sim. Mais variedade de estilos e momentos para um grupo de 23, 26 jogadores.

O trio que se apresenta a Dorival vem muito bem. Bento fez no final de semana aqueles jogos para reforçar seu tamanho, quando cresceu para cima de Rony, fez um pênalti para evitar um drible e encaixou a cobrança de Veiga. Arana está voando, uma pena sua lesão na última Copa, e Milito precisou de meio pão de queijo em Belo Horizonte para sacar que seu time tinha um escape protagonista ali, ainda mais com o apoio e a parceria com Scarpa nas bolas que vão cruzar a área o tempo todo vindas do lado de lá. Endrick dispensa maiores comentários: tem força, técnica e, mais do que tudo (e como precisamos!), estrela. Tem que jogar. O moleque fede a gol e combina fácil demais na tabela.

A Copa América vai virar o Brasileirão do avesso, mais do que já é. É uma pena que os apaixonados pelos clubes no país tenham uma birra da convocação da seleção, agora não só mais a da própria, mas de todas, do Uruguai à Venezuela. A essa altura parece irreversível, e isso já interrompe esse debate, mais uma conversa truncada do nosso ambiente todo cheio de poréns. É impressionante a capacidade que o futebol tem de boicotar ele próprio. Podia ser a festa da turma pelo continente, de Arrascaeta a Savarino, mas não, é um estorvo. O papo vai ser cansativo, de novo. A seleção tem pouco do Campeonato Brasileiro e o Campeonato Brasileiro odeia a agenda das seleções. Fazer o quê.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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