Mundial de Clubes

Copa do Mundo de Clubes: Analisamos 6 acertos e 3 erros da primeira edição

Ao fim da Copa do Mundo de Clubes que entrou no coração de milhões de torcedores, a Trivela analisa o que deu certo e o que deu errado no novo torneio

Em quase um mês, o novo Mundial de Clubes, repaginado e com mais times, teve tempo de entrar no coração dos fãs de futebol (com exceção de alguns europeus) e se tornar algo especial. Confrontos antes inacreditáveis, jogos de alto nível, o retorno da autoestima do futebol brasileiro e outros acontecimentos marcaram a competição muito mais do que o título neste domingo (13).

Nem tudo, porém, foram flores no torneio. Para aproveitar o fim da Copa do Mundo de Clubes, a equipe da Trivela reuniu seis acertos e três erros da Fifa, o que pode trazer lições para próxima edição, marcada para 2029.

Acertos do Mundial de Clubes

Oportunidade inédita de ver os diferentes tipos de torcer

O show no Mundial não esteve apenas dentro de campo. Nas arquibancadas, vimos performances de diferentes torcidas que nos fizeram entrar em contato com culturas distintas. A movimentação sincronizada dos japoneses do Urawa Reds no Lumen Field antes da partida contra a Internazionale foi um espetáculo à parte.

Os torcedores de River Plate e Boca Juniors, com suas barras bravas, invadiram e incendiaram as arenas como nenhum outro grupo fez. “Foi sem dúvida um dos melhores ambientes em que joguei na minha carreira“, assumiu Harry Kane após jogo entre o Bayern de Munique e os Xeneizes.

Os marroquinos do Wydad Casablanca fizeram um show de pirotécnica que deixou a partida com a Juventus como se tivesse em meio a um nevoeiro. Também africanos, as massas de Al Ahly e Espérance realizaram pequenas invasões e shows nas arquibancadas.

Os brasileiros foram outro capítulo à parte e repercutiram em todo o mundo. Palmeirenses e tricolores viraram manchetes por invasões na Times Square, em Nova York, sendo que o Alviverde teve média de público incrível de mais de 48 mil. Os fãs de Botafogo e Flamengo não ficaram para trás, também com públicos enormes.

Essa reunião de torcidas de diferentes continentes, com formas distintas de apoiar seus clubes, foi algo inédito no futebol mundial porque a Copa do Mundo de seleções não mobiliza os torcedores como os clubes, a verdadeira fonte de suas paixões.

Tudo isso superando várias adversidades: a demora para definição da sede, feita só em 2023, a dúvida se o novo Mundial daria certo, a distância geográfica e a turbulenta política imigratória de Donald Trump. Também teve a ausência de torcidas europeias que poderiam tornar a festa mais quente, algo que pode mudar para o próximo ano.

Futebol de diferentes níveis e contextos se enfrentando

O antigo Mundial, com apenas dois jogos para europeus e sul-americanos, era um recorte muito pequeno e que tornava extremamente raros os enfrentamentos entre as principais forças de cada continente. Como o calendário de hoje não comporta a quantidade de excursões para o exterior que aconteceram no século passado, o futebol não tinha mais noção de como poderiam ser essas partidas.

A Copa de Clubes supriu isso com perfeição. Em sua campanha histórica, o Fluminense enfrentou dois times europeus que jogaram a última Champions League, o campeão da Conference League, dois asiáticos e um africano.

A trajetória toda do Tricolor é motivo de orgulho para todo país e serviu, além de outros resultados de times brasileiros, como uma forma de retomar a autoestima da nação que não conquista uma Copa de seleções há mais de duas décadas.

Começou com os bons jogos de Palmeiras e Flu contra Porto e Borussia Dortmund, apesar dos empates, e chegou no auge com as vitórias de Flamengo e Botafogo em cima de Chelsea e PSG (atual campeão europeu e semifinalista do Mundial).

Botafogo venceu o PSG por 1 a 0 (Foto: Vitor Silva/Botafogo)
Marlon Freitas em PSG x Botafogo (Foto: Vitor Silva/Botafogo)

Jogos entre times alternativos que pareciam impossíveis de acontecer

Na mesma linha dos duelos de diferentes níveis entram jogos que pareciam impossíveis de acontecer no passado. Quem imaginaria os sul-africanos do Mamelodi Sundowns superando os coreanos do Ulsan HD, 1 a 0, em um jogo que o lado vencedor chamou atenção por seu estilo de jogo diferenciado.

A trajetória do amador Auckland City é outro capítulo a ser mencionado. Tomou dez do Bayern de Munique logo de cara, mais seis do Benfica na sequência, mas, contra o Boca, conseguiu o empate, 1 a 1, graças a um jogador que divide seu tempo sendo professor de educação física.

Formato

A Fifa aproveitou o formato da Copa do Mundo que marcou a geração atual entre 1998 e 2022 e repetiu na primeira edição da competição de clubes. 32 times, oito grupos, os dois melhores avançam e jogam partidas únicas das oitavas até a decisão. Simples, direto e com um número de clubes justo.

Isso, porém, pode não durar para 2029. Por pressão de clubes europeus, visando o dinheiro que dá o Mundial (mais de US$ 1 bilhão, R$ 5,5 bilhões, neste ano), querem subir para 48 participantes, mesmo número da competição entre seleções em 2026, aumentada única e simplesmente por politicagem da entidade máxima do futebol.

Inovação com a arbitragem

Após mais 64 jogos, conta-se nos dedos as vezes nas quais algum impedimento demorou a ser analisado. A Fifa usou a famosa tecnologia do impedimento semiautomático, já utilizado em boa parte da Europa, que instala diversas câmeras e um sensor na bola para definir a irregularidade sem precisar traçar linhas como no Brasil.

A inovação para tornar isso mais rápido e efetivo foi o uso da Inteligência Artificial para avisar os árbitros nos momentos que o atacante passa a bola para um jogador possivelmente impedido. Com isso, as decisões se tornaram quase que instantâneas.

Outra inovação esteve acoplada no fone de comunicação dos árbitros principais: uma câmera para trazer imersão ao jogo e serem mostrados replays de lances importantes. A imagem te traz como se estivesse dentro do campo e mostra a intensidade do futebol moderno, expondo que as decisões são tomadas em milissegundos.

Trilha sonora

Até quem não acompanhou a Copa do Mundo de Clubes com tanto afinco ficou impactado com o “na-na-na-na-na-na“, da música Freed From Desire, da cantora italiana Gala Rizzatto. A canção chiclete, tema da competição, foi uma escolha certeira da Fifa e não à toa.

O ritmo é já é conhecido no meio do futebol, especialmente nos países das Ilhas Britânicas. Ganhou notabilidade graças ao atacante Will Griggs, que virou tema da música quando defendia o Wigan: “Will Grigg’s on fire, your defence is terrified” (“Will Grigg está pegando fogo, a sua defesa está apavorada”).

A canção estourou de vez na Eurocopa de 2016 entoada pela torcida da Irlanda do Norte de Grigg. Na sequência, o mesmo ritmo se repetiu em canções para diferentes jogadores no Reino Unido.

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Erros da Copa do Mundo de Clubes

Escolha da sede e dos estádios

Ter os Estados Unidos como sede da competição não foi por acaso. O objetivo era que a competição fosse um teste antes da Copa de seleções no ano que vem, tendo cinco dos estádios dos EUA que receberão o torneio, também disputado no México e no Canadá.

Isso, porém, não apaga o erro da sede — que pode ser considerado para as duas Copas. O verão americano costuma ser intenso, seja para altas temperaturas (as críticas ao forte calor foram constantes) ou chuvas (com isso, fortes ventos e tempestade de raios).

Ao mesmo tempo que enfrenta adversidades climáticas, o país possui rigorosas leis que impedem a prática de esportes ao ar livre quando são emitidos “alerta de clima severo” pelo sistema de meteorologia nacional. Seis jogos do Mundial foram paralisados por isso, com destaque negativo para Benfica x Chelsea, pausado por quase duas horas e alvo de muitas críticas.

Algo que poderia ter evitado tantos “weather delay” (atraso climático em tradução livre), como é chamada essa pausa climática nos EUA, teria sido escolher arenas com cobertura. A Fifa, porém, selecionou apenas um (Mercedes-Benz Stadium) com essa estrutura dos 12.

E o erro nas escolhas não foi só pela questão da cobertura. A organização não foi modesta e selecionou oito estádios com 65 mil ou mais de capacidade de público. O resultado foi uma série de jogos com presenças modestass e uma média de ocupação na primeira fase de pouco mais de 50%.

Ainda sobre os estádios, o gramado foi uma questão frequente. Por exemplo, o MetLife Stadium, que recebeu as semifinais e a final, possui grama sintética, mas para disputa do torneio de clubes foi instalada uma grama natural por cima, o que gerou críticas. Luis Enrique afirmou que no Lumen Field a bola pula como coelhos, enquanto Niko Kovac disse que a grama do MetLife era de golfe.

Entrada em campo igual a NBA

Estar nos EUA fez a Fifa se inspirar em outro esporte para buscar uma inovação na entrada em campo dos jogadores. Ao invés das características duas filas com os 11 jogadores de cada time junto dos árbitros, a organização do evento optou por locutores nos estádios chamando atleta por atleta, como se fosse na NBA.

A ideia, além de não ter dada a ver com o futebol, não teve a adesão dos jogadores para torná-la interessante. Eles não fizeram brincadeiras ao entrar em campo como fazem os atletas de basquete, e ainda causou atraso de alguns minutos nas partidas.

Forma que alguns europeus trataram a competição

Aqui a culpa não é necessariamente da principal da entidade máxima do futebol. É verdade que poderia ter conversado mais com os clubes europeus para organização do torneio, ter cedido algo em relação à diminuição de datas para o descanso de atletas e os ter feito parte do debate. Só que as posturas de Porto, Chelsea (na primeira fase) e Borussia Dortmund jogam contra a reputação do novo Mundial.

O lado português, também por incompetência técnica e coletiva, caiu na primeira fase com exibições horríveis. O clube alemão, reclamando por quase tudo que aconteceu no torneio, só faltou agradecer por ter sido eliminado pelo Real Madrid.

Os Blues, ao decorrer da trajetória até a final, superaram uma fase de grupos na qual também somaram algumas reclamações sobre o clima e gramado para um bom nível no mata-mata.

O saldo geral da Copa do Mundo de Clubes, porém, é absolutamente positivo. Uma edição bastou para ocupar um espaço no coração do fã de futebol. O acerto na escolha da sede de 2029 (Brasil e outros estão no páreo) e pequenos ajustes na organização poderão torná-la ainda mais épica e causar ansiedade para acontecer a cada quatro anos, como é no torneio de seleções.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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