Mundial de Clubes

Temperatura extrema e alerta de especialistas: Como o calor virou grande preocupação no Mundial

Termômetros marcaram 40ºC em alguns jogos da competição nos Estados Unidos e altas temperaturas preocupam especialistas

As altas temperaturas têm sido um grande problema no Mundial de Clubes. Equipes, principalmente europeias, têm feito diversas críticas à organização do torneio e ao calor excessivo que vem acontecendo nas cidades dos Estados Unidos, palco da competição.

Em pleno verão norte-americano, houveram jogos nos quais os termômetros alcançaram os 37 °C e a sensação térmica ultrapassou os 40 °C. Dentre os estados mais quentes que receberam partidas do Mundial estão Flórida, Califórnia, Carolina do Norte e Tennessee. Em meio a tantos locais que estavam “fervendo”, outros davam uma equilibrada no calor, como, por exemplo, Seattle, onde as temperaturas oscilavam entre 19 °C a 24 °C.

A Trivela conversou com o meteorologista Robson Miranda, que explicou o motivo da diferença de temperatura entre os locais nos Estados Unidos.

— Os Estados Unidos tem um território muito extenso, muito grande, e por isso eles tem uma grande diversidade de clima. A região oeste, principalmente a região de Los Angeles, é mais influenciada por massas de ar seco e quentes vindas do interior do país. Então, essas massas de ar acabam se aquecendo muito na região do interior e se direcionam para essa região — iniciou o profissional.

— Já Nova York, que está mais ao nordeste, e Seattle, que está mais ao noroeste, são mais afetados por sistemas frontais, como no caso das frentes frias, que trazem essa instabilidade, e temperaturas mais amenas. Por isso, essas duas cidades acabam tendo oscilações menores de temperatura e acabam ficando frias mais vezes do que em outros municípios — completou Robson.

Ainda que nos estados mais quentes o pior horário para as partidas fosse quando o sol estivesse no pico, por volta das 11h e 12h (horário local), na janela de 19h e 20h a temperatura também seguia bastante alta. Na vitória do Manchester City sobre o Al-Ain, em Atlanta (Geórgia), os termômetros alcançaram os 28 °C. A partida aconteceu às 21h, do horário local, às 22h (de Brasília).

Calor vira motivo de reclamação de clubes europeus no Mundial

As altas temperaturas fizeram com que jogadores reclamassem bastante, e até mesmo tomassem algumas atitudes durante as partidas. No duelo entre Borussia Dortmund e Mamelodi Sundowns, em Cincinnati (Ohio), os termômetros marcaram os 32 °C, e os atletas suplentes do Dortmund permaneceram nos vestiários do TQL Stadium enquanto a partida acontecia.

— Nossos reservas assistiram ao primeiro tempo de dentro do vestiário para evitar o sol escaldante no Estádio TQL. Nunca tínhamos visto isso antes, mas com esse calor, faz todo o sentido (assistir do vestiário) — escreveu o Borussia Dortmund nas redes sociais.

Já na partida entre PSG x Atlético de Madrid, na estreia das equipes no torneio, no dia 15 de junho, no Rose Bowl, em Pasadena (nos arredores de Los Angeles), a temperatura chegou aos 35 °C, com sensação térmica beirando os 40 °C. Esse foi um dos duelos mais quentes até o momento na competição.

— É terrível, os dedos dos pés, as unhas doíam, a vontade era de arrancar — disse à época Marcos Llorente, meia do time espanhol.

O lateral-esquerdo Javi Galán concordou com o companheiro de equipe e afirmou que quase não conseguia respirar no duelo.

 Era quase asfixiante e o campo ainda tinha a bola correndo muito rápido. Não estamos acostumados a jogar essa hora, mas não é uma desculpa, é igual para todos — analisou o jogador.

Devido ao alto calor, alguns clubes tomaram atitudes para reduzir danos em seus jogadores. O Chelsea chegou a instalar ventiladores industriais e sprays refrescantes em sua base de treinamentos no Subaru Park, na Pensilvânia, além do técnico Enzo Maresca reduzir o treino da equipe em algumas ocasiões. O treinador dos Blues também teceu críticas ao clima norte-americano.

— É quase impossível treinar ou fazer uma sessão por causa do clima agora. Estamos tentando apenas economizar energia para o jogo.

Apesar de muitas críticas, há atletas que não estão se incomodando com o calor. Thomas Muller, do Bayern de Munique, rebateu os atletas que estavam falando das dificuldades em atuar em grandes temperaturas.

— Temos que estar em forma. Se um cara de quase 36 anos como eu consegue correr 90 minutos, então todo mundo deveria fazer isso. Sem desculpas — disse o jogador após a partida contra o Benfica, no Bank of America Stadium, em Charlotte. Neste jogo, os termômetros alcançaram 36 graus.

Jogadores do Bayern de Munique sofreram bastante com as altas temperaturas nos Estados Unidos. (Foto: Imago)

Em conversa com a Trivela, o cardiologista com foco em esporte, Giulio Cesare Lopes Ferriello, explicou o motivo dos atletas europeus se sentirem mais afetados com o calor do que jogadores que atuam em outros continentes, como a América, por exemplo.

— Os jogadores europeus, no caso, vindo de países com temperaturas mais amenas, estão menos expostos a altas temperaturas. Eles suam menos, perdem calor com mais dificuldade e tendem a sofrer mais com a desidratação e a fadiga precoce em ambientes quentes. Geralmente é comum que façam aclimatação, vemos isso na Copa do Mundo, em que tem um tempo maior de preparo. Nesse Mundial de Clubes não foi possível, pois as datas estavam muito espremidas com os campeonatos regionais de cada país — explicou.

Presente em diversos jogos do Mundial de Clubes, repórteres da Trivela também relataram dificuldades em lidar com as altas temperaturas. O jornalista Diego Iwata teve que recorrer a jatos d´’agua para se refrescar em alguns momentos.

— Está muito calor mesmo, sensação de Rio de Janeiro no verão. Meio-dia, né? Não podia pensar num horário menos menos, vamos dizer assim, menos certeiro para marcar esse jogo. Tive que muitas vezes recorrer àqueles sprinklers de spray de água que uma patrocinadora aqui do evento colocou. Imagina a situação que tá — disse o jornalista da Trivela antes de a bola rolar para Palmeiras e Al-Ahli, pela segunda rodada da Copa do Mundo de Clubes.

— Termômetro mostrando mais de 30º, coisa de 32º, mas a sensação é muito pior porque é só cimento em volta desse estádio aqui e o estádio propriamente. O que não é cimento aqui é só a grama do campo mesmo. Muito calor — completou.

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Calor excessivo pode causar danos à saúde dos atletas

Em um dos jogos mais quentes do torneio, entre Bayern x Benfica, onde os termômetros atingiram 40 graus, Gianluca Prestianni ficou deitado no chão por vários minutos, visivelmente exausto e até mesmo um pouco atordoado, usando uma bolsa de gelo para se refrescar. A cena foi vista após 30 minutos de jogo, durante a paralisação para refrescar os atletas.

As altas temperaturas podem impactar os jogadores de diversas maneiras e causar danos irreparáveis em alguns casos. Inclusive, a prática de exercícios sob calor excessivo pode promover o surgimento de situações que comprometem o bom funcionamento do corpo, inclusive a chamada hipertermia, que nada mais é que o “superaquecimento” do organismo, é bastante preocupante.

Ferriello explicou à Trivela sobre os riscos de atletas de alto nível praticarem exercícios em expostos ao calor extremo e em condições como nos Estados Unidos.

O calor intenso afeta significativamente o rendimento e a saúde dos atletas. Atrapalha o desempenho físico e mental, risco de desidratação com perda de até mais de 2% do peso corporal em líquidos já reduz o desempenho físico. A fadiga surge mais precocemente pelo aumento do gasto energético e da frequência cardíaca.

O técnico Luis Enrique, do PSG, chegou a ser flagrado em alguns treinamentos sem camisa para tentar amenizar o calor. (Foto: Imago)

Geralmente, a temperatura ideal do nosso corpo fica em torno dos 36,6 °C. Quando ele superaquece, alguns sintomas podem começar a surgir, como mal-estar, câimbras, tonturas, náuseas e vômitos.

Segundo o Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM), exercícios que acontecem em ambientes com índices térmicos acima de 28 °C já são considerados de alto risco para aumento da temperatura corporal.

Entre 23 ºC e 28 ºC, o risco é menor, mas ainda existe, principalmente para pessoas que enfrentam algum tipo de comorbidade ou que não realizaram aclimatação do local da prova. Já entre 23 ºC até 18 ºC, o risco é baixo, sendo a temperatura considerada ideal para a prática de exercício.

—  O índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature) é frequentemente utilizado para avaliar o risco térmico em competições, sendo que valores acima de 28°C já indicam necessidade de estratégias de mitigação, como pausas para hidratação e redução da intensidade do exercício. A American College of Sports Medicine recomenda atenção especial à hidratação, aclimatação e monitoramento dos atletas em ambientes acima desse limiar — explicou o médico Leandro Costa, do hospital alemão Oswaldo Cruz, em entrevista exclusiva à Trivela.

— Nossa equipe médica está cuidando dos jogadores. Temos toalhas muito frias que colocamos em baldes de gelo. Os jogadores também precisam resfriar as pernas e os pés em água fria e com banhos de gelo– explicou o técnico Niko Kovac, do Borussia Dortmund.

Calor pode impactar nos resultados dentro de campo

Jogando sob um clima úmido e com temperaturas que raramente — mesmo à noite — ficam abaixo dos 30 graus, os jogadores não conseguem, muitas vezes, apresentar suas melhores versões. Com isso, o calor pode impactar diretamente no resultado dos jogos. O técnico do Dortmund, por exemplo, deixou claro tal opinião.

Acho que não será o melhor time que vencerá, mas sim o que melhor se adaptará a essas condições — disse.

A opinião foi compartilhada pelo técnico Renato Portaluppi, do Fluminense, que está bastante acostumado ao calor do Rio de Janeiro, em que muitas vezes também alcança os 40 °C.

— O calor aqui é quase insuportável. O time que tiver mais posse de bola pode ter certeza de que se desgastará menos — afirmou o comandante antes do jogo do Tricolor contra o Mamelodi Sundowns.

As opiniões de ambos os treinadores são corroboradas pela ciência, uma vez que as altas temperaturas afetam não só no que diz respeito ao cansaço dos jogadores, mas impacta também a saúde física e a capacidade para atuar dentro de campo.

— A tomada de decisão, reflexos e atenção são prejudicados, aumentando a chance de erros técnicos, táticos e até com isso aumenta as lesões — explicou o médico Giulio Cesare.

E a Copa do Mundo de 2026?

Marcada para acontecer entre junho e julho de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, a Copa do Mundo pode também ser afetada pelas altas temperaturas nos Estados Unidos, e isso já é uma preocupação por parte das seleções participantes.

A Fifa deixou claro em algumas ocasiões que sua prioridade sempre será a saúde dos jogadores. Inclusive, implementou as pausas para hidratação após os 30 minutos de jogo nas partidas do Mundial.

— A implementação de pausas regulares para hidratação e estratégias de resfriamento, como preconizado pela política da FIFA, demonstrou reduzir a sobrecarga térmica, a frequência cardíaca e a percepção de esforço, atenuando parte dos riscos fisiológicos e perceptivos. A American College of Sports Medicine recomenda aclimatação, hidratação individualizada e monitoramento rigoroso para minimizar riscos em ambientes quentes — explicou o médico Leandro Costa.

No entanto, o Mundial de Clubes já é uma prévia do que os atletas irão enfrentar em 2026, uma vez que o calorão não é algo pontual nos Estados Unidos nessa época do ano.

— Os Estados Unidos sempre foram atingidos por ondas de calor. Isso não é um fenômeno recente, só que essas ondas de calor estão se tornando mais frequentes, duradouras e intensas por causa das mudanças climáticas. Quando falo em mudanças climáticas, pensa que estou falando de energia. Se a gente está injetando mais energia na atmosfera, todos os fenômenos que já existiam acabam ficando mais intensos e persistentes — explica o meteorologista Robson Miranda.

Dias nos Estados Unidos tem sido de sol forte e chuva em algumas partes do dia. Foto: Imago

Além das altas temperaturas, outro fator que preocupa são as tempestades. Na Copa do Mundo de Clubes, diversas partidas precisaram ser adiadas ou paralisadas devido às chances de tempestades e raios nos estádios. Segundo os órgãos competentes dos Estados Unidos, todos os torneios esportivos ao ar livre devem seguir um protocolo que obriga a suspensão das atividades em caso de aparição de raios ou aproximação de chuvas.

Segundo o meteorologista Robson Miranda, as chuvas nessa época são típicas do verão, mas em algumas regiões, como a Califórnia, as tempestades tendem a ser mais fortes.

— Quando a gente tem longos períodos secos, a gente acaba tendo uma concentração de calor muito grande e isso favorece um ambiente propício para queimadas, por exemplo. Só que quando chove, essa chuva acaba sendo muito concentrada em poucos dias, o que também favorece muitas enchentes e deslizamentos. Então, lá (a Califórnia) é uma região com clima muito extremo. Você tem um período muito grande de tempo seco e calor que favorece queimadas e você tem um curto período ali chuvoso, com uma chuva mais concentrada que acaba favorecendo essa ocorrência — disse.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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