Eurocentrismo chegou? EUA, Europa e a ‘nova ordem’ do futebol feminino em premiações
Atletas de Espanha e Inglaterra dominam prêmios como 'The Best' e Bola de Ouro e mandam recado à NWSL sobre potência na modalidade
Os Estados Unidos têm uma relação histórica com o futebol feminino. Anos de desenvolvimento da modalidade sem interferências tornou o país uma potência, tanto em relação a jogadoras nativas quanto em competições, como a National Women’s Soccer League (NWSL) — o campeonato da categoria.
Contudo, esse domínio não tem se refletido nas principais premiações. Aitana Bonmatí foi o grande nome das cerimônias de desempenho individual da temporada do futebol de mulheres e pode sinalizar a “nova ordem” em vigor.
A meio-campista do Barcelona levou a Bola de Ouro, da “France Football”, o “The Best”, da Fifa, e está no topo do ranking do jornal “The Guardian” de melhores jogadoras do mundo na modalidade.
Isso se repete há alguns anos, aliás. A espanhola lidera a categoria desde 2023, quando sucedeu a compatriota e companheira de clube Alexia Putellas — que estava há dois ciclos no topo.
É um sinal de que a NWSL está mais enfraquecida se comparada às ligas europeias ou o eurocentrismo presente no futebol masculino — visto até no Mundial de Clubes — chegou ao feminino?
— Existe um eurocentrismo? Existe, mas eu acho que nos últimos anos tem sido condicionado pelo desempenho de seleções — diz à Trivela Bianca Anacleto, jornalista especializada na cobertura de futebol feminino no “Fut das Minas” e no canal “GOAT”.

Em 2025, houve torneios continentais de seleções como a Copa América, a Eurocopa e Nations League. O Brasil ampliou a hegemonia com o nono título na divisão sul-americana.
Na Europa, Espanha e Inglaterra dividiram o protagonismo: as espanholas ficaram com a Nations League, e as inglesas levantaram a taça da Euro — após vencerem justamente Bonmatí e companhia na final.
Como jogadoras da Europa se sobressaem em premiações de futebol feminino
As principais postulantes aos prêmios individuais em 2025 eram Aitana Bonmatí e a também espanhola Mariona Caldentey, ex-Barcelona, que agora está no Arsenal.
Outros destaques, além da dupla, foram Alessia Russo, Leah Williamson, Lucy Bronze e Hanna Hampton, todas da Inglaterra e que atuam na Women’s Super League (WSL).
Elas têm em comum o fato de estarem na “seleção da temporada” do Fifa “The Best”.
As onze corroboram a tese de que seleções exercem grande influência nos prêmios. “Muito desse The Best foi moldado pelo que aconteceu na última Euro, que Espanha e Inglaterra foram as finalistas”, afirma Bianca.
— Como essas seleções têm crescido muito, têm disputado muito, têm chegado sempre no topo, revelado grandes atletas também, acontece de elas estarem sempre nessas premiações. E também é um pouco de marketing. Essas jogadoras têm um marketing muito grande — complementa.
As atividades extracampo são outros fatores levados em consideração, especialmente na Bola de Ouro, que busca premiar não só as performances das atletas, mas também fair play e impacto positivo na sociedade.
Neste sentido, Bonmatí ganha ainda mais pontos. “A Aitana, de certa forma, é uma jogadora que tem impacto muito grande na base do Barcelona, na construção da seleção da Espanha. Os últimos títulos da Espanha colocaram o país no mundo do futebol feminino, basicamente”, explica a jornalista.
A Bola de Ouro determinou a brasileira Marta, do Orlando Pride, como a melhor atleta fora do eixo europeu (12º lugar). O top-11 ficou restrito a jogadoras que têm relação com o Velho Continente, atuando por clubes e seleções da região.
É uma mudança significativa se levar em consideração o período em que as mulheres começaram a ser premiadas individualmente nestas cerimônias.
Em um passado não tão distante, quando o atual formato do “The Best” entrou em vigor (2016), Carli Lloyd, ex-atacante dos Estados Unidos, foi a primeira a ser contemplada com o troféu de melhor jogadora de futebol feminino do mundo. Ela estava no Houston Dash na ocasião.

Lieke Martens, holandesa, vestia a camisa do Barcelona quando recebeu o prêmio no ano seguinte. Marta (Orlando Pride) e a norte-americana Megan Rapinoe (Seattle Reign) foram as vencedoras nas edições 2018 e 2019, respectivamente.
Rapinoe é a última atleta a ser premiada na cerimônia da Fifa que não representava uma equipe europeia no período considerado, semelhante ao que ocorreu na Bola de Ouro, que passou a homenagear jogadoras de futebol feminino em 2018.
A ex-atacante é a única que ostenta o prêmio sem ter defendido time da Europa na ocasião (2019).
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Visão centrada na Europa proporciona que destaques de outros locais não sejam contemplados?
O olhar mais “eurocentrado” recentemente pode ajudar a explicar uma ausência significativa nas listas. “O que mais me deixa particularmente indignada é a goleira Lorena não estar nessas premiações”, ressalta Bianca.
A arqueira se destaca no futebol brasileiro desde os tempos em que vestia a camisa do Grêmio e alcançou ainda mais feitos notáveis no ano de 2025 com o Kansas City Current, da NWSL.
Ajudou a equipe a bater recorde de jogos sem sofrer gols na liga (16, nove consecutivos) e foi vazada apenas 13 vezes na temporada regular, de modo a colaborar efetivamente na conquista da NWSL Shield de 2025.

Recordes e mais recordes quebrados a levaram a ser eleita a goleira do ano da NWSL, mas a brasileira — que também teve papel importante em conquistas da Seleção no período — sequer foi finalista em premiações a nível global e ocupa a 93ª colocação no ranking do “Guardian” de 100 Melhores Jogadoras de 2025.
— Ela chega nos Estados Unidos sem falar inglês, assume uma posição super difícil, que exige muita comunicação, e ela é simplesmente a goleira menos vazada da liga, ela é destaque da liga, MVP como goleira. Então, é impressionante o que ela fez em pouco tempo — diz a jornalista.
Lorena superou Claudia Dickey, do Seattle Reign, e Ann-Katrin Berger, do Gotham FC. Esta última, estrela da Euro com a seleção alemã, ficou em 23º no levantamento do jornal britânico, esteve entre indicadas ao prêmio de Melhor Goleira no “The Best” e foi segunda colocada na Bola de Ouro.
— Onde está a seleção brasileira neste olhar? Muito ainda se vê de seleções europeias sendo protagonistas e decisivas nestas premiações. O que mais a Lorena precisa fazer para ser reconhecida nessas premiações individuais? — questiona.
Bianca Anacleto afirma que a falta de holofotes nos feitos de Lorena “assusta”, no entanto, pondera ser questão de tempo para a brasileira receber o prestígio das principais cerimônias.
A projeção se baseia no otimismo com a fase do futebol feminino no Brasil, tanto em relação à Seleção quanto aos clubes.
Apesar de não ser finalista da categoria de melhores goleiras no “The Best”, Lorena foi inserida nas opções para ocupar o posto na “seleção do ano” da Fifa. Nicole, goleira do Corinthians, também esteve na relação, e Mariza, zagueira que se despediu das Brabas em dezembro, pleiteou um lugar entre as defensoras. Além delas, Amanda Gutierres teve desempenhos notórios com o Palmeiras e concorreu no ataque.
— O que mais me chama a atenção é a Nicole nessa lista, porque ela não foi para a seleção brasileira. Ela estava jogando só no Brasil, fez uma ótima Libertadores com o Corinthians, o que também dá uma visibilidade. Aí já se pensa que talvez estejam mudando um pouco o olhar.
‘É uma tendência a gente ver mais nomes fora do eixo da Europa nesta disputa’
A especialista acredita ser possível haver mais equilíbrio em prêmios no futuro, e não somente com nomes do futebol brasileiro no topo, mas também colombianas e africanas, por exemplo.
Para que as expectativas se concretizem, é necessário mais mídia às atletas e reconhecimento de votantes.
Ela lembra casos como o de Temwa Chawinga e de Barbra Banda, que estavam no futebol chinês com Wuhan Jianghan e Shanghai Shenglin, respectivamente, antes de migrar à NWSL.
Chawinga, malawiana, agora defende o Kansas City Current. Ficou em 17º lugar na Bola de Ouro, foi finalista no “The Best” e 6ª posição no ranking do “Guardian”.
Banda é de Zâmbia e conquistou mais projeção com a camisa do Orlando Pride. Ocupou o 14º lugar na premiação da “France Football” e no levantamento do periódico britânico.
— Eu acho que é uma tendência a gente ver mais nomes fora do eixo da Europa nesta disputa. Não necessariamente que serão as premiadas, mas que esses nomes estejam despontando — analisa Bianca Anacleto.

Outra tendência que corre por fora no contexto das premiações é a disputa particular entre Estados Unidos e a Europa, com ênfase na Inglaterra, para ser o centro do futebol feminino mundial.
A NWSL era o campeonato mais popular do mundo no futebol feminino em 2024, conforme dados da “Two Circles”. Em 2025, a liga informou crescimento de 22% na audiência, e chegou ao quarto período seguido de evolução no quesito.
Em paralelo, o interesse pelo futebol feminino na Europa — e principalmente entre os ingleses — aumentou. A média de público nas quatro grandes ligas do continente — Frauen-Bundesliga, da Alemanha, WSL, da Inglaterra, Liga F, da Espanha e Premiere Ligue, da França — cresceu 24% em 2023/24 se comparado à temporada imediatamente anterior, de acordo com o relatório da “Two Circles”.
Isso também ficou evidente na Eurocopa feminina, na Suíça. Mais de 461 mil espectadores viram os 24 jogos da fase de grupos nos estádios.
A final do torneio foi a exibição televisiva mais assistida na Inglaterra em 2025, segundo a “BBC”. Houve pico de 16,2 milhões de espectadores acompanhando o evento ao vivo nas plataformas da emissora e da “ITV”, dos quais cerca de 12 milhões prestigiaram o jogo do início ao fim.
A “rivalidade” entre ingleses e norte-americanos se traduz no mercado. Naomi Girma saiu do San Diego Wave para o Chelsea, que também tirou Alyssa Thompson do Angel City. A elite do futebol feminino inglês protagonizou algumas das maiores transferências das últimas janelas.

— Nos últimos anos, a gente viu um movimento de jogadoras saindo da Europa e indo para os Estados Unidos, para a NWSL. Por exemplo, a Esther González, espanhola, que para o Gotham FC. Muito disso foi porque os Estados Unidos, a NWSL, estava perdendo um pouco de espaço, [perdendo] jogadoras grandes, que estavam migrando para a Europa, especialmente Inglaterra e Espanha, que são ligas que estão crescendo muito — explica a jornalista.
Algo que ainda mantém os EUA com ligeira vantagem é a questão salarial. “A Inglaterra, hoje, é uma liga que tem um nível técnico muito maior, tem uma disputa muito maior e está recebendo muito mais investimento, mas mesmo assim não paga os melhores salários. Quem paga os melhores salários ainda são os Estados Unidos e o México”, diz ela.
É este patamar que o futebol brasileiro de clubes ambiciona alcançar, o que Bianca menciona ser a “referência de próximo passo”.
— Atingir uma NWSL, um padrão de uma liga inglesa, de estádios lotados, de fãs engajados, de um calendário também melhor estruturado. Estamos em um passo diferente dos nossos vizinhos, que ainda brigam para assinar a carteira das jogadoras, por contratos mais longos… A gente já está em uma outra fase.



