Recordes e mais recordes: Janela do futebol feminino sinaliza avanços da modalidade
Clubes investem pesado e título de transferência mais cara da categoria muda várias vezes no mercado do meio do ano, mas movimentações geram controvérsia
Antes de a janela do meio de 2025 abrir, a mudança de Naomi Girma do San Diego Wave para o Chelsea havia sido a maior transferência do futebol feminino em termos de valor. Os Blues pagaram 1,1 milhão de dólares em janeiro deste ano para levar a zagueira para a Londres.
Mas a norte-americana ficou poucos meses com essa coroa. A movimentação de equipes femininas no mercado recém-fechado fez o recorde ser quebrado várias vezes e sinalizou avanços na modalidade, como mais valorização das atletas e clubes conscientes da importância de investir no esporte.
Transferências do futebol feminino batem recorde na janela 2025/26
A primeira a destronar Naomi Girma foi a canadense Olivia Smith, que trocou o Liverpool pelo Arsenal por 1,3 milhão de dólares em julho, segundo a imprensa inglesa. A atacante de 21 anos estreou na Women’s Super League, o campeonato inglês feminino, na temporada passada, e marcou sete gols em 20 aparições.
Smith está marcada na história como a primeira mulher a valer 1 milhão de libras no futebol feminino inglês, e esse título ninguém pode lhe tirar. Mas, em compensação, ocupou o lugar mais alto do pódio de transferências recordes por pouco tempo.

Em agosto, o Orlando Pride desembolsou 1,5 milhão de dólares ao Tigres para levar a atacante mexicana Lizbeth Ovalle à National Women’s Soccer League (NWSL), dos Estados Unidos, de acordo com a “ESPN” e com a “BBC Sport”.
Ovalle deixou a equipe do México após oito anos. No período, registrou 136 gols e 103 assistências em 294 jogos. Além disso, a jogadora de 25 anos participou de 58 jogos na seleção mexicana e balançou as redes 20 vezes.

Assim como ocorreu com Olivia Smith, a artilheira do Orlando Pride não pôde ficar muito tempo no topo do ranking. Isso porque o London City Lionesses acertou com Grace Geyoro em setembro por 1,9 milhão, conforme apurou a “ESPN” e o “The Guardian”. Vale ressaltar, porém, que o CEO do clube, Martin Semmens, disse à rádio “talkSPORT” se tratar “um grande negócio em torno de 1 milhão de libras”, mas negou ter sido recorde da modalidade.
A francesa de 28 anos chegou no último dia da janela de transferências do futebol feminino da Inglaterra após sair do PSG, onde fez 54 gols em 270 partidas. Na seleção da França, Geyoro tem 22 bolas na rede em 103 jogos.

E tem mais. Enquanto o London City ajustava os detalhes pela estrela francesa, o Chelsea também agia no mercado. Os Blues aplicaram 1,3 milhões de dólares na contratação de Alyssa Thompson junto ao Angel City FC, e a negociação pode chegar perto de 2 milhões de dólares com o bônus, segundo fontes consultadas pela “ESPN”.
Thompson tem 20 anos e é uma das principais joias do ataque da seleção norte-americana. Desde 2023 na NWSL, fez 15 gols em 62 jogos. Na temporada anterior, marcou seis vezes em 16 aparições.

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Altos valores são bons ou ruins? Elite do futebol feminino inglês dispara e gera controvérsia
A maioria dessas transações ocorreram pelo investimento de equipes inglesas, o que o técnico do Manchester United, Marc Skinner, descreveu como “uma loucura”. “Se formos honestos, a janela de transferências ficou uma loucura, não é?”, questionou.
— Quem imaginaria que, nesta janela de transferências, teríamos quatro jogadores de 1 milhão de libras? Acho que nós (United) não conseguiremos atingir esses níveis de valor de transferência agora. Não estamos nesse patamar — declarou ele pouco antes de enfatizar a pressão que esse tipo de negociação impõe sobre o clube que a realiza.
De fato, há cobrança extra nestas contratações pelos altos valores aplicados, no entanto, principalmente nos casos de Smith e Thompson, os clubes priorizaram o projeto a longo prazo. Além disso, olhar o cenário apenas pelo mesmo ângulo que Skinner é ver o “copo meio vazio”.

Pernille Harder foi a primeira estrela a quebrar o recorde de transferência do futebol feminino desde Milene Domingues em 2002, que deixou o Fiammamonza para ir ao Rayo Vallecano na época.
A mudança de Milene ficou em 310 mil dólares. Pernille Harder, ao deixar o Wolfsburg rumo ao Chelsea em 2020, custou 334 mil dólares, conforme dados da “ESPN”. A variação, portanto, foi pouca se levar em consideração que se passaram 18 anos de uma transferência à outra.
O valor só foi superado novamente em 2022, nos 470 mil dólares pagos pelo Barcelona para contratar Keira Walsh junto ao Manchester City. Passados dois anos, os Blues voltaram a protagonizar a maior transferência do futebol feminino com os 488 mil dólares da negociação para tirar Mayra Ramírez do Levante e levá-la a Londres, também conforme o jornal.
Em 2024, houve ainda a movimentação de Racheal Kundananji, que trocou o Madrid CFF pelo Bay FC por 787 mil dólares. O montante fez da zambiana a primeira jogadora representante da África a conquistar o posto de transação recorde do futebol, segundo a emissora.

Dessa forma, a modalidade teve avanços significativos em 2025, e o que caminhava a passos muito lentos passou a evoluir com mais rapidez, embora ainda esteja longe dos 222 milhões de euros pagos pelo PSG ao Barcelona por Neymar em 2017 — recorde absoluto no futebol.
Outro fator que a janela mostrou é a valorização de jovens talentos. Torneios nacionais e continentais estão mais difundidos e popularizados. Joias têm aparecido no cenário com mais facilidade e se destacado em seus clubes e seleções. Exemplos disso são as trajetórias de Thompson, a primeira escolha no “draft” da NWSL de 2023, e Naomi Girma, a primeira escolha do ano anterior.
Equipes da WSL têm percebido cada vez mais a importância de investir no esporte e que, sem os recursos, fica difícil competir. O Chelsea, um dos maiores gastadores da modalidade, é hexacampeão consecutivo da liga.
O Arsenal, agora de Olivia Smith, foi vice-campeão da WSL na temporada passada e ficou com o título da Champions League feminina na campanha anterior ao derrotar o poderoso Barcelona.
Deste prisma, as movimentações podem gerar controvérsia sobre quão sustentável isso é no futebol inglês. A maioria dos clubes não têm as mesmas condições. Contudo, a técnica do Chelsea, Sonia Bompastor, defendeu que “é uma coisa boa quando os clubes conseguem investir no futebol feminino” em entrevista ao jornal “Telegraph”.
— Quando você consegue trazer grandes jogadores para a liga, para os clubes, a competição fica ainda maior. É isso que queremos. Quando se é uma pessoa competitiva, quer poder competir contra as melhores equipes. Para mim, é bom se todos estiverem investindo e a situação estiver indo na direção certa — opinou ela.
Mais transferências de destaque na Inglaterra
Além dessas transferências, houve outras mudanças notórias — inclusive no próprio Chelsea. A lateral-direita australiana Ellie Carpenter, 25 anos, estava no Lyon e se mudou a Londres para vestir a camisa dos Blues.
A dupla de Manchester, City e United, também teve movimentações de destaque. Para começar, entraram em acordo por troca. Grace Clinton, meia de 22 anos, deixou o time Red Devil rumo ao rival, que cedeu a meia-atacante Jess Park, 23, ao grupo de Skinner na negociação.

Os Citizens acertaram ainda com a alemã Sydney Lohmann, 25, volante ex-Bayern de Munique, enquanto o United firmou vínculo com a ala sueca Fridolina Rolfo, 31, que estava no Barcelona.
Outra ex-Barcelona na WSL é a jovem promessa espanhola Lucía Corrales, atacante de 19 anos, que agora defende o London City. Assim como Danielle van de Donk, experiente meia holandesa de 34 anos que trocou o Lyon pela camisa 10 do clube recém-promovido à elite. Outro reforço das Lionesses é a ponta inglesa Nikita Parris, 31, que estava no Brighton.



