Da diversão ao topo do mundo: A relação histórica entre futebol e mulheres nos Estados Unidos
Esporte se desenvolveu entre as garotas no país, com incentivos governamentais enquanto o Brasil enfrentava proibição
A craque e ex-jogadora dos Estados Unidos Michelle Akers, uma das maiores estrelas da história do esporte, disse ao “Sports History Weekly” em 2020 que, enquanto calçava as chuteiras, só “focava em ser mais em ser a melhor versão” de si mesma e se “divertir no campo”.
A frase curiosamente remete ao método que contribuiu para o desenvolvimento do futebol no país da América do Norte, que recebe o Mundial de Clubes 2025, principalmente entre as garotas: a recreação.
Os primeiros relatos do interesse pelo tradicional futebol no local remontam o século XX e, tal qual em boa parte do mundo, chegou como modalidade inicialmente masculina. A questão é que, na época, uma evolução do rúgbi — que viria a ser posteriormente o futebol americano — conquistava mais a atenção dos homens no país.
Neste contexto, entra em cena a especificidade cultural que ajuda a explicar a relação entre mulheres e as quatro linhas nos Estados Unidos. Enquanto os garotos praticavam basquete ou futebol americano, as meninas eram incentivadas ao “soccer” — nome dado ao verdadeiro futebol no local.
Fernanda Haag, professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), doutora em História Social e pesquisadora de futebol, explica à Trivela as motivações para isso. “Podemos pensar as relações de gênero a partir do esporte”, diz. “Para nós no Brasil e na maior parte do mundo, o futebol é visto como esporte masculino. É o espaço dos homens hegemonicamente. Nos Estados Unidos, não”.
— Esse espaço dos homens nos Estados Unidos cabe ao futebol americano. A coisa da virilidade, da força e da masculinidade está ligada a esse esporte. Historicamente, muitas famílias colocaram suas meninas para jogar bola porque não viam o futebol como um esporte tão violento assim. O oposto do que pensamos aqui.
Como o futebol evoluiu entre as mulheres nos Estados Unidos

A prática do futebol por mulheres ocorria mais em escolas ou universidades como atividades educativas ou em momentos de lazer, o famigerado “brincar de jogar bola” no dialeto brasileiro.
Michelle Akers, por exemplo, se destacou ao ser uma das estrelas do time estudantil da escola “Shorecrest High School”, em Washington, na década de 1980. A meia-atacante conquistou três vezes o prêmio “All-American” no período, honraria concedida à melhor jogadora a nível de ensino médio.
Atuar no esporte na escola a ajudou a conseguir bolsa de estudos na Universidade da Flórida Central, em Orlando, e defender a equipe universitária “UCF Knights” a partir de 1984. Àquela altura, fazia 12 anos que o departamento de Educação dos Estados Unidos havia promulgado a lei de igualdade de acesso e gastos para homens e mulheres em atividades educacionais financiadas pelo governo (conhecida como “Title IX”).
“Title IX” não era restrita ao esporte de modo geral, mas ajudou a amplificar a ligação entre as jovens e as quatro linhas. Universidades lançaram programas voltados ao futebol feminino e atraíram muitas candidatas, de modo a corroborar com o crescimento e popularização da categoria.
“O futebol era um esporte fácil de investir. Precisava de muitas meninas, 11 mais as reservas, e a questão do investimento prático – trave, rede – não era tão grande. As instituições investiram, e o futebol cresceu muito”, comenta Fernanda.
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Diferenças entre o futebol para mulheres no Brasil e nos EUA
A título de comparação, em 1981 o futebol masculino tinha 521 times universitários contra 77 destinados às mulheres, conforme destacou o “Soccer History USA”. Quatro anos depois, o número de times femininos subiu para 201 e, em 1990, chegou a 318.
A nação norte-americana aplicava incentivos ao mesmo tempo em que países como Brasil, Inglaterra e Alemanha tentavam reacender a chama pela modalidade. O futebol feminino foi impedido em terras brasileiras de 1941 a 1979, e os ingleses censuraram a prática de 1921 a 1970. Entre os alemães, o banimento ocorreu de 1955 a 1970.
— São países que, para os homens, é o esporte por excelência. Nos Estados Unidos, é o oposto — reforça a professora.
Os reflexos foram notáveis. A historiadora Aira Bonfim, autora do livro “Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941)”, diz à Trivela que a modalidade despertou interesse de mulheres no Brasil e nos Estados Unidos praticamente na mesma época — começo do século XX.
Entre os norte-americanos, porém, não houve a proibição, e o esporte progrediu gradualmente.
— Não é do nada que surge o futebol feminino nos Estados Unidos, mas há essa diferença. Enquanto o Brasil interrompeu o desenvolvimento, teve que esperar muito tempo e até nos dias de hoje ainda corre atrás — destaca a especialista.
As atletas dos Estados Unidos, que já desfrutavam dos efeitos do avanço contínuo, formaram a primeira seleção nacional em 1985 e tinham Michelle entre as estrelas desde o início. No Brasil, o futebol para mulheres foi regulamentado em 1983.
Aira relembra que a primeira seleção brasileira de futebol feminino, formada em 1988, tinha realidade distinta das norte-americanas, de ambiente de futebol amador e até certo desconhecimento.
O decreto-lei de 1941 que barrou o gênero de jogar “esportes não adequados à sua natureza” no país — o que incluía o futebol — não coibiu a atividade. Havia a prática entre mulheres no âmbito estadual ou regional e de forma divulgada, mas sem muita vigilância.
— Acho que nunca ninguém entendeu que tinha uma proibição do futebol praticado por mulheres no Brasil de verdade. O que é mais perigoso ainda. O fato de desconhecer essa proibição faz com que você naturalize essa exclusão — alerta a historiadora.
“A geração pioneira é muito vulnerável a essa condição do desconhecimento. Elas têm orgulho tremendo de vestir a camisa da CBF pela primeira vez, representar o Brasil de forma oficial pelas primeiras vezes e, ao mesmo tempo, um reconhecimento que não vem, um salário que não vem, uma ajuda de custo que é vergonhosa, violências em relação ao que elas são”, complementa.
Além disso, Aira explica que gostar de futebol feminino no País ainda era um grande tabu.
— Não é só o fato de ser mulher, mas que tipo de mulheres puderam vestir a camisa do Brasil. São mulheres periféricas, são mulheres pretas, são mulheres simples, são mulheres lésbicas, e todos esses atravessamentos que, na época, tinham pouco letramento, também eram naturalizados neste conjunto. Não tinha nenhuma viabilidade de ascensão econômica, de um projeto a ser estimulado dentro de um clube, da CBF. Essas mulheres passaram muito tempo quase acreditando que nasceram errado.
Novo olhar da Fifa e as primeiras competições oficiais
A década de 80 também marcou o olhar da Fifa para a modalidade e o crescimento da prática a nível global. A entidade máxima do futebol criou o “Women’s Invitational Tournament”, disputa experimental de um Mundial, em 1988.
Ao todo, 12 seleções participaram, dentre elas, o Brasil com sua geração pioneira — que ficou em terceiro lugar. As primeiras posições foram de Noruega e Suécia, respectivamente.
Três anos depois, em 1991, a primeira Copa do Mundo de futebol feminino acontece na China e tem como seleção campeã os Estados Unidos. Outras potências da modalidade, Noruega e Suécia completaram o pódio.

Aira Bonfim reforça que nações têm diferentes relações com o esporte e muito em função do aspecto cultural. A pesquisadora também reflete sobre o ocorrido com a geração pioneira e espera que olhar para o passado ajude o Brasil a projetar o futuro e evitar repetir as ações antigas.
A proibição em solo brasileiro não afetou apenas as jogadoras, segundo a profissional. “Tem uma cultura esportiva que foi prejudicada: a pessoa que assiste, que vai consumir no estádio, a pessoa que legitima a mulher como boa e excelente atleta, então tem toda essa camada que acaba prejudicando esse ambiente de estrutura de mercado, educacional”, diz.
Isso tudo contribuiu com o preconceito. A historiadora comenta que, embora esse tipo de hostilidade tenha ocorrido também entre as norte-americanas, não interfere tanto no cenário dado o contexto que massificou e desenvolveu a modalidade nas escolas e comunidades.
— Quando se olha a realidade brasileira, isso que acontece hoje, em 2025, também é extremamente reduzido a um conjunto sudestino. O desenvolvimento está muito pautado em São Paulo, um pouco no Rio de Janeiro e um pouco na região sul, então a desigualdade permanece. Às vezes a gente finge que está tudo bem, mas não está — destaca Aira.
O papel das categorias de base no desenvolvimento
Outro fator é que o ambiente amador ainda faz parte da realidade de formação das jovens e poderia dar lugar ao que chamamos de categorias de base. “Basta a gente pensar que o primeiro Brasileirão que a CBF fez da base, o sub-18, foi em 2019. Foi ontem”, afirma Fernanda Haag.
“Isso obviamente dificulta o desenvolvimento da modalidade em geral, porque para ter categoria profissional com respaldo, bem amparada e que se tenha craques, é preciso plantar na base. Se não planta na base, vai ter muita dificuldade no profissional. Se estabelece mais uma barreira de acesso para que meninas consigam jogar bola”, complementa.
O calendário do futebol brasileiro feminino de 2025 inclui a Liga de Desenvolvimento sub-16 e sub-14, o Campeonato Brasileiro nas categorias sub-17 e sub-20 e, a nível internacional, a Copa do Mundo feminina sub-17.
As divisões de base podem ser a iniciação no esporte às garotas do Brasil como são os times estudantis nos Estados Unidos. A perspectiva é positiva, conforme analisa Fernanda, mas a professora endossa o coro por cobranças.
— Vemos as categorias se estruturando cada vez mais e os clubes estão estruturando cada vez mais suas categorias. Só que não quer dizer que a melhora vai ser linear, progressiva e automática. Se pararmos de cobrar e acharmos que simplesmente vai acontecer, não vai. Temos que construir essa melhora.

Os Estados Unidos ainda são a nação mais vencedora dos principais torneios femininos de futebol com quatro títulos de Copa do Mundo e sete medalhas Olímpicas — cinco de ouro, uma de prata e uma de bronze. No entanto, a relação de mulheres com a modalidade no Brasil aos poucos progride e diminui a diferença para o país do Hemisfério Norte dentro de campo.
A Seleção feminina tem oito títulos da Copa América e três medalhas de prata Olímpicas, além de se classificar a todas as nove edições da Copa do Mundo da modalidade. O melhor desempenho foi o vice diante da Alemanha na final de 2007, na China. Há ainda o terceiro lugar em 1999 ao superar a Noruega nos Estados Unidos.
A atualização do ranking da Fifa de 12 de junho coloca o grupo do Brasil como o 4º melhor do mundo, à frente de países como Inglaterra (5º) e Suécia (6º) e atrás apenas de Alemanha (3º), Espanha (2º) e Estados Unidos (1º).
“Como podemos massificar esse status? Estamos atrás dos Estados Unidos e da Alemanha. Passamos Japão, países europeus, isso não deveria só ser comunicado nas redes sociais, deveria ser comemorado. Vivenciado nas escolas, ponto de inflexão”, enfatiza Aira.
— O Brasil tem a oportunidade, através do futebol, de fazer uma reparação histórica em torno do que aconteceu e, de fato, virar a chave do que é ser um país do futebol. O país do futebol não pode ser esse que proibiu quase metade da sua população de jogar, praticar, falar e trabalhar com futebol.



