Ancelotti chegou ao Brasil de olho na defesa, mas vai à Copa com problemas crônicos e ‘desentendimento’
4-4-2 defensivo do Brasil gerou interpretações errôneas, mas foi inconstante durante toda a era Ancelotti
Em entrevista coletiva antes da vitória do Brasil sobre o Egito, no último sábado (6), Carlo Ancelotti falou sobre as formações que a Seleção vem usando durante seus testes. Em sua explicação, bateu o pé em uma coisa inegociável: seu time defenderá em 4-4-2.
Essa fala gerou interpretações errôneas. Entendeu-se que o time atacaria em 4-4-2, ou que isso fosse um reforço de que Ancelotti não abandonaria o 4-2-4. Mas o fato é que, desde que chegou, Ancelotti sempre fez o Brasil defender em 4-4-2. E, em quase todos os jogos, teve problemas.
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O 4-4-2 defensivo da seleção brasileira quase sempre mostrou falhas
Nenhuma defesa é perfeita e todos os sistemas estão suscetíveis a falhas e buracos. E não há juízo de valor na análise: diversos times têm grandes trabalhos defensivos se postando nessa estrutura. O Arsenal, campeão da Premier League e vice da Champions League, é um exemplo claro.
No entanto, é fato que, desde o primeiro jogo, o time de Ancelotti sofre para defender, principalmente em bloco alto. Na estreia, foi dominado pelo Equador e não conseguiu encaixar uma pressão coordenada para inibir a construção equatoriana com três zagueiros. Sem sucesso no primeiro combate e sendo ultrapassado com facilidade, o Brasil se viu obrigado a recuar e defender em bloco baixo a maior parte do tempo.
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Se defender contra equipes que fazem saída de três, inclusive, é o maior calcanhar de Aquiles da seleção brasileira. Foi assim no domínio equatoriano, mas também na derrota de virada para o Japão e na derrota para a França, na última Data Fifa antes da Copa.
Em todos esses jogos, a Seleção continuou subindo o bloco em 4-4-2 e se deparava com inferioridade numérica: três adversários contra dois brasileiros. Para o Japão, a saída foi concentrar o jogo no meio com apoios centrais e fazer lançamentos diagonais para as alas livres. A França usou seus volantes para descer entre os zagueiros e criar superioridade enquanto os pontas desciam para ocupar esse espaço e progredir pelo meio.
Na vitória por 3 a 0 contra o Chile, outro adversário que saía com três zagueiros, o Brasil mudou o padrão: espelhou os três defensores para marcá-los individualmente e usou um sistema de marcação individual em praticamente todo o campo. Era possível ver Marquinhos acompanhando o centroavante chileno até o outro lado do campo, por exemplo.
Esse padrão não se repetiu mais, mas também teve seus perigos. Ao tirar um meia pelo lado na segunda linha do 4-4-2 para subí-lo para pressionar um dos zagueiros, o Brasil tinha mais dificuldade de defender as alas. Isso obrigava os laterais a subirem muito e desestruturarem a linha defensiva. O Chile foi um adversário quase inoperante ofensivamente por falta de qualidade, mas haviam buracos.
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Brasil teve auge defensivo com Ancelotti, mas não teve sequência
Mudar a escalação todos os jogos tem prós e contras. Testa diferentes opções, vê jogadores que podem fazer a diferença, mas também pode minar padrões e não treinar um time ideal — isso vale para o ataque e para a defesa. Ancelotti nunca repetiu a formação, mas também porque raramente pôde.
Em um ano à frente do Brasil, o italiano perdeu todos os seus três laterais-direitos titulares: Vanderson, Éder Militão e, mais recentemente, Wesley. Foi com Militão o melhor jogo da era Ancelotti, na vitória contra Senegal, também porque foi a partida em que a Seleção melhor conseguiu pressionar.
O time já havia mostrado bons sinais de pressão pós-perda contra Chile e na vitória de goleada contra a Coreia do Sul, quando foi feroz na transição defensiva e teve sucesso. A pressão logo depois de perder a bola evoluiu e é uma boa arma da era Ancelotti, sem dúvida. Mas a pressão em momento de organização ofensiva, definitivamente não.
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Contra o Japão, o time foi desorganizado para encontrar os encaixes individuais e se perdeu na construção em 3-1-2 japonesa. Isso permitiu que os asiáticos avançassem sem grande oposição. Contra Senegal, o time seguiu defendendo alto e com os encaixes individuais que já são padrões com Ancelotti, mas optou por deixar o goleiro com a bola e pressionar forte as opções de passe. Senegal construía em 4-1, com os dois meias recuando para se aproximar do volante, e todos os apoios centrais eram perseguidos.
Com as opções de progressão por baixo cobertas, Senegal muitas vezes saía com diagonais para as alas. Com Militão e Alex Sandro subindo para fazer sombra no ponta adversário junto com o bloco defensivo brasileiro, a Seleção tinha superioridade para interceptar esses lançamentos também. Foi uma aula defensiva que nunca mais se repetiu, principalmente com a lesão do jogador do Real Madrid.
Conservadorismo do Brasil contra a Croácia pode ser o caminho na Copa do Mundo
Depois de ser engolido na construção francesa, em março, Ancelotti enfrentou a Croácia de outra forma. A equipe que eliminou o Brasil na última Copa também construía com três defensores e ainda tinha meias muito habilidosos como apoios centrais, o que parecia um prato cheio para o fracasso defensivo da Seleção.
O que aconteceu foi o contrário: em vez de subir o bloco para que a dupla de atacantes enfrentassem os três zagueiros (e fatalmente perdessem a batalha numérica, como acontecia com frequência), o Brasil manteve um bloco médio. Os atacantes fechavam os dois apoios centrais e inibiam as opções de passe por dentro dos zagueiros.
Em um 4-4-2 nessa altura, o Brasil tinha sempre dois jogadores fechando os volantes croatas e dois meias pressionando os alas, o que travava a construção adversária — além dos volantes brasileiros fechando o entrelinhas, mas também aptos a saltar pressão caso o passe saísse por dentro. Isso obrigava, por exemplo, Luka Modric a descer até os zagueiros para buscar a bola, mas novamente se via sem opção de passes curtos.
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Foi um jogo em que o Brasil teve menos a bola, também porque os zagueiros croatas ficavam muito tempo com ela sem conseguir produzir nada, mas proporcionou bons momentos de construção com seu 4-3-3. E a convocação de Ancelotti para a Copa indicava uma sequência à essa formação, com pontas mais tradicionais.
Nos amistosos antes da Copa, no entanto, o Brasil voltou a ter dificuldade. Contra Panamá e Egito, teve problemas ao subir a pressão em bloco alto, principalmente com Vinícius Júnior sem grande ímpeto defensivo, o que sobrecarregava Matheus Cunha, o meia pela esquerda no 4-4-2, que precisava decidir entre saltar no opositor que era de Vini ou baixar para cobrir o seu.
É possível traçar o paralelo que, se a seleção entende sua superioridade na batalha do meio-campo, tende a defender mais alto e pressionar — e isso sempre criou buracos, e deve continuar criando. Quando viu o perigo adversário na construção pelo meio, como contra a Croácia, desceu, impediu que isso acontecesse e dominou o jogo.
A pressão alta é comportamental e positiva. Isso enraíza nos atletas a agressividade de buscar a bola perto do gol adversário e, em situações de transição defensiva, rendeu quatro gols nos últimos dois amistosos, por exemplo. Mas toda a era Ancelotti foi marcada por buracos, desencaixes e testes sem sequência que não consolidaram um grande estilo defensivo do Brasil. E isso pode ser muito perigoso na Copa do Mundo.