Copa do Mundo

Brasil resgata boas ideias de início de Ancelotti, mas melhor arma não tem relação com escalação

Aproximações por dentro, dinâmicas de terceiro homem e pressão pós-perda marcam mais um jogo de testes e opções da Seleção

O Brasil enfrentou o Egito em seu último jogo antes da Copa do Mundo de 2026 e venceu por 2 a 1. O amistoso serviu para reforçar o que Carlo Ancelotti pensa para a Seleção e como o time deve jogar no Mundial, mas também marcou mais um teste importante.

Igor Thiago como centroavante titular foi a grande novidade para o confronto. O atacante do Brentford já jogou antes como camisa 9 tradicional no Brasil e no último jogo contra o Panamá fez ótimo segundo tempo como um ponta-esquerdo nada ortodoxo.

Brasil resgata ideias do início da era Ancelotti, mas esbarra em lesão de Wesley

Em entrevista coletiva, Ancelotti reforçou que não mudará o sistema e que se manterá no 4-4-2 defensivo. Isso gerou interpretações mistas e, em sua maioria, equivocadas, sobre como o time seria escalado e jogaria. A equipe que foi a campo contra o Egito ilustra isso.

O Brasil saiu do 4-3-3 clássico que foi resgatado contra a Croácia e reforçado contra o Panamá e migrou para um híbrido com 4-2-3-1, com Lucas Paquetá na direita e Raphinha como meia-atacante. O camisa 11, no entanto, recompunha majoritariamente na esquerda na segunda linha do 4-4-2 em organização defensiva.

Wesley deixou o campo ainda no primeiro tempo
Wesley deixou o campo ainda no primeiro tempo (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

A ideia central lembrava o início da era Ancelotti e até mesmo a forma de construir da era Tite:

  • Com Wesley como um lateral muito alto e Douglas Santos ficando com os zagueiros, o Brasil construía em 3-1;
  • Bruno Guimarães ocasionalmente recuava para apoiar e criar um 3-2, mas geralmente ficava na diagonal, levemente à frente, pra criar uma linha de passe;
  • Com isso, Wesley, Paquetá, Raphinha e Vinícius criavam uma linha atrás de Igor Thiago, formando uma espécie de 3-2-5.

No entanto, a saída de Wesley aos 18 minutos acabou frustrando o plano inicial. O lateral sentiu a coxa e foi substituído por Danilo, menos ágil e ofensivo, o que deixava o time “torto” — Danilo não subia tanto e criava-se um buraco na direita, uma vez que Paquetá caía muito mais pelo meio.

Sem essa amplitude na direita, a marcação do Egito pôde focar em impedir a progressão central e conseguiu fazê-lo em diferentes oportunidades ao perseguir Paquetá e Raphinha individualmente. Mas, ainda assim, a ideia de prosseguir por dentro se manteve e deu sinais positivos.

Sem amplitude e com meias marcados, Brasil teve momentos de dificuldade para criar
Sem amplitude e com meias marcados, Brasil teve momentos de dificuldade para criar (Foto: Reprodução/GETV)

Um ponto importante do início da era Ancelotti, que contava com um 4-2-4 com meias que caíam por dentro, era a participação de zagueiros na construção. Ibañez foi destaque nesse sentido e o Brasil teve dinâmicas muito positivas de terceiro homem para isso:

  • Raphinha como meia atacava a profundidade a partir do meio-espaço e levava um de seus marcadores, como fez Matheus Cunha no 4-3-3;
  • Isso abria espaço para Igor Thiago descer e receber como pivô e acionar Paquetá, Bruno ou Vinicius caindo por dentro, de frente.

Isso já foi marca registrada do Brasil de Ancelotti, mas se perdeu com as lesões de Rodrygo e Estêvão. A reunião de Bruno, Paquetá e Raphinha com um centroavante tradicional para trabalho de pivô, no entanto, resgatou isso.

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Brasil volta ao 4-3-3 ‘ideal’ no segundo tempo e melhora

Se o primeiro tempo foi para testar uma reformulação de uma ideia que deu certo, mas se perdeu por conta de escolhas possíveis de jogadores, o segundo voltou ao 4-3-3 tradicional que deve ser marca registrada na Copa.

Com Luiz Henrique na direita e Raphinha na esquerda, o Brasil voltou a ter pontas de linha de fundo e que mantém a amplitude. Matheus Cunha entrou como meia e Endrick como centroavante, e a Seleção manteve seus laterais baixos na construção e teve mais facilidade para entrar no último terço com combinações pelos lados.

Movimentação de Raphinha e Igor Thiago para criar situações de terceiro homem
Movimentação de Raphinha e Igor Thiago para criar situações de terceiro homem (Foto: Reprodução/GETV)

Foi assim, inclusive, que marcou o segundo gol brasileiro. Raphinha venceu seu duelo individual e levou à linha de fundo para encontrar Endrick atacando a profundidade na área.

Em 4-3-3, por outro lado, deixa o Brasil menos dominante com a bola. Não o torna um time necessariamente de transição, mas que foca menos na criação por dentro em detrimento da progressão pelos lados — que é mais suscetível a perdas de bola. No segundo tempo, por exemplo, o Egito teve mais posse de bola do que o Brasil, que teve 57% do tempo de bola na primeira etapa.

A melhor arma do Brasil é falha e não tem a ver com escalação

O que levou aos dois gols brasileiros contra o Egito foi a pressão alta. Mais do que isso: a pressão pós-perda. Mesmo que a marcação em bloco alto do Brasil seja falha em diversos momentos, principalmente por encaixes mal organizados dos atacantes, a pressão em transição tem sido positiva.

Foram assim que saíram dois gols contra o Panamá e novamente contra o Egito. Na primeira etapa, a pressão alta e orientada individualmente deixou o pivô egípcio sem opção de passe e permitiu que Bruno Guimarães saísse do seu encaixe para dar o bote e roubar a bola.

No segundo gol, o Brasil foi feroz para pressionar assim que perdeu a bola no campo de ataque e recuperou já acelerando com Raphinha, que deu a assistência. A atitude para subir a marcação tem sido constante, desde cedo, e se mantém ao longo dos jogos, mas tem claras falhas.

Contra o Panamá, o baixo ímpeto defensivo de Vini deixou Cunha em situações delicadas de escolher subir para pressionar ou proteger seu espaço, o que gerou efeitos dominós constantes. Contra o Egito, o Brasil subiu a marcação com perseguições mais longas, o que é perigoso: um duelo individual vencido do lado atacante desencadeia problemas.

No fim, o Brasil mostrou variação, mas esbarrou em uma lesão que pode impactar ainda mais as ideias do time. Foi assim durante quase toda a era Ancelotti: Raphinha perdeu muitos jogos, Rodrygo e Estêvão eram cruciais, mas não jogarão a Copa, assim como Eder Militão.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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