Copa do Mundo

Brasil consolida volta ao 4-3-3 em goleada, celebra teste no ataque, mas ainda lida com fantasma

Goleada por 6 a 2 contra o Panamá foi animadora, mas não esconde problema que persiste em toda a era Ancelotti

O Brasil enfrentou o Panamá em seu penúltimo jogo antes da Copa do Mundo. A vitória por 6 a 2 veio com a confirmação sobre a ideia central de Carlo Ancelotti para a Seleção no Mundial.

Mais do que o resultado, o amistoso serviu para mostrar como a experiência de voltar ao 4-3-3 contra a Croácia, na última Data Fifa, deu resultado. O time deixou o 4-2-4 que foi o carro-chefe brasileiro durante parte do ciclo, mesmo em um segundo tempo repleto de mudanças e com Igor Thiago como ponta-esquerdo.

Cunha meia e Raphinha falso nove: Brasil confirma ideia da convocação

Como esperado depois da vitória contra os croatas e pelos nomes chamados na convocação oficial de Ancelotti para a Copa do Mundo, a Seleção se manteve no 4-3-3 contra o Panamá. O que pode ter surpreendido, no entanto, foi a “troca” de Raphinha e Matheus Cunha.

Na prática, o camisa 9 foi um dos meias, como contra a Croácia, e Raphinha foi o falso nove da formação, com Vinicius Júnior e Luiz Henrique como pontas tradicionais. Cunha caía muito pelo lado esquerdo para associar com Vini e criar dinâmicas para arrastar a marcação panamenha e liberar mais espaço para o camisa 7.

Na construção, o Brasil foi pouco pressionado na maior parte do tempo e teve dois principais momentos: saindo em 3-1, com Alex Sandro ficando na linha de defensores e Wesley subindo; ou em 4-2, com Casemiro e Bruno Guimarães como os dois pivôs. Na maior parte do tempo, Casemiro sozinho era o suficiente para progredir, uma vez que não havia grande constrangimento.

4-3-3 brasileiro com Cunha como meia
4-3-3 brasileiro com Cunha como meia (Foto: Reprodução/GETV)

Por mais que o volante conseguisse encontrar ocasionais linhas de passe pelo meio, a criação ofensiva da Seleção se deu mais pelos lados, principalmente o esquerdo. A ideia central daquele 4-2-4 com meias que caíam por dentro e geravam um centro de jogo denso pelo meio já não é mais usada.

O maior ponto positivo do primeiro tempo, quando o Brasil tinha o time titular, foi Vinicius Júnior. O camisa 7 foi mais participativo com jogadas individuais e vencendo duelos com melhor aproveitamento do que antes — mesmo que ainda não no nível do Real Madrid. Foi assim que marcou o primeiro gol do jogo, após bom momento de pressão pós-perda de Casemiro, e criou a jogada para o segundo, driblando pela esquerda e cruzando para o volante.

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Igor Thiago se mostra opção promissora, mas que não deve se repetir

No segundo tempo, Ancelotti rodou praticamente todo o elenco — sem outro zagueiro canhoto com a ausência de Gabriel Magalhães, Léo Pereira se manteve. E sem Gabriel Martinelli, o italiano também não tinha um ponta-esquerdo de ofício. O que aconteceu foi tão curioso quanto belo: Igor Thiago atuou na esquerda.

O vice-artilheiro da última Premier League, visto como o centroavante mais perto do “brucutu” possível — alto, forte, de imposição física e profundidade — foi um arquétipo de ponta diferente. Caía levemente por dentro para atuar como pivô e liberar espaço para Douglas Santos, como lateral, subir. E criava dinâmicas para os meias, Paquetá e Danilo, entrarem na área.

Foi assim, inclusive, que saiu o quarto gol. Assim que Douglas recebe, Thiago sai da lateral e corre em direção à área, como um típico camisa 9, para receber o cruzamento. Nesse movimento, puxa a marcação panamenha e abre espaço para Danilo e Paquetá que vinham de trás e, depois de um corta-luz, o meia flamenguista marca.

Antes, no entanto, mostrou como é um defensor feroz. Naturalmente com mais gana defensiva que Vinicius Júnior por toda a questão hierárquica e de “provação” necessária, Thiago pressionava forte e constante, principalmente no pós-perda. É ele quem atrapalha a saída do Panamá e faz a bola cair no pé de Rayan, com o gol aberto, para abrir o placar na segunda etapa.

E depois, no quinto gol, o atacante do Brentford ainda mostrou mais versatilidade. Para além de pivô e centroavante de ótima movimentação sem bola, foi ótimo ao receber e driblar o defensor em curto espaço, driblar o goleiro e sofrer o pênalti.

Da mesma forma que Igor Thiago manteve o 4-3-3 inicial e ilustrou como Ancelotti deve se ater às suas ideias, assim também fizeram Paquetá e Danilo. A dupla de meias segue o padrão: um mais criador e outro mais box-to-box. E o sexto gol também mostrou isso: o flamenguista lançando o botafoguense em profundidade, após boa corrida de Endrick para empurrar a linha e criar espaço para Danilo.

Lucas Paquetá anotou o quarto gol da goleada brasileira
Lucas Paquetá anotou o quarto gol da goleada brasileira (Foto: Eduardo Carmim / Sports Press Photo / Imago)

O fantasma da era Ancelotti que deve seguir na Copa do Mundo

O 6 a 2 contra o Panamá foi o jogo em que a seleção brasileira marcou mais gols desde que Ancelotti chegou ao país. E mesmo os dois gols sofridos não necessariamente ilustram grandes problemas: um desvio na barreira em uma falta e um golaço quase “aleatório” de fora da área quando já estava 6 a 1, depois de bons duelos defensivos.

A grande questão é a pressão: o Brasil segue com uma marcação alta inconstante. E isso foi preocupante no primeiro tempo, com o time titular — e quando o Panamá teve mais posse de bola.

A Seleção foi muito agressiva nas transições defensivas. Pressionava forte e buscava sempre dar o bote. Quando não recuperava a bola, matava o lance com faltas. A atitude em si é positiva, e a pressão alta com encaixes individuais funcionava bem nos tiros de meta, mas não se sustentava no restante do tempo.

O Brasil defendia em 4-4-2, como fez durante toda a era Ancelotti. A diferença mais recente é Matheus Cunha na segunda linha, pela esquerda, para deixar Vini e Raphinha, os dois principais atacantes, com menos responsabilidades. No entanto, o camisa 7 diversas vezes tinha “ímpeto de menos” para fechar espaços e saltar na pressão durante os gatilhos.

4-4-2 defensivo do Brasil com Vini sem grande ímpeto e muito espaço entrelinhas
4-4-2 defensivo do Brasil com Vini sem grande ímpeto e muito espaço entrelinhas (Foto: Reprodução/GETV)

O Panamá criava em 3-1 e a ideia brasileira era condicionar a construção para um dos lados e pressionar. E em mais de uma vez, o jogador do Real Madrid indicava para Cunha saltar no zagueiro em vez de fechar o lado que era seu, e criava-se um efeito dominó que abriu diversos espaços para o Panamá avançar pelos lados. Se Vini fechasse seu marcador, Cunha poderia ficar na linha de trás e impedir a progressão.

É verdade que a pressão pós-perda foi maioritariamente positiva. Jogadores saltavam de forma agressiva e isso, inclusive, gerou dois gols no jogo. Mas fora da transição, no momento de organização defensiva, a marcação brasileira teve dificuldades de fechar espaços que, no mais alto nível, são simples.

O Panamá não imporia grandes dificuldades como alguns dos adversários da Seleção na Copa podem fazer, mas ainda assim tiveram momentos de posse mais aguda e ainda assim finalizaram 16 vezes, exigindo oito defesas brasileiras. É um ponto de atenção durante toda a era Ancelotti e deve seguir na Copa — o melhor jogo defensivo do Brasil foi na vitória contra Senegal, em novembro do ano passado, algo que nunca mais foi replicado.

O Brasil volta a campo no próximo sábado (6), diante do Egito, às 19h no horário de Brasília, no que será o último jogo da Seleção antes da Copa do Mundo. O confronto será já nos Estados Unidos, no Huntington Bank Field, em Cleveland.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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