CazéTV, SBT e Globo deixaram lições valiosas na Copa para o futuro do futebol na TV
Transmissões de futebol no YouTube já são realidade plena, enquanto TV aberta segue extremamente relevante no Brasil
A Copa do Mundo 2026 terminou e, de forma bastante previsível, cada emissora que a transmitiu fez um balanço e contou do jeito que mais interessou como foram os números de audiência. Todos eles contam a história do Mundial de um lado diferente. Cabe a nós fazer a filtragem do que realmente importou e de quais lições foram aprendidas na mídia esportiva brasileira.
A CazéTV ostenta recordes históricos no YouTube, batendo 24 milhões de aparelhos conectados simultaneamente na semifinal exclusiva França x Espanha. A plataforma disse ter passado de 100 milhões de dispositivos alcançados durante toda a Copa.
Como o sportv foi a grande vítima das decisões da Globo na Copa do Mundo
O SBT comemora mais de 104 milhões de espectadores que passaram pelo canal em algum momento durante os 32 jogos da Copa, bem como pelo streaming +SBT, que anunciou ter tido o melhor desempenho de sua história durante o período da Copa.
A Globo usa a soma de seu ecossistema (TV Globo, sportv e GE TV no Globoplay) para destacar o alcance de 142,7 milhões de pessoas. E ainda aproveita para cutucar a concorrente digital LiveMode. Afirmou que, sem quase metade dos jogos na TV aberta, a Copa perdeu 7 milhões de espectadores na comparação com 2022, uma redução de 4% no público total.
Primeiro, é preciso colocar algumas coisas em contexto: a CazéTV usa dados internos do YouTube, que não são independentes como os medidos pelo Ibope. Já o Ibope, que abastece a Globo e o SBT com seus dados, usa um sistema de medição domiciliar por amostragem que não alcança dispositivos móveis, prejudicando o YouTube e a CazéTV na comparação com canais lineares vistos essencialmente em aparelhos de televisão.
Tudo nessas narrativas precisa ser visto com cuidado.
Comecemos pela CazéTV, que foi o único canal que transmitiu os 104 jogos da Copa do Mundo no Brasil. São inegáveis os feitos numéricos da marca que leva o rosto de Casimiro Miguel e conta com a experiência da LiveMode na produção. Criada em 2022 para transmitir, em cima da hora, 22 jogos do Mundial daquele ano, a CazéTV agora foi a “casa” da Copa, o porto seguro para quem prefere deixar um canal rodando o dia inteiro para ver todos os jogos.
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Há quase quatro anos, quando alcançou os primeiros recordes, que hoje parecem brincadeira de criança perto dos números conquistados na Copa de 2026 mesmo em jogos compartilhados com a Globo e com o SBT, a CazéTV chocou o mercado ao provar que existe uma audiência digital que escolhe ver um jogo com delay mesmo tendo a opção de assistir pela Globo.
Se em 2022 a dúvida pairava sobre o fato de os jogos serem no período da tarde em dias úteis, a realização de jogos do Brasil de noite em 2026 provou que há uma imensa quantidade de pessoas que opta conscientemente pela CazéTV. A lição, neste caso, é que há espaço para uma linguagem diferente e para a concorrência saudável com a TV mais tradicional. Tanto é que a LiveMode já vinha apostando em pacotes compartilhados com a TV aberta antes, como no Paulistão e Brasileirão, competições nas quais a CazéTV sempre exibe os mesmos jogos da Record.
A disponibilização de todos os jogos em 4K sem cobrança de assinatura foi outro feito histórico da CazéTV no YouTube. Esse tipo de produto só estava disponível antes para assinantes do sportv, em 2018 e 2022. A tendência é que a nova TV digital 3.0 faça isso acontecer cada vez mais na TV aberta no futuro, mas em 2026 a tecnologia ainda era restrita demais a poucas pessoas.
No caso da Globo, a lição é muito simples: erra quem insiste em “matar” a TV aberta, a forma mais democrática de ver um jogo com imagens no Brasil. A dificuldade em conseguir uma boa conexão com a internet é um tópico histórico neste país, mas não explica isso sozinha. Além da necessidade de ter bons aparelhos para rodar as transmissões digitais do YouTube, é preciso conhecimento, saber lidar com a tecnologia. A TV aberta ainda é quem inclui essa faixa de população que não consegue se acostumar ao novo.
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Mas há uma espécie de “armadilha” que a Globo colocou contra ela própria na “cutucada” feita à CazéTV no balanço de audiência. A emissora desconsiderou que a Copa do Mundo de 2022 teve 64 jogos, contra 104 da edição aumentada de 2026. E afirmou que o alcance total da Copa caiu 4%, que 7 milhões a menos de pessoas foram atingidas pelo evento.
O “ecossistema Globo” transmitiu 56 jogos, 54 ao vivo na TV aberta. A pergunta é: se tivesse no contrato todos os jogos, a TV Globo teria exibido os 92 possíveis (já descontando os 12 simultâneos da última rodada da fase de grupos)? Se a grade já sofreu um pouco no período da noite com as transmissões de pouco mais da metade do torneio, como teria sido exibir o pacote completo?
Essa pergunta importa para 2030, quando o número total de jogos pode ser ainda maior se prevalecerem aqueles que defendem uma Copa ainda maior, com 64 países. Seriam, neste caso, 128 jogos ao todo e 112 possíveis para transmissão na TV aberta. O fato de o Mundial ser em Portugal, Espanha e Marrocos ajuda com a questão do fuso horário, mas a possibilidade de ter cinco jogos por dia para fazer caber essa ampliação na fase de grupos joga contra.
Como a Copa do Mundo 2026 mudou o futuro da mídia esportiva no Brasil
E por que importa? Ora, se a Globo conseguir os direitos de transmissão da Copa do Mundo 2030 e não exibir tudo o que for possível em TV aberta, que sentido faz dizer que um Mundial sem todos os jogos nessa mídia perdeu alcance? Deixar jogos no sportv ou na GE TV, no mesmo YouTube, teria efeito semelhante.
A Fifa tem a faca e o queijo na mão agora para vender os direitos de todos os jogos para a Globo, mas com a exigência de 92 (em caso de 48 países) ou 112 partidas (em caso de 64 seleções) serem transmitidas na TV aberta.
Outra lição quem deu foi o SBT, que obteve o melhor desempenho de uma emissora aberta concorrente da Globo com Copa do Mundo neste século em jogos do Brasil, bombada por Galvão Bueno, voz da seleção brasileira há décadas na maior emissora do país, e que proporcionou toda essa aventura com a N Sports, canal do qual é sócio e que exibiu em simulcast (transmissão simultânea de sinal) os jogos com o SBT.
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Em São Paulo, a emissora da família Abravanel constantemente abocanhou 21% do bolo de pontos de audiência dados à Copa do Mundo pelo público, tirando 6 pontos em média da TV Globo nas 32 partidas que transmitiu, incluindo aqueles narrados por Tiago Leifert, mais um ex-global.
Se a Globo é a prova de que a TV aberta segue extremamente relevante, o SBT foi a prova de que existe um público ávido por uma opção diferente. A Copa do Mundo foi um grande acerto do Sistema Brasileiro de Televisão, mas não caiu “do céu” e nem brotou do nada para o público do canal.
O SBT já transmite futebol em rede nacional com regularidade há seis anos, maior período consecutivo do esporte na grade da emissora em seus 45 anos de história. Passaram por lá desde então eventos como Libertadores, Campeonato Carioca, Copa América, Copa do Mundo, e ainda passam a Copa Sul-Americana e a Champions League. TV aberta é costume, é hábito, e o SBT soube preparar o terreno para uma Copa do Mundo.
Para 2030, o mundo vai mudar mais, a forma de acesso à tecnologia também vai, o YouTube será provavelmente ainda mais relevante na cultura de ver futebol, com a CazéTV, GE TV, TNT Sports, ESPN, Canal GOAT, N Sports, SportyNet, Canal do Benja, e tantos outros levando eventos para a plataforma do Google. A internet vai melhorar, a TV aberta 3.0 pode ganhar mais lares, os hábitos vão se moldar aos novos tempos, e é muito difícil prever como serão os comportamentos do público.
Mas a decisão sobre os direitos da Copa do Mundo não vai esperar tudo isso acontecer. Ela será feita em breve, com base no que vivemos em 2026, e, claro, em dinheiro. A Fifa coletou dados preciosos e experiências bem interessantes.
A maior de todas as lições é de que é possível fazer uma grande Copa em todas as mídias sem exclusividade para um grupo de mídia no Brasil, modelo que imperou a partir de 2002 e que parece não caber mais no mundo de hoje com seus direitos de transmissão cada vez mais caros e campeonatos cada vez mais inchados.