Copa do Mundo 2026

Como o sportv foi a grande vítima das decisões da Globo na Copa do Mundo

Canal pago mais tradicional em Copas se viu sem quase metade dos jogos e repercutiu bem menos que antigamente

Muitas teorias já foram, estão sendo e serão feitas sobre quem se deu melhor na Copa do Mundo 2026 na mídia esportiva brasileira entre Globo, CazéTV e até o SBT na parceria com a N Sports, mas dificilmente alguém vai discordar do fato de que o sportv foi quem se deu pior. E por culpa da própria Globo, dona do canal esportivo de TV paga mais tradicional em Copas no Brasil. 

Um contexto rápido antes de seguirmos: o sportv surgiu como Top Sport em 1991, época em que a Globosat foi lançada, e virou SporTV em 1994, quando transmitiu em VTs os jogos da Copa do Mundo realizada nos EUA. 

A partir de 1998, exibiu todas as Copas ao vivo, contando com algo que a TV Globo não tinha: mais de um canal para mostrar até as partidas simultâneas. Assinantes do “Canal Campeão” se acostumaram a deixar no SporTV para ver um dia inteiro de Copa, além de programas históricos e debates muito bons. Até 2022.

Como a Copa do Mundo 2026 mudou o futuro da mídia esportiva no Brasil

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Derrota do sportv na cobertura da Copa do Mundo 2026

Olhando em retrospectiva, até a mudança de estilização da marca ‘SporTV’ para ‘sportv’ parece ironicamente refletir a diminuição do canal nesta década em termos de relevância nos grandes eventos do futebol. Foram 56 jogos transmitidos na Copa do Mundo, pouco mais da metade do total de 104, e menos até do que os 64 do formato antigo que estavam sempre disponíveis aos assinantes.

Se a TV Globo não sentiu tanto a falta de 100% dos jogos pelo tamanho que a Copa do Mundo passou a ter com 48 países disputando, o sportv sofreu o baque. Mesmo tendo uma equipe extremamente qualificada, com narradores do porte de Luiz Carlos Jr., Paulo Andrade, entre outros, e bons comentaristas como Ledio Carmona, Grafite e Eric Faria, além da reportagem compartilhada com a Globo, o canal praticamente desapareceu das repercussões na internet. 

Foi eclipsado pela CazéTV, que bateu recordes atrás de recordes no YouTube, pelo SBT, que rendeu mais uma Copa do Mundo e outros recordes a Galvão Bueno, e pela própria Globo. Só a GE TV, sem direitos de YouTube e relegada ao Globoplay e a canais pagos (fazendo mais uma concorrência interna ao sportv), acabou ficando no mesmo nível. Mas cobra-se muito menos de um canal que nasceu há menos de um ano do que de uma marca que era sinônimo de grandes eventos. 

Casimiro Miguel, da CazéTV, em jogo da Copa do Mundo
Casimiro Miguel, da CazéTV, em jogo da Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Nicolo Campo

Há 12 anos, na Copa do Mundo realizada no Brasil, o então SporTV tinha um programa memorável chamado ‘É Campeão’ com convidados fixos do porte de Franz Beckenbauer, Lothar Matthäus, Daniel Passarella e Carlos Alberto Torres. Quem passava o dia no canal já sabia, por exemplo, do incrível potencial de Lucas Gutierrez, hoje sucesso na TV Globo, com o Madruga SporTV, que ocupava toda a faixa entre 1h e 7h da manhã. 

Em 2026, o sportv pareceu apenas preencher grade com debates que só ganharam roupagem de Copa do Mundo com os mesmos comentaristas do dia a dia no futebol de clubes.

Em resumo, o sportv foi vítima dos cortes feitos pela Globo nos custos com direitos de transmissão, e esse não é um caso isolado. O canal perdeu a Libertadores em 2020, quando a emissora rescindiu de forma unilateral o contrato com a Conmebol na pandemia. 

Enquanto a TV Globo recuperou a partir de 2023 o seu pacote em TV aberta, o sportv viu a Paramount dominar o espaço que era seu, e a Libertadores nunca mais voltou. Em 2030, a competição mais importante de clubes da América do Sul completará 10 anos longe do canal pago da Globo.

Na Copa do Brasil, o sportv, que sempre teve domínio total da competição, hoje se vê dividindo jogos com o Prime Video porque a Globo precisou da Amazon para ajudar a pagar a conta dos direitos exclusivos da competição. 

No Brasileirão, o canal continua relevante como sempre, faz um jogo em 4K por rodada, mas perdeu a Série B por outra decisão de corte de custos da Globo. Recuperou em 2026 com a Lei do Mandante, mas possui apenas os jogos de São Bernardo e Náutico em casa. E muitas vezes estes passam só no Premiere, ou até ficam abertos na GE TV.

Dono da Eurocopa por décadas na TV paga, o sportv viu em 2024 o mesmo filme da Copa do Mundo 2026: a perda de metade dos jogos. A CazéTV na época não teve 100% da competição, mas ficou com a exclusividade da outra metade que não estava nos canais da Globo. Para 2028, a CazéTV já garantiu 100% do torneio. Se quiser transmitir, o sportv terá que sublicenciar com a LiveMode.

A discussão sobre o sportv pode partir do próprio modelo de TV paga, que sofre com a pirataria e a baixa de assinantes há anos, mas mesmo neste caso dos acessos ilegais seria um tanto estranho afirmar que o canal ainda tem audiência não contabilizada ao mesmo tempo em que pouco repercute na boca do povo, dos internautas.

A situação é triste porque o sportv é um canal muito bom, ainda, tem uma ótima equipe de profissionais, é a grande casa do vôlei, da Fórmula 1, possui direitos relevantes de estaduais, Copa do Brasil e Brasileirão. Segue sendo o melhor lugar para ver as Olimpíadas. Mas a Globo parece não ter entendido plenamente ainda os movimentos de mercado. 

As mudanças de linguagem que transformaram o sportv nos últimos anos ainda são reflexo muito grande do tempo em que a TV paga crescia e se buscava ser mais “popular”. Essa missão agora é da GE TV. O sportv precisa voltar a ser um canal para quem é fanático por esportes. E isso vale para direitos de transmissão e também para os conteúdos no ar.

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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