Matheus Cunha é centroavante? Por que usar a camisa 9 do Brasil pode trazer estigma negativo a peça crucial de Ancelotti
Jogar com o número de Ronaldo Fenômeno pode fazer Cunha sofrer do mesmo que Gabriel Jesus em 2018: a incompreensão de sua função
Matheus Cunha será o camisa 9 da seleção brasileira na Copa do Mundo, conforme anunciou a CBF em sua divulgação oficial da numeração do time. Mas vestir o histórico número pode levar o público a interpretar o jogador de maneira diferente.
Isso porque, no papel, Matheus pode ser um camisa 9 — e até já foi em diferentes momentos. Na prática, no entanto, o atacante do Manchester United (onde veste a 10), não é o que você espera de alguém que vista o número eternizado por Ronaldo Fenômeno.
E isso, de nenhuma forma, é algo negativo.
Entendendo o que Matheus Cunha faz em campo
No Wolverhampton, onde teve grande destaque (e também vestia a camisa 10) antes de ir ao United, Cunha era um ponta-esquerdo que, depois, se tornou um meia-atacante atrás de um centroavante de origem em um 3-4-2-1. No início de sua passagem em Old Trafford, com a mesma formação, esteve na mesma posição.
No início da carreira, no entanto, esteve mais próximo de um camisa 9 tradicional. Foi centroavante no Hertha Berlin, mas nunca no estilo clássico — o que faz pivô, joga de costas para o gol para depois infiltrar na área quando criarem para ele. Matheus sempre foi um criador. Quando assumiu a titularidade no Hertha, em 2020/21, acabou com sete gols na Bundesliga, mas também quatro assistências e com quase dois passes-chave por jogo.
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Seu tempo no Atlético de Madrid não funcionou tão bem quanto se imaginava também pela má interpretação de quem Matheus era como jogador, assim como aconteceu com João Félix. Dois criadores que eram alocados em outras posições do ataque porque o time não jogava de forma fluida como lhes cabia. Ainda assim, em apenas oito titularidades em LaLiga em 2021/22, Cunha participou de 10 gols.
A ida à Premier League lhe fez bem.
Mesmo inicialmente escalado na ponta-esquerda, tinha liberdade para cair por dentro e um lateral que dava amplitude ao time quando o brasileiro procurava o meio. O resultado veio com 12 gols marcados em 9,49 gols esperados (xG), e incríveis sete assistências em 2,95 assistências esperadas (xA). Uma diferença de quase sete envolvimentos em gols a mais do que o esperado em sua primeira temporada completa.
E mesmo não sendo um centroavante “raiz”, Cunha ainda é um atacante que marca gols. Atingiu o recorde (na época) de gols marcados por um brasileiro na Premier League em 2024/25, com 15 bolas na rede em 8,63 xG, além de seis assistências — mas 13 grandes chances criadas.
Em termos de posicionamento e impacto na criação, o camisa 9 da seleção brasileira se assemelha muito mais a Neymar do que a Igor Thiago ou João Pedro, por exemplo, que são centroavantes mais tradicionais. Cunha é um meia-atacante criador, e sua boa capacidade de chegar à área e finalizar não pode colocá-lo no mesmo pacote que os camisas 9 clássicos
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Matheus Cunha faz a função de ‘camisa 9’ na seleção brasileira?
Se “fazer a função de camisa 9” é ser um centroavante de área, que empurra a linha de defesa, ajuda a entrar no último terço como pivô ou é alvo de cruzamentos, não — Matheus Cunha não é e nunca foi esse jogador na seleção brasileira.
No 4-2-4 que Carlo Ancelotti implementou durante boa parte do seu tempo com o Brasil, Cunha foi um dos dois atacantes centrais, geralmente fazendo dupla com Vinícius Júnior. Naquele modelo, a dupla se complementava nos movimentos: Matheus era o falso nove, que descia para o meio e ajudava na progressão pela região central; e Vini era quem atacava a profundidade para receber nas costas da defesa ou mais aberto, para situações de um contra um.
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Na época do 4-2-4 na seleção brasileira (que já passou, aliás), os pontas eram, na prática, meias criadores que se aproximavam do meio para gerar tabelas, triangulações e faziam o jogo progredir pelo corredor central. Essa era a marca registrada da Seleção. Sem Rodrygo e Estêvão, cruciais para isso, esse estilo ruiu.
Ancelotti então voltou ao 4-3-3 que já havia usado em outros jogos, como contra o Chile, que teve Raphinha como meia e João Pedro como centroavante, para o último jogo antes da convocação, contra a Croácia. Naquele jogo, Cunha foi meia, como um “camisa 8”, e o atacante do Chelsea foi o “camisa 9”.
O teste deu certo: o Brasil conseguiu progredir melhor focando nas laterais, principalmente na esquerda, também por usar pontas tradicionais e perigosos no um contra um. Cunha em especial foi crucial para que Vini tivesse mais tempo e espaço com a bola, uma vez que puxava a marcação do meio-espaço esquerdo para que o camisa 7 recebesse aberto e pudesse girar para dentro para progredir.
Nesse modelo, Cunha também se torna um meia que ataca a área para receber com infiltrações pelo meio-espaço e combinar com Vini, que atrai o lateral adversário e abre o espaço no intervalo entre zagueiro e lateral. O camisa 9 da Seleção infiltra por esse espaço e, além de finalizar, ajuda a criar com cruzamentos para trás na linha de fundo.
A dúvida sobre como Ancelotti deve escalar o Brasil passa pelo papel do centroavante. Ao que tudo indica, esse jogador será um atacante móvel, que baixa para ajudar a construir, pendula para o lado da bola para criar vantagem no último terço e é capaz de atacar a profundidade — mas não será um camisa 9 tradicional.
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Raphinha foi o centroavante titular contra o Panamá e o próprio Ancelotti disse que Neymar disputaria a vaga como “atacante central”. Igor Thiago, claro, é a opção do centroavante mais tradicional para situações e jogos específicos, mas não deve ser a ideia central do italiano.
Por que é ‘perigoso’ que Matheus Cunha vista a camisa 9
Cunha pode sofrer do mesmo que sofreu Gabriel Jesus na Copa de 2018. Na ocasião, o ex-atacante do Palmeiras era um camisa 9 móvel e goleador que começou voando na era Tite com apenas 19 anos. Mas uma Copa do Mundo sem gols selou seu destino com o público brasileiro.
Na Rússia, Jesus foi centroavante, mas na recomposição defensiva no 4-1-4-1 de Tite, defendia na esquerda, teoricamente a posição de Neymar. Isso era positivo porque Jesus era um defensor muito melhor do que o camisa 10 e permitia que o principal pensador do time tivesse menos tarefas defensivas. Isso, no entanto, o afastou do gol — mesmo que ele tenha tido uma média de dois chutes por jogo e perdido três grandes chances na Copa.
Matheus Cunha pode sofrer algo parecido. Como meia no 4-4-2 em fase defensiva, é quem cobre o lado esquerdo, deixando Vini e Raphinha à frente. Ver mais uma vez um camisa 9 voltando para marcar ao lado do lateral pode ser algo que dói para o público brasileiro.