Independente do final, 2023 é um ano que precisa ser lembrado (negativamente) no Cruzeiro
Escolhas ruins da diretoria fazem o ano do retorno à Série A do Brasileirão ser um martírio para o torcedor do Cruzeiro, que vê um velho fantasma bater à porta
Alguns podem estranhar a publicação deste texto no dia de hoje, 9 de novembro de 2023, mas a escolha é pensada. O Brasileirão ainda está indefinido e o Cruzeiro tem sete jogos por fazer até o fim do campeonato. Dependendo apenas de si para se manter na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, estando na zona de rebaixamento, com jogos a menos que seus adversário diretos, o time celeste sabe qual sua missão, mas, independente dela ser cumprida, ou não, 2023 foi um ano jogado no lixo e precisa ser lembrado: para que não se repita novamente.
Após garantir o acesso à Série A de forma antecipada, em setembro de 2022, a expectativa era que a diretoria do Cruzeiro utilizasse o tempo restante na temporada para planejar um 2023 forte, se adiantando aos concorrentes no mercado e, mesmo que sem a expectativa de gastos exorbitantes, fizesse um time competitivo para o ano seguinte. Bem, após o objetivo ser alcançado, um jogador foi contratado: o questionável zagueiro Neris, vindo do modesto Al-Hazm, onde havia sido rebaixado em último lugar, com 21 derrotas em 30 jogos.
Como foi o 2023 do Cruzeiro?
O ano virou e o Cruzeiro apostou na manutenção do técnico uruguaio Paulo Pezzolano, querido pela torcida e muito promissor no cenário nacional. Bem, era o que parecia. Mas o Papa já havia pedido para deixar o clube, em busca do sonho europeu — realizado meses depois no Valladolid, assim como a Raposa, clube de Ronaldo — e, mesmo assim, a diretoria resolveu bancá-lo até o final do estadual.
Estadual esse que foi, no mínimo, vexatório. O Cruzeiro precisou da ajuda de adversários para se classificar à fase final do torneio e, uma vez na semifinal, foi atropelado pelo América-MG, que viria a ser o primeiro rebaixado no Brasileirão, alguns meses depois.
Sem Pezzolano, que saiu após o estadual, o Cruzeiro anunciou o promissor, mas pouco experiente Pepa, que, segundo o clube, passou por todo um processo de seleção ainda durante o trabalho do uruguaio.

Basicamente, sabendo do desejo de seu treinador em deixar o clube, a diretoria celeste apostou em uma permanência temporária, fazendo com que o “laboratório” do Campeonato Mineiro fosse desperdiçado com alguém que não continuaria na Raposa. Isso tudo com a pré-temporada pela frente, tempo suficiente para a busca de um novo treinador.
Inexperiente no futebol brasileiro e assumindo o time poucas semanas antes do início do Brasileirão, Pepa surpreendeu e montou uma equipe competitiva nos dias que teve sem jogos, já que a Raposa havia deixado o Mineiro precocemente.
Após um bom início, que chamou a atenção Brasil afora, o Cruzeiro rapidamente passou a tropeçar nas limitações do modesto elenco montado e perder fôlego no Brasileirão. As limitações e carências eram claras, principalmente após a perda dos volantes Richard e Ramiro, do ponta Bilu e da constatação que Gilberto, contratado para ser o homem gol do time, não iria render. As apostas em Matheus Davó, que a Raposa investiu dinheiro na contratação, e Henrique Dourado, que disputava a segunda divisão chinesa, como esperado, também não deram certo.
A chance de melhoria acabou desperdiçada
Mas ainda havia uma janela de transferências pela frente e com as carências já identificadas, bastava saná-las. O problema é que novamente, o Cruzeiro foi mal. O lateral-direito Palacios e o ponta Paulo Vitor demonstraram ser de um nível técnico abaixo do exigido no Brasil. João Marcelo jogou 45 minutos. Lucas Silva, em litígio no Grêmio, voltou e agradou. Arthur Gomes, comprado da Europa, tem sido uma grande decepção. Rafael Elias, uma aposta. Matheus Pereira, contratação de peso, pôde vir para Belo Horizonte pela junção incomum de uma série de fatores, juntamente ao bom trabalho da diretoria de futebol, mas rapidamente se machucou.
Algumas das principais deficiências do elenco, como zaga, volantes e centroavante não foram sanadas como deveriam e como foi feito em alguns dos grandes rivais do Cruzeiro na briga contra o rebaixamento, caso de Vasco e Santos. E com isso, o desempenho celeste despencou, enquanto o dos adversários melhorou.
Pepa não resistiu aos maus resultados e às poucas vitórias e, com diversos não no mercado, a diretoria celeste teve que apostar no sempre contestado Zé Ricardo, que vinha de trabalho ruim na segunda divisão japonesa.
Com Zé, os resultados têm sido instáveis e o desempenho ruim, mas, hoje, é o que tem. Pregando modernidade e continuidade, por escolhas próprias, a SAF agiu como qualquer outro clube e emplacou três treinadores num ano. Agora, no fim do campeonato, não há margem para mudanças, contratações, trocas. É o que é. E feita essa longa, e ainda resumida, contextualização, chegou no ponto central do meu texto.

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Caindo ou não, a temporada do Cruzeiro já está perdida
Mesmo que fique na Série A, que alcance o esdrúxulo objetivo do 13º lugar (não porque eu esperava o Cruzeiro brigando no G6, mas pelo fato de que se planejar para essa colocação é “se planejar” para lutar para não cair o ano todo. A diferença costuma ser mínima daí para o 17º, o que faz o clube ficar a mercê de uma sequência ruim, assim como aconteceu com a Raposa, para ficar à beira do abismo), que emplaque sete vitórias seguidas, a imprensa, o torcedor e, principalmente, a diretoria, não pode se esquecer: 2023 foi um resumo do que não se fazer em uma temporada num clube de futebol.
Ainda que o Cruzeiro dependa de si próprio para se manter na Série A, em minha visão, o time se encontra no grupo de equipes que não podem enxergar a permanência como uma vitória do projeto. Explico. O time celeste pode vencer três, quatro, sete jogos e ficar na primeira divisão, mas hoje, ele se colocou numa situação onde está à mercê do acaso, sem espaço para errar. Qualquer problema mais sério, a lesão de um jogador importante, uma partida onde o adversário fizer o grande jogo, um apagão, erros de arbitragem ou falhas do acaso, como o centroavante perder uma bola morta no ataque, resultando num contra-ataque que custará dois pontos, será fatal.
Se o Cruzeiro se manter na Série A, não podemos dizer que foi uma vitória do planejamento, e sim das circunstâncias que permeiam a divisão. Da mesma forma que pode-se lamentar as três bolas na trave contra o Inter, deve-se comemorar as cabeçadas de Jemerson e Kanu.
Em resumo, o futebol é, em partes, o acaso. E hoje o Cruzeiro depende desse caso, depende de outros resultados, depende de não errar, para se manter na Série A. Acredito não ser possível dizer que pelo projeto montado, por si só, o time celeste tenha força de permanecer.
Assim, concluo: em caso de permanência, seja da forma que for, as cobranças e a autocrítica precisam acontecer da mesma forma. O Cruzeiro, como organização, abriu brechas para que o rebaixamento fosse uma realidade. Não há vitórias no 2023 celeste. Vitórias, inclusive, escassas. Apenas 13 no ano, contando estadual. O pior ataque da história. Nem as pequenas alegrias foram permitidas ao torcedor. Isso jamais pode entrar em pauta, novamente, na Raposa. Isso, claro, se não cair. Caindo, tudo muda. E a volta será ainda mais dolorosa.
"Ei Ronaldo vai tomar no c…" https://t.co/Pa0oEDRPO4 pic.twitter.com/eaLXtZCtCG
— Maic Costa (@omaiccosta) November 5, 2023
Bônus infames
Não é possível deixar de citar alguns pontos: a torcida pediu para que resolvessem o conflito com o Mineirão. Uma postura agressiva por parte do Cruzeiro preferiu levar jogos para diversas praças: uma vitória no ano como resultado.
A torcida pediu para se preocuparem com coisas mais urgentes do que mexer com o Raposão e o Raposinho: como resultado, um desgaste tremendo e o Cruzeiro meses sem uma das suas principais figuras de marketing e prospecção de torcedores.
A torcida quis uma maior presença dos diretores celestes nos maus momentos. Satisfações. Quando estes apareceram, desastre. Gabriel Lima abriu possibilidades de o Cruzeiro atuar na Arena MRV, novo estádio do rival Atlético-MG. Pouco tempo depois, no clássico, os torcedores cruzeirenses receberam um tratamento na arena atleticano que virou caso de Justiça.
E quando Ronaldo apareceu, culpou a torcida e a imprensa pelo momento ruim do clube. Quando perguntado sobre a responsabilidade da gestão, não deu uma resposta e encerrou o pronunciamento. A desastrosa aparição e as declarações fora da realidade fizeram até os mais ferrenhos defensores da SAF celeste torcerem o nariz e exigirem um pedido de desculpas, que provavelmente nunca virá.
?RONALDO CRITICA COMPORTAMENTO DA TORCIDA DO
CRUZEIRORonaldo fala aqui no Mineirão. Ele disse que não esperava passar por esses momento ruim. Disse que entende as críticas mas não entende a violência e hostilidade da torcida. Citou as dificuldades causadas pela dívida… pic.twitter.com/EGcr0ECCjK
— Maic Costa (@omaiccosta) October 20, 2023
O 2023 do Cruzeiro é um ano inesquecível. É preciso lembrar, para sempre, da aula prática de como não gerir o ano de um gigante do futebol brasileiro.



