Brasil

Os ajustes táticos que Carpini precisa realizar no São Paulo

Saída de bola pelo chão, movimentos ofensivos e bola aérea defensiva: os problemas que Thiago Carpini precisa resolver no São Paulo

Quem diria que aquele São Paulo que derrubou o histórico tabu na Neo Química Arena e conquistou a Supercopa do Brasil em cima do Palmeiras, entre janeiro e fevereiro, seria o mesmo time vaiado no último domingo (17) com a eliminação nas quartas de final do Campeonato Paulista. A sequência invicta nos primeiros seis jogos do técnico Thiago Carpini deu muitas esperanças, mas virou um contraste absurdo ao vencer apenas duas das últimas oito. E a queda no estadual poderia ter acontecido antes, ainda na fase de grupos, mas um pênalti convertido por Lucas Moura deu a vitória no último minuto contra o Ituano e classificou o time.

A torcida são-paulina, seja nas redes sociais ou nas arquibancadas do Morumbis, não querem nem saber do início mágico do jovem treinador e tem colocado pressão no trabalho de Carpini, chamado de “burro” por torcedores no domingo. Contando da última segunda-feira (18) até a estreia na Copa Libertadores, frente ao Talleres, em 4 de abril, o técnico terá 17 dias de treinamentos para efetuar os ajustes coletivos necessários. Confira nesta análise da Trivela alguns pontos táticos que o comandante tricolor deve se ater.

Saída de bola pelo chão deve ser prioridade de Carpini a melhorar no São Paulo

O jogo contra o Novorizontino marcou um recorde (negativo) para o clube paulista. O São Paulo tentou 84 lançamentos longos no empate em 1 a 1, segundo a plataforma Opta, que tem um banco de dados desde 2015 e aponta ser a primeira vez que o Tricolor alcança esse número no período. Quase um a cada minuto, não é um fato isolado pelo nervosismo de uma partida eliminatória. Com Carpini no comando, o time perdeu aquela posse de bola mais lenta e calma com Dorival Júnior por um jogo muito direto e, por vezes, sem paciência para construir pelo chão. Ou seja, o jeito é usar e abusar das bolas longas (ou chutões mesmo) e torcer que os homens de frente ganhem no alto dos adversários. Jonathan Calleri tem feito isso, com movimentos para os lados do campo para ter que competir com os laterais, normalmente mais baixos. O recém-chegado André Silva também mostrou ter essa característica em sua estreia.

Essa impaciência na saída de bola, normalmente iniciada pelos zagueiros ou o volante Pablo Maia, é explicada, em parte, pela ida de Lucas Beraldo ao PSG. A cria de Cotia era o único canhoto para exercer essa função na dupla de zaga. Sem o jovem, Carpini teve que usar dois destros, normalmente Robert Arboleda e mais um (Diego Costa, Nahuel Ferraresi ou Alan Franco). Com isso, o defensor que joga pela esquerda não passa a bola com naturalidade. O técnico abordou esse assunto em uma entrevista coletiva no último mês.

– E talvez tenhamos encontrado algumas dificuldades nessa iniciação do São Paulo, na saída de bola […]. No ano passado, nós tínhamos um zagueiro “meia” canhoto, que é o que estou buscando para o nosso elenco. Querendo ou não, o destro quando joga do lado contrário, ele fica um pouco mais torto. A circulação fica mais lenta, e você acaba mostrando mais o passe quando vai arriscar o passe por dentro na amplitude. E o canhoto, não. E era o que o Beraldo fazia com excelência. […] O fato de jogar do lado esquerdo e dar essa amplitude é o que falta um pouquinho para a gente começar a encontrar esses espaços e ser um pouco mais agressivo – justificou Carpini, em 17 de fevereiro, após o empate em 2 a 2 com o Red Bull Bragantino.

Além de canhoto, Beraldo trazia calma e tranquilidade para saída de bola do São Paulo em 2023 (Foto: Icon Sport)

Após dificuldades para encontrar um jogador com esse perfil, o clube do Morumbis fechou com o zagueiro canhoto Sabino.

No entanto, nada justifica o tanto que o São Paulo se desfaz da bola. Ainda mais sendo um elenco técnico, com uma dupla de volantes que sabem jogar (Maia e Alisson) e atacantes que não estão lá para brigar pela bola no alto (casos de Lucas, Ferreira e outros) – óbvio, com exceção de Calleri.

Carpini pode encontrar dificuldade para treinar a saída e outros aspectos nesse período de inatividade porque seis jogadores (Arboleda, Ferraresi, Damian Bobadilla, Rafael, Pablo Maia e James Rodríguez) estarão a serviço de suas seleções até a próxima terça-feira (26), além de não contar com os lesionados Ferreirinha, Rodrigo Nestor, Luiz Gustavo, Nikão, Calleri, Wellington Rato, Moreira e Patryk.

Movimentação no ataque ainda parece um tanto confusa

Também contra o Novorizontino, vimos a formação de ataque tendo, novamente, Lucas e Luciano juntos, dois jogadores que em alguns momentos “bateram cabeça” por exercer quase a mesma função no campo. A diferença é que o camisa 10, às vezes, ia para ponta direita. Desde que voltou ao clube do coração, o ex-PSG e Tottenham desempenhou melhor como o meia atrás do centroavante. Foi nesta função que levou o Tricolor ao título da Copa do Brasil no ano passado. Consequentemente, Luciano, que também faz essa função só que com outras características, perdeu a vaga.

Carpini insiste com os dois juntos porque Rato está lesionado e Erick, o reserva imediato da função, não faz bons jogos após impressionar na estreia. Ao menos, o técnico precisa definir quem permanecerá dando amplitude pela direita, já que Rafinha faz a saída de bola por não tem mais fôlego de ir à linha de fundo ou ficar colocado à linha lateral.

Outra questão do funcionamento ofensivo é também as movimentações sem bola. Mesmo que Carpini prefira que seus jogadores fiquem mais fixos em suas funções, não quer dizer que todo mundo deve estar estático. O atleta que tem a bola deve ter apoios, seja próximos ou mais distantes, como um atacante atacar as costas da defesa adversária ao mesmo tempo que um colega se aproxima para receber no pé. O São Paulo tem mostrado movimentos não tão naturais e a construção costuma ser lenta, também pelo problema citado na saída de bola.

Com Dorival Júnior, vimos o elenco são-paulino ser bem potencializado com um jogo muito forte por dentro. Troca de passes curtos, aproximações e muitos jogadores no setor da bola. Hoje, a equipe parece ter perdido essa característica – também pelo jogo mais posicional de Carpini – e prefere jogar pelos lados do campo por ser um caminho menos congestionado – teoricamente, mais fácil.

Todas essas questões ofensivas expliquem o time do Morumbis ser o quinto que mais precisa finalizar (10.1, segundo o SofaScore) para marcar gols entre os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro.

As questões defensivas: bola aérea e pressão

A bola aérea defensiva do São Paulo, ótima no ano passado, tem sido um pesadelo em 2024. O time foi vazado 13 vezes em 13 jogos do Paulistão, sendo que a defesa passou limpa apenas três vezes. Dos 13 gols sofridos, inacreditavelmente nove foram em bolas alçadas na área, sendo seis via cruzamentos dos lados do campo (duas vezes contra Ituano e uma com Bragantino, Ponte Preta e Santo André), três em escanteios (Guarani, Ponte – este, um golaço de primeira de Gabriel Risso – e Mirassol) e um através de falta (Corinthians). E isso com ou sem Arboleda, o melhor da defesa no quesito disputas no alto.

Há, definitivamente, uma questão defensiva a ser resolvida pelo Carpini. Novamente no recorte entre times do Brasileirão, o time paulista é quem menos precisa sofrer chutes (9.3) para sofrer gol, segundo o SofaScore.

Um aspecto positivo que também necessita de ajustes é a pressão do Tricolor no campo de ataque adversário. É uma intensidade até acima do visto sob comando de Dorival e Rogério Ceni, o penúltimo técnico, e dá resultado com boas roubadas de bola em locais próximos do gol. No entanto, quando duela contra um adversário que tem uma saída de bola mais estruturada, deixa lacunas, especialmente quando se supera a primeira linha de pressão e abre-se um espaço nas costas desses jogadores. Nesse caso, o ajuste é para as linhas de defesa e meio-campo acompanharem o ataque no momento da pressão em cima do rival.

Carpini chegou em 11 de janeiro, tem pouco tempo no cargo, talvez ainda não tenha conseguido transmitir exatamente suas ideias ao elenco, mas precisa mostrar evolução nessa pausa. As próximas partidas devem ser decisivas para a forma que a diretoria avalia seu trabalho. É uma temporada importante para o clube, principalmente para o torcedor são-paulino, um eterno apaixonado pela Copa Libertadores, competição que já esteve nos lados do Morumbi em três oportunidades.

Próximos jogos do São Paulo

  • 04/04 – Talleres x São Paulo, Estádio Mario Alberto Kempes – 1ª rodada da fase de grupos da Libertadores;
  • 10/04 – São Paulo x Cobresal, Morumbis – 2ª rodada da fase de grupos da Libertadores;
  • 13, 14 ou 15/05 – São Paulo x Fortaleza – 1ª rodada do Brasileirão.
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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