Copa América

Uma Copa América que nunca teve sentido atinge níveis de escárnio – e precisa ser questionada inclusive pelos jogadores

Brasil assume a realização de um torneio que, se já não tinha sentido desde o início, agora só se justifica por lucro à Conmebol e jogo político

Desde o princípio, a Copa América de 2020 parecia um torneio supérfluo no calendário da Conmebol. Se a Copa América Centenario em 2016 até possuía um pano de fundo “compreensível” para caçar níqueis nos Estados Unidos, a nova edição era totalmente desprovida de sentido. Ganância era a explicação mais óbvia, com a Conmebol aproveitando-se das imagens de seus jogadores e de suas seleções para benefício próprio. Diante da pandemia, a Copa América de 2020 parecia ainda mais desnecessária. Veio 2021 e o torneio virou um grande elefante na sala, que ninguém poderia receber. A Colômbia abriu mão por conta da convulsão social, a Argentina por conta da pandemia. E agora o Brasil é quem abraça essa bomba, numa decisão que soa como escárnio pelo que acontece no país. Numa decisão não mais que política e benéfica principalmente aos lucros da cartolagem. A ver se a repercussão negativa nesta segunda freia tal decisão, com o Ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, contradizendo a Conmebol ao afirmar que “não há nada certo” – mesmo admitindo que o Brasil pode “atender a demanda caso seja possível”.

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A decisão da Conmebol em organizar a Copa América de 2020, um ano depois da edição de 2019, parecia não ser favorável nem à própria Copa América. Existe um claro desgaste ao redor da competição, com edições excessivas e um interesse que se perde com a insistência da entidade. A ideia de conceder a nova realização para Colômbia e Argentina, no entanto, cumpria ambições da própria confederação. Aproximava-se de mais dois governos do continente com o trunfo do torneio e costurava vantajosos contratos comerciais para si. Mesmo que o prestígio da Copa América ficasse em xeque com tantas edições encadeadas, isso pouco importava aos dirigentes, se dezenas de milhões de dólares entrariam nas contas.

A pandemia terminou por adiar uma Copa América que não deveria sequer ter sido concebida. Retardar a realização da competição em um ano seria capaz de dar um respiro à Conmebol, mas não de evitar problemas numa região que sequer conseguiu combater o coronavírus da melhor maneira. E novos entraves vieram em cima da hora. Primeiro, com a revolta social da população colombiana contra a reforma tributária costurada pelo governo. A Conmebol parecia disposta a passar por cima da instabilidade no país, inclusive forçando a realização de partidas da Libertadores e da Copa Sul-Americana. Porém, logo ficou claro que fazer a Copa América por lá seria inviável. A Argentina, então, se responsabilizou por assumir todo o torneio de seleções. E se parecia incongruente que o governo local levasse para frente tal ideia, considerando o agravamento da pandemia por lá, ao menos houve uma mudança de ideia para desistir da competição.

O que seria um ônus para qualquer outro país, ao Brasil pareceu uma oportunidade. Se a Conmebol já vinha pouco se lixando para a pandemia ou para a revolta social, não importava que o cenário brasileiro fosse alarmante nos dois sentidos, desde que as autoridades locais bancassem a realização. Exatamente o que aconteceu, com uma abertura instantânea. A resposta, que demorou tanto em relação à “nada urgente” compra de vacinas, veio em questão de minutos para quebrar um galho à Conmebol.

Para o governo brasileiro, a Copa América seria uma ferramenta a mais para tentar desviar as atenções a tudo de errado que acontece no país. Aproveitar-se do futebol não é algo exclusivo da atual presidência, muito pelo contrário, mas por tantas vezes durante os últimos dois anos e meio o presidente tentou associar ao futebol à sua imagem. Tal postura já tinha sido bem clara na Copa América de 2019 e cairia dos céus agora, num momento de rejeição recorde e de CPI em meio à negligência com o caos sanitário do país. O torneio de seleções seria uma ferramenta bem mais forte que a inauguração de pontes, afinal, para tentar mostrar serviço. É uma pretensa “normalidade” no país que se encaminha a 500 mil mortes e repetidos negacionismos.

A CBF também não reclama da conveniência da Copa América por aqui. A entidade encara sua maior crise dos últimos anos, com Rogério Caboclo perdendo força política e os sinais claros da influência de Marco Polo del Nero, que em teoria está banido do futebol. A realização do torneio pode ser uma oportunidade para a entidade tentar abafar o caso e ainda deixar Alejandro Domínguez “devendo um favor” na Conmebol. E, desde muito antes, não é problema à CBF que o torneio de seleções ocorra em paralelo com suas competições de clubes. Quanto mais dinheiro circulando, melhor, às custas de equipes e atletas.

Obviamente, há tiros que podem sair pela culatra. A Copa América no Brasil, invariavelmente, aumenta a visibilidade do país ao menos neste momento. E isso pode tornar ainda mais audíveis os protestos contra o governo, como os que aconteceram no último final de semana. Na Copa das Confederações, mesmo que as pautas fossem outras, tal revolta ganhou eco muito por conta do futebol. Além disso, a medida da CBF pode desagradar seus principais aliados, os clubes. Começam a surgir movimentos para suspender o Brasileirão e a escolha dos estádios pode entrar num tema já delicado ao longo da pandemia, que guardaram quedas de braço ao redor de Rogério Caboclo.

Já a Conmebol deixou de ser uma entidade esportiva faz tempo. Por vezes, a confederação presidida por Alejandro Domínguez parece querer se portar como um estado em si, como no momento em que aplica vacinas por conta própria – publicamente, “para viabilizar suas competições”, mas todo mundo sabe que o que o dirigente não quer mesmo é perder os lucros. Outras vezes, porém, a Conmebol age como se sequer estivesse no planeta Terra ao ignorar noticiários e questões de amplo interesse social. Mas, para quem já manda às favas clubes e atletas há décadas, forçando-os ainda mais aos riscos durante a pandemia e não se importando com a descaracterização dos torneios como nos últimos tempos, querer a confederação pensando no povo é exagero.

A Copa América procura suas sedes para essa edição inacreditável no Brasil. E não será surpresa que algumas cidades abracem o torneio. Num descaso que também tem sua responsabilidade entre governadores e prefeitos, eles terão sua própria oportunidade de tentar oferecer um pouco de circo em tempos de pão escasso. A primeira ideia é aproveitar cidades com seus elefantes brancos prontos desde 2014, mas capitais cheias de times na Série A também devem entrar na brincadeira. Se governos como os de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul fecham as portas, outros como São Paulo, Bahia e Amazonas não se opõem à farra. Mato Grosso até se candidatou. E a Conmebol ainda pretende portões abertos ao público parcial, quando os números de infectados preocupam em várias regiões.

A Copa América de 2021 pode não trazer custos financeiros ao Brasil. Os gastos altíssimos em praças esportivas são heranças de governos anteriores e desde a época foram devidamente questionados. O preço dos grandes eventos no país ainda é sentido. Porém, a Copa América de 2021 custa pela falta de respeito à população, pela falta de consideração com as vítimas da pandemia e com a falta de tato sobre as consequências que a realização do torneio poderá trazer à própria situação sanitária. Se ainda houve um mínimo de senso na Colômbia e na Argentina, algo que passa por governos de diferentes orientações políticas, o senso do ridículo no Brasil se perdeu faz tempo. E a Copa América por aqui é mais um exemplo.

O que está em risco se a Copa América não for realizada? Basicamente, os lucros da Conmebol e o capital político dos interessados no torneio. Não é que um certame feito às pressas vai impulsionar uma economia abalada pela pandemia como a brasileira ou vai gerar um montante de dinheiro tão significativo aos setores ao redor do futebol, ainda mais pela limitação no público. E diferentemente das competições de clubes realizadas em meio à situação gravíssima da pandemia no continente, que ainda podem se justificar quanto ao sustento da estrutura econômica do esporte (embora os riscos a muitos envolvidos ainda não valessem tamanha imprudência), a Copa América sequer possui essa desculpa para si. Mas vai em frente, com um discurso vazio de que “fará vibrar todo o continente”. No Brasil, muitos já vibram de ódio, como se não houvesse motivo suficiente para isso.

A esperança? Que população, imprensa e até mesmo parte dos políticos evidenciem como esta Copa América não tem cabimento. O Brasil não deveria receber esse torneio e causa ainda mais repulsa a prontidão, num momento em que as prioridades deveriam ser outras. A declaração do Ministro da Casa Civil demonstra o mínimo senso de realidade ao botar sob análise a realização. Parte dos governadores também souberam mensurar, de imediato, como tal iniciativa era um tiro no pé. Já alguns deputados se movimentam para acionar o STF contra a Copa América, enquanto a própria CBF começa a entrar na mira da CPI. É ver se Caboclo desejará se colocar diante deste possível escrutínio.

Caso o torneio siga mesmo em frente no Brasil, também fica um convite para que os jogadores tenham um posicionamento mais combativo diante do cenário. A Copa América, a Conmebol e as federações nacionais só são tão lucrativas pelos craques que defendem as seleções. Em tempos de estádios vazios, a imagem dos jogadores é ainda mais central ao sucesso financeiro do torneio. Apesar dos riscos de represálias, seria importante uma postura crítica a tudo o que acontece. Os riscos, afinal, também são compartilhados por eles. São os futebolistas os mais capazes de esvaziar essa Copa América e de escancarar como a realização da competição neste momento é um insulto.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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