Copa América

Onipresente em campo, De Paul fez uma final de Copa América que beirou a perfeição

Autor da assistência para Di María, De Paul ofereceu os melhores passes da Argentina e se multiplicou na marcação

Craques, sozinhos, não ganham títulos no futebol. A Argentina estava cansada de saber disso ao longo dos últimos anos. Mesmo os grandes momentos de Lionel Messi não eram suficientes para a Albiceleste interromper seu jejum. O camisa 10 precisava de uma equipe mais confiável, especialmente na defesa, e de bons ajudantes ao seu lado. E isso se veria no Maracanã, para que a Copa América parasse nas mãos da Albiceleste. Rodrigo de Paul seria um monstro na decisão contra o Brasil, melhor que o tímido Messi durante os 90 minutos. Marcou bem demais, manteve a segurança no meio-campo, venceu diversos combates. E seus passes longos valeram ouro aos companheiros. Em especial, o lançamento soberbo que rendeu o gol de Ángel Di María.

Aos 27 anos, Rodrigo de Paul não é nenhuma promessa. Porém, sua afirmação em alto nível seria um dos acréscimos mais importantes da Argentina no atual ciclo. O meio-campista surgiu com destaque no Racing, mas não deu certo durante sua primeira passagem pela Europa, pelo Valencia. Foi apenas quando se transferiu à Udinese que realmente apresentou seu máximo no Velho Continente. E o crescimento do volante se nota ano após ano. É um todo-campista, que protege o meio e se manda à frente para atacar. Os passes longos e os chutes são uma clara arma, que permitiram ao camisa 10 virar dono dos friulani.

Considerando o bom futebol de De Paul na Udinese, sua primeira chance pela seleção até demorou. Veio somente em 2018, após a Copa do Mundo. Num momento em que a Argentina precisava de sangue novo, e de caras que oferecessem mais consistência ao time, o meio-campista parecia uma ótima pedida. Virou frequente logo nas primeiras convocações de Lionel Scaloni e não deixaria mais o time. Até porque, além da própria fase no clube, o camisa 7 correspondeu bem com a camisa albiceleste.

De Paul seria um destaque positivo na Copa América de 2019, mesmo que a campanha da Argentina não tenha empolgado. Exibiu intensidade no meio-campo e clareza nos movimentos. E seria importante também a entrega que ofereceu ao time de Lionel Scaloni. Muito versátil e inteligente taticamente, o camisa 7 ocupou diferentes faixas da meia-cancha naquela ocasião. Até por isso pareceu reforçar seu moral com o treinador. Se a cabeça de área da Albiceleste não contava necessariamente com virtuosos, reunia atletas que podiam desempenhar diferentes papéis e corresponder com regularidade. Foi o que manteve De Paul no time.

Desde outubro de 2018, quando estreou na equipe nacional, De Paul jogou 29 das 32 partidas disputadas pela Argentina. Seria titular em 25 dessas aparições. Saiu do banco na estreia da Copa América de 2019 e, a partir de então, não deixou o 11 inicial em um compromisso sequer até o início da nova edição da competição continental. E se acabaria se ausentando de um jogo neste torneio de 2021, foi mais pela falta de urgência na fase de grupos, quando Scaloni pôde rodar seus titulares para um descanso. Nos momentos decisivos, todavia, o camisa 7 sempre ficou em campo durante os 90 minutos.

De Paul fez uma boa atuação contra o Uruguai na fase de grupos e seria um dos melhores do time contra o Equador nas quartas, com gol e passes importantes. Não correspondeu diante da Colômbia, mas a exibição contra o Brasil já valeria por todo o campeonato. Foi uma noite perfeita do camisa 7 no Maracanã. Numa Argentina que precisava de muito empenho sem a bola, o trabalho incansável de De Paul seria vital. Fechou especialmente bem o lado direito, nos embates mais perigosos com os brasileiros, auxiliando o ótimo Gonzalo Montiel por ali. O sacrifício valeu muito, para preencher os espaços e evitar qualquer brecha aos oponentes. Mas com a bola é que o meio-campista se excedeu, subindo ao ataque e se somando aos companheiros.

O passe para Di María é um primor. Os brasileiros deram liberdade excessiva a De Paul e isso se provou uma falha tremenda, considerando a virtude do argentino nas bolas longas. A bobeada de Renan Lodi influencia o lance, mas a precisão de seu lançamento ainda assim é absurda. E o camisa 7 só não deu duas assistências porque Messi perdeu um gol que não costuma, depois de uma enfiada espetacular do meio-campista. Ele sabia o que fazer com a bola e, numa noite em que a Argentina criou pouquíssimo, os passes de De Paul foram exatamente o mais precioso que os albicelestes tiveram.

A noite no Maracanã apresentou predicados de Rodrigo de Paul que, isolados, já fariam grande diferença: a inteligência, o esforço, a firmeza, a solidariedade. Juntos, essas detalhes compuseram uma partidaça do camisa 7. E a pincelada de classe veio com seu lançamento magistral, coisa de quem sabe tratar a bola. O sucesso na Udinese leva De Paul a mais e o meio-campista está pronto para se transferir ao Atlético de Madrid na próxima temporada. Mas essa final de Copa América possui um sentido extra além da bola, pelo significado deste título a uma sedenta Argentina. Foi seu passe para a memória dos compatriotas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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