Copa América

O Paraguai que mais incomodou a Seleção na Copa América também rendeu ídolos ao Brasil

O Paraguai tem sido uma costumeira pedra no sapato do Brasil neste século. Desde 2000, o retrospecto da Seleção diante da Albirroja é ruim. São cinco vitórias brasileiras e quatro paraguaias, além de cinco empates – dois destes valendo a classificação na Copa América. O Brasil não perdeu jogos oficiais em casa desde então, apesar do tropeço no amistoso que celebrou o pentacampeonato em 2002. E se, apesar da fragilidade dos times guaranis, o retrospecto recente inspira cuidados, vale lembrar que o Paraguai já foi um incômodo algoz da Seleção no passado da Copa América. Especialmente na virada dos anos 1940 para os 1950, os paraguaios bateram de frente com os brasileiros e viram seu sucesso se refletir até mesmo nos clubes daqui.

Considerando apenas os jogos válidos por Copa América, Brasil e Paraguai se enfrentaram 30 vezes. O retrospecto favorece os brasileiros. São 13 vitórias da Canarinho, além de 11 empates e seis derrotas. Os triunfos do Paraguai, no entanto, indicam algumas das maiores glórias do futebol guarani. Os dois títulos continentais que a Albirroja conquistou tiveram os brasileiros como principais vítimas na caminhada. E com heróis inesquecíveis a ambos os países.

O Paraguai começou a disputar a Copa América nos anos 1920 e, durante as duas primeiras décadas do torneio, era freguês do Brasil. Foram cinco derrotas dos paraguaios em sete partidas. Mas, apesar do cartel, ocorreram momentos de destaque. A Albirroja terminou com o vice no Campeonato Sul-Americano de 1922, que comemorava o centenário da independência do Brasil. Em uma edição marcada pelas arbitragens péssimas e parciais, os guaranis foram beneficiados ou prejudicados conforme a dança. Chegaram a empatar com os anfitriões graças a ajuda de um juiz chileno e acabaram “conduzidos” ao jogo-desempate para decidir o título. Mas não seriam eles que barrariam o ambiente forjado para engrandecer a Seleção, com a derrota por 3 a 1 na decisão. O troco do Paraguai viria um ano depois. No Campeonato Sul-Americano de 1923, Ildefonso Lopez anotou o gol do triunfo paraguaio por 1 a 0 em Montevidéu.

Durante a década de 1940 que o Paraguai se transformou realmente em um adversário indigesto ao Brasil. Contra times badalados, a Albirroja arrancou empates em 1942 e 1946. O melhor resultado da década, contudo, aconteceu em 1949. Aquele Campeonato Sul-Americano, de volta ao Brasil, não teve a Argentina e viu o Uruguai enviar um time enfraquecido, após a greve de jogadores que aconteceu em ambos os países. Desta forma, o Paraguai se tornou o principal rival dos brasileiros. E provocou o baque em São Januário durante a última rodada do octogonal. Com dois pontos a mais, o time de Flávio Costa precisava apenas de um empate para erguer o troféu. Profecia de 1950? Pois é: de virada, os guaranis triunfaram dentro de São Januário por 2 a 1. A sorte é que, com a igualdade em pontos, haveria outro jogo-desempate entre as duas seleções.

O Paraguai teve uma atuação surpreendente naquele dia. O goleiro Sinforiano García, então jogador do Cerro Porteño, fechou a meta da Albirroja. Resistia bravamente às investidas dos brasileiros e adiou o primeiro tento até que Tesourinha finalmente o vencesse, aos 33 minutos. Contudo, o arqueiro permaneceu intransponível. E, nos 15 minutos finais, após a lesão de Wilsinho,  que desmontou o sistema defensivo brasileiro, os guaranis arrancaram a virada. O gol de empate veio com Enrique Ávalos. Já aos 40, Dionisio Arce fez a jogada e passou para Jorge Duilio Benítez. O atacante percebeu a saída de Barbosa e deu um toque por cobertura, na saída do goleiro. Para espanto da torcida em São Januário, o título não viria naquela tarde. Os times voltariam a se encarar três dias depois, no mesmo estádio.

O mentor por trás daquela seleção paraguaia era já conhecido dos brasileiros. Manuel Fleitas Solich foi um meio-campista de excelente qualidade técnica. Alto e elegante, envergava a camisa da Albirroja quando enfrentou o Brasil no Sul-Americano de 1922. Depois, seria vendido pelo Nacional de Assunção ao Boca Juniors, tornando-se o primeiro jogador de seu país a atuar no exterior. Usou a braçadeira de capitão e foi bicampeão argentino com os xeneizes, defendendo o Racing antes de se aposentar. Chuteiras penduradas, o “Feiticeiro” não se afastou dos gramados. Nos tempos de jogador, já acumulava funções e treinava o escrete guarani. Voltou de vez em 1940 e seria responsável pelas ideias que aumentaram a competitividade da equipe. Virou uma pedra no sapato dos concorrentes durante aquela virada de década.

O reencontro em São Januário, porém, contou com uma impiedosa goleada do Brasil. O time de Flávio Costa não titubeou em sua segunda chance. Goleou por 7 a 0, com três gols de Ademir, dois de Tesourinha e dois de Jair. O grande nome daquele dia, porém, não aparecia no placar: Zizinho fez um dos melhores jogos de sua vida. O craque chamou a responsabilidade para si e criou as jogadas em seis destes tentos. E isso porque García evitou algo pior. “Vitória com juros!”, estampava o Jornal dos Sports na época, celebrando o título. Mas, apesar da chacoalhada, a Albirroja saiu com moral do Campeonato Sul-Americano. Artilheiro do time, Arce se transferiu à Lazio e faria uma extensa carreira no endinheirado futebol italiano. O algoz Benítez assinou com o Boca Juniors. E o goleiro García agradou tanto os brasileiros que permaneceu no Flamengo logo depois, tornando-se um dos maiores de sua posição no clube.

Sem esses importantes jogadores que atuavam fora do país, o Paraguai não faria uma campanha tão destacada na Copa de 1950. O time de Manuel Fleitas Solich caiu na fase de grupos, sufocado em chave pesada contra Suécia e Itália. A campanha ainda valeu mais uma transferência à Lazio, de Leongino Unzaim. A glória dos guaranis ficaria reservada ao Campeonato Sul-Americano de 1953, realizado no Peru. A Albirroja conquistaria seu título inédito, em revanche contra o Brasil.

Enquanto a Argentina não participou daquela edição, o Uruguai não enviou seu time principal. O favorito era mesmo o Brasil, que mantinha parte da base vice-campeã mundial, com alguns acréscimos notáveis. Ademir, Barbosa, Bauer, Danilo, Castilho, Ely e Zizinho eram alguns dos bastiões da velha guarda, reforçados por Didi, Gylmar, Djalma Santos, Julinho, Nilton Santos e outros nomes que encabeçariam a Seleção na sequência da década. Já no Paraguai, Fleitas Solich mantinha o seu elenco concentrado nos principais clubes do país, sem poder chamar os “estrangeiros”. García, venerado no Flamengo, seguia fora do escrete. Assim como Benítez, levado pelos rubro-negros em 1952 e também idolatrado pela torcida carioca.

Cabe dizer que a bagunça imperou na CBD durante aquela edição do Campeonato Sul-Americano. O técnico Aimoré Moreira acumulava atritos com a CBD e lidava com jogadores insatisfeitos pelo cerco fechado na concentração. Para piorar, o time não empolgava em campo. Resultado: após a derrota diante do Peru, a entidade resolveu agir. Flávio Costa e Zezé Moreira excursionavam, respectivamente, com Vasco e Fluminense pelo continente. Receberam telegramas da CBD, solicitando que se dirigissem a Lima para ajudar Aimoré. O treinador não gostou da notícia, fechou as portas até ao próprio irmão e não permitiu qualquer auxílio. Os jogadores e a comissão técnica se mantiveram ao seu lado. Já o escritor José Lins do Rego, chefe da delegação e responsável pelos contatos orientados pela chefia da CBD, ameaçou se retirar.

De novo, Brasil e Paraguai se enfrentaram pela última rodada. De novo, um empate poderia dar o título à Seleção. E, de novo, a Albirroja tratou de estragar os planos dos vizinhos com uma vitória por 2 a 1 arrancada nos instantes finais. Diante do ambiente tumultuado, o Brasil não rendeu em campo. Attilio López abriu o placar e Nilton Santos até empatou na sequência, mas o Paraguai demonstrava enorme vitalidade. O goleiro Carlos Riquelme fechava o gol e, como se não bastasse, Julinho e Zizinho saíram machucados. Já o tento decisivo teve o dedo do Feiticeiro Fleitas Solich. Pablo León tinha sido reserva em quase todo o torneio e, além de ponta, acumulava a função de “garoto da água”. Saiu do banco a cinco minutos do fim e, aos 44, decretou o heroico triunfo guarani.

O jogo-desempate não se confirmou de imediato. Um ponto atrás, o Peru ganhava sobrevida com a derrota do Brasil. E poderia erguer a taça diante da sua torcida no último jogo do dia, encarando o mistão do Uruguai. A Blanquirroja viveu uma de suas maiores decepções, engolindo a seco o revés por 3 a 0. Com isso, empatados na liderança, brasileiros e paraguaios voltariam a se encarar quatro dias depois. Foi quando o futebol da equipe de Manuel Fleitas Solich atingiu seu ápice, garantindo o troféu.

O primeiro tempo do Paraguai foi impecável. Meteu três gols no Brasil e encaminhou o resultado. Attilio López anotou o primeiro, em avanço rápido. Manuel Gavilán ampliou, em chute de longe. E o terceiro veio quando os brasileiros já se abriam, permitindo que Ruben Fernández punisse um rebote de Castilho. Sem Zizinho, acusado de “fazer corpo mole” após se lesionar no duelo anterior, o time de Aimoré Moreira até reagiu no segundo tempo. Baltazar balançou as redes duas vezes, mas os guaranis conseguiram segurar o resultado. Seria o último compromisso oficial do Brasil vestindo a “amaldiçoada” camisa branca, substituída no ano seguinte pela amarelinha.

Os membros daquele Paraguai buscariam outros horizontes. Aclamadíssimo no Brasil, Fleitas Solich se juntaria a García e Benítez no Flamengo. Assinou o contrato no intervalo entre os dois jogos decisivos no Peru e estrearia ainda em abril de 1953, conquistando o tricampeonato carioca a partir de então. É lembrado entre os maiores técnicos da história do clube. O Vasco também buscou o seu reforço, trazendo o “Rayo” Sílvio Parodi para o ataque. O Atlético de Madrid encorpou seu elenco de baciada, com as adições de Attilio López, Carlos Riquelme e Heriberto Herrera. Eleito o melhor jogador do Campeonato Sul-Americano, liderando a defesa, Herrera atuou pelos colchoneros por sete anos e ainda seria treinador de sucesso na Europa, faturando um Scudetto com a Juventus em 1967. Também vale destacar o destino de Ruben Fernández e Ángel Berni, artilheiros da campanha. Ambos rumaram à Argentina, defendendo Boca Juniors e San Lorenzo, respectivamente. Berni foi o goleador da liga local em 1954.

Já o Brasil lidaria com uma imensa caça às bruxas. Zizinho seria taxado como jogador indisciplinado e seria afastado da Seleção. Disputou um amistoso em 1955, antes de retornar a uma sequência um pouco maior em 1957, seu ponto final com a camisa amarela. Didi, Nílton Santos, Castilho e Djalma Santos aturariam críticas parecidas. Dizia-se que não tinham o “espírito de seleção”. O próprio Aimoré Moreira cairia em desgraça pela confusão que rondou o elenco. A sorte é que, exceção feita ao Mestre Ziza, todos os outros puderam se reerguer com o tempo e marcar a história da equipe nacional.

Com o desmanche de sua geração, o Paraguai voltou a ser coadjuvante no Campeonato Sul-Americano e viu o Brasil se vingar em 1959, com goleada por 4 a 0, na qual Pelé anotou três gols. A Albirroja voltou a vencer em 1963, mas em edição esvaziada do torneio continental, na qual os brasileiros não contaram com força máxima. O novo embate de grandes proporções aconteceu em 1979. Em um ano no qual o Olimpia também faturou seu primeiro título na Libertadores, os guaranis desbancaram a equipe de Cláudio Coutinho nas semifinais. A Seleção contava com um elenco que já começava a dar espaço a algumas lideranças que se consolidariam na Copa de 1982. Mesmo com Sócrates, Falcão e Éder do outro lado, os paraguaios triunfaram. Venceram por 2 a 1 em Assunção e arrancaram o empate por 2 a 2 no Maracanã, antes de conquistarem o título sobre o Chile. Em uma equipe jovem, destacavam-se nomes como Romerito e Gato Fernández, que também fariam carreira no futebol brasileiro.

Nas décadas seguintes, o Brasil costumou se dar melhor nos jogos decisivos contra o Paraguai na Copa América. Em 1983, após dois empates, a classificação brasileira nas semifinais veio no cara ou coroa – o regulamento da época não previa prorrogação ou pênaltis. A Canarinho também se deu melhor no quadrangular final de 1989, assim como eliminou a forte equipe paraguaia nas quartas de final de 1997. A Albirroja só voltou a vencer em 2004, pela fase de grupos, sem influenciar os rumos do time de Carlos Alberto Parreira no Peru. E que os empates tenham prevalecidos nas edições mais recentes, a competência dos guaranis é maior nos pênaltis. Já neste momento de tantas disparidades, o Brasil tem boas chances de se desengasgar com os oponentes. De deixar as lembranças amargas restritas ao passado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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