Copa América

Luis Díaz foi descoberto na Copa América dos Povos Indígenas e, seis anos depois, completou seu conto de fadas arrebentando no Brasil

Levado ao futebol profissional por Valderrama, Luis Díaz se coloca no pódio de melhores jogadores desta Copa América, ao lado de Neymar e Messi

A Copa América terminará com uma final em que Neymar e Lionel Messi concentram os holofotes, mas também viu outro bom jogador se colocar no pódio de craques pela maneira como brilhou ao longo do torneio. Luis Díaz fez miséria pela seleção colombiana, com jogadas incisivas, golaços e muito poder de decisão. Sua despedida do campeonato foi impecável, com dois tentos na decisão do terceiro lugar, incluindo uma pintura no último minuto para garantir a emocionante vitória sobre o Peru. O ponta se igualou a Messi na artilharia, com quatro gols, e parece despontar como uma referência dos Cafeteros em busca da Copa de 2022.

Luis Díaz, curiosamente, foi descoberto ainda adolescente numa Copa América. No entanto, numa Copa América dos Povos Indígenas, torneio realizado em 2015 no Chile depois da versão “tradicional” da competição. O lendário Carlos Valderrama era o treinador da Colômbia e convocou o meia, que tem raízes na etnia Wayuu. Mais do que isso, o velho craque deu a camisa 10 da seleção e a faixa de capitão para o talentoso jovem, então com 18 anos. Os Cafeteros acabaram com o vice-campeonato, derrotados na final pelo Paraguai, mas Díaz se daria bem com a oportunidade. Valderrama gostou tanto de seu futebol que o indicou ao Junior de Barranquilla, clube do qual foi ídolo. Assim, o novato ganhou sua primeira chance como profissional.

Luis Díaz não demorou a deslanchar. Ainda se juntou de início ao Barranquilla FC, filial do Junior, mas seu destaque valeu uma convocação à seleção sub-20 no Sul-Americano de 2017. Já sua estreia no time principal do Junior aconteceu em julho de 2017. O ponta viraria um dos principais talentos nos Tiburones, com um estilo de jogo habilidoso e agressivo. Logo acumularia títulos. Conquistou duas edições do Campeonato Colombiano e uma da Copa da Colômbia, além de ter sido vice-campeão da Copa Sul-Americana de 2018 como um dos principais destaques do torneio. O garoto expandiria fronteiras a partir de então.

A primeira convocação de Luis Díaz à seleção principal aconteceu em outubro de 2018. Seguiu nas listas seguintes, até ser convocado à Copa América de 2019. O meia permaneceu durante a maior parte do torneio como reserva, saindo do banco e vendo em campo a eliminação diante do Chile nas quartas de final. Ainda assim, a quem tinha disputado outra versão do torneio continental quarto anos antes, aquela chance já soava como um conto de fadas. E a mudança para a Europa ocorreu logo depois. Em julho de 2019, o Porto desembolsou €7 milhões para contratá-lo.

Logo em sua primeira temporada no Estádio do Dragão, Luis Díaz se sagrou campeão português. Não era titular absoluto, mas desfrutou de seus momentos de brilho na equipe de Sérgio Conceição. Já na última campanha, o Porto deixou o troféu escapar, mas o colombiano teve seu protagonismo no primeiro turno e também deu sua contribuição na ótima campanha pela Champions League. Valorizou-se e chegou em alta para defender a seleção neste mês de junho. Deixaria logo sua marca nas Eliminatórias, com um dos gols no triunfo sobre o Peru na visita a Lima.

A Copa América de Luis Díaz, de qualquer forma, excedeu as expectativas. O ponta nem era o jogador mais cotado da Colômbia. Não à toa, começou os primeiros jogos no banco. Tomou a posição contra o Brasil e mostrou como não deveria sair mais do time, com um golaço de voleio. A partir de então, só cresceu na competição. Não apareceria tanto diante do Uruguai nas quartas de final, mas infernizou a Argentina na semifinal e de novo marcou seu gol, num lance de inteligência. Atazanou os marcadores com seus dribles e sua velocidade, apareceu para concluir as jogadas, criou ocasiões aos seus companheiros. Nos pênaltis, entretanto, os Cafeteros sucumbiram.

Se a Colômbia não chegou à final, Luis Díaz ainda teve mais uma chance de mostrar futebol na decisão do terceiro lugar. E fecharia com chave de ouro sua participação na Copa América, dentro do Estádio Mané Garrincha – uma lenda do futebol que também tinha origens indígenas, com raízes entre os fulni-ôs. De novo o ponta cafetero causou calafrios nos adversários. Quase marcou outro golaço de voleio, num chutaço defendido por Ricardo Gallese. Depois, virou o placar num belo avanço, ao tirar o marcador com sua matada no peito e definir diante de Gallese. Por fim, no último lance, selou a vitória por 3 a 2 de forma magnífica. Escapou da marcação em velocidade e, naquele que deveria ser o último lance da partida, engatilhou uma pancada de fora da área que morreu no alto da meta.

Com 24 anos, a trajetória de Luis Díaz é das mais singulares no futebol. E o próprio Valderrama, que tem seu histórico em Copa América, deve ter se orgulhado do pupilo. O ponta chegará em alta para seguir conquistando seu espaço no Porto e para fazer seu nome no futebol europeu. Ainda assim, é na seleção que ganha o maior carinho. Num momento em que James Rodríguez parece sair de cena, os Cafeteros precisam de outros protagonistas. Juan Guillermo Cuadrado, Duván Zapata e Luis Muriel são os mais tarimbados para isso. Nesta Copa América, porém, foi Luis Díaz quem deu conta do recado e garantiu a ótima campanha colombiana.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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