Foi contra um forte Uruguai que a seleção peruana conquistou sua primeira grande glória, o Sul-Americano de 1939

Quando se fala sobre os grandes momentos da história da seleção peruana, o sucesso do país nos anos 1970 é menção óbvia. A geração de Teófilo Cubillas botou a Blanquirroja entre os melhores times do continente e garantiu o reconhecimento internacional. Foram três participações em Copas do Mundo, além do título da Copa América de 1975. Neste contexto, porém, muitas vezes a força dos peruanos na década de 1930 acaba esquecida. Foi neste período que a nação conquistou seu primeiro título no Campeonato Sul-Americano. Uma façanha que se tornou ainda mais grandiosa por se consumar contra estrelas do Uruguai.
A primeira aparição do Peru no Campeonato Sul-Americano aconteceu em 1927. Em uma edição esvaziada, que ocorreu dentro do próprio país, a Blanquirroja terminou em terceiro – atrás de Uruguai e Argentina, que fariam a decisão olímpica no ano seguinte. A próxima campanha notável veio em 1935. O novo terceiro lugar deixou a vaga olímpica no colo dos peruanos, diante da desistência de uruguaios e argentinos. Os sul-americanos eliminaram a Finlândia nas oitavas de final, antes de sofrerem um dos episódios mais controversos da história olímpica. Dentro da Alemanha nazista, o Peru superou a Áustria. Buscou o empate no tempo normal, após tomar dois gols dos austríacos, e venceu por 4 a 2 na prorrogação. No entanto, os oponentes acionaram os tribunais, reclamando do comportamento dos torcedores peruanos em Berlim e de ameaças dos jogadores. A organização do torneio remarcou o jogo, a defesa não foi ouvida e, como protesto, a delegação peruana deixou as Olimpíadas, confirmando a classificação austríaca.
Aquela geração do Peru, no entanto, ainda viveria o seu momento de redenção. O Campeonato Sul-Americano providenciou a oportunidade. A campanha em 1937 foi modesta. A Blanquirroja venceu o Paraguai e empatou com o Chile, além de fazer jogos duros com o “trio de ferro”, mas terminou na última colocação. Já em 1939, o país voltou a receber a competição continental, inteiramente organizada no Estádio Nacional de Lima. Brasil e Argentina desistiram da participação, o que enfraqueceu um pouco o torneio. Em compensação, o Uruguai estava presente e trazia um time com seus personagens históricos.
Treinados pelo lendário Alberto Supicci, a Celeste possuía remanescentes do título continental em 1935 e prepararia a geração que consumou a emblemática conquista em 1942. Aníbal Ciocca e Roberto Porta eram referências do Nacional pentacampeão uruguaio. Severino Varela foi ídolo do Peñarol e arrebentou no Boca Juniors. E se Ernesto Mascheroni era o único presente na Copa de 1930, um tal de Obdulio Varela despontava no banco, em sua primeira competição continental. Os uruguaios vinham com um time respeitabilíssimo, mesmo que renovado.
O Peru, por sua vez, mantinha boa parte do grupo que viajou a Berlim em 1936. A grande referência era Teodoro Fernández. Lolo é considerado o maior jogador peruano antes de Cubillas e viveu os grandes momentos de sua carreira no Universitario, sete vezes artilheiro do Campeonato Peruano. Chegou a receber propostas para atuar no exterior, mas preferiu permanecer no país. E, assim, tornava a Blanquirroja mais forte no Campeonato Sul-Americano. Presente em três edições, o craque anotou 15 gols, ainda hoje figurando como o terceiro maior artilheiro da história da competição. Seu melhor capítulo veio justamente em 1939.
Ao seu lado, Lolo tinha outros nomes lendários do futebol peruano. Os irmãos Teodoro e Jorge Alcade eram outras duas peças fundamentais, com o segundo chegando a ser ídolo do River Plate. Adelfo Magallanes e Juan Valdivieso aparecem entre os grandes do Alianza Lima. César Socarraz e Arturo Fernández brilharam no Colo-Colo. Já no banco de reservas, o treinador era o inglês Jack Greenwell, que chegou a ser campeão da Copa do Rei à frente de Barcelona e Espanyol, antes de desembarcar no Peru. Acumulava funções, comandando também o Universitario. E aproveitou os merengues como base da Blanquirroja.
O Peru não tomou conhecimento de seus adversários naquele Campeonato Sul-Americano, disputado em pontos corridos e turno único. Sob a estrela de Teodoro Fernández, arrebentou em seus três primeiros jogos. Goleou o Equador por 5 a 2, fez 3 a 1 no Chile, bateu o Paraguai por 3 a 0. Lolo havia anotado sete gols nestes primeiros compromissos, enquanto Jorge Alcade fez os outros quatro. O Uruguai, por sua vez, também venceu os seus três primeiros jogos e desfrutava da ótima fase de Severino Varela. A última rodada guardou o embate entre os dois favoritos. Em 12 de fevereiro de 1939, diante de 30 mil no Estádio Nacional de Lima, aconteceu a definição da taça.
Naturalmente, o jogador mais visado do Peru era Lolo Fernández. A defesa do Uruguai aplicou uma marcação cerrada sobre o craque adversário. No entanto, Jack Greenwell aproveitou a preocupação com o artilheiro para dar mais espaço a Jorge Alcade, outro talento inegável da Blanquirroja. Os peruanos exibiam enorme velocidade no ataque, para tentar quebrar a marcação celeste. E logo aos sete minutos aconteceu o primeiro gol, em uma cabeçada de Jorge Alcade. Aos 35, os anfitriões já anotavam o segundo, com Víctor Bielich. Por mais que os charruas tenham descontado antes do intervalo, com Roberto Porta, não conseguiram superar a defesa formada por Arturo Fernández e Raúl Chapell no segundo tempo. O triunfo por 2 a 1 provocou um carnaval em Lima, pelo feito grandioso e inédito dos andinos.
Parte da geração fantástica do Peru ainda disputou outras edições do Campeonato Sul-Americano no início da década de 1940, sem o mesmo sucesso. A próxima grande chance da Blanquirroja em recuperar a taça aconteceu em 1953. Novamente jogando em casa, o time precisava apenas de uma vitória sobre o Uruguai na rodada final, após o tropeço do Brasil contra o Paraguai. Pois os anfitriões perderam por 3 a 0 para o mistão celeste, em decepção enorme que abriu caminho à primeira conquista paraguaia no jogo-desempate ante os brasileiros. A ambição seria sanada apenas com o esquadrão de Cubillas, campeão em 1975. E que os peruanos tenham voltado a fazer boas campanhas nos últimos anos, outra vez brecados pelos uruguaios nas semifinais de 2011, a partida deste sábado é um bom momento para resgatar os antepassados.

