Copa América

Conmebol não deveria relativizar quem são os 140 infectados da Copa América, e sim assumir as responsabilidades além da testagem

Conforme dados da entidade, são 140 casos positivos dentro de um total de 15 mil exames desde o início do torneio

A Conmebol divulgou nesta segunda-feira um boletim informando o número de pessoas envolvidas na Copa América que testaram positivo para COVID-19. Segundo a entidade, são 140 casos positivos dentro de um total de 15.235 exames realizados desde o começo da competição. A transparência é importante e a testagem contínua, de fato, contribui para a segurança sanitária do torneio. Porém, também incomoda a maneira como a confederação relativiza quem são os infectados. No relatório, a Conmebol ressalta que a “maioria são funcionários e empregados terceirizados”, como se isso fosse um mérito. Não é.

É preciso considerar que os 15.235 exames não foram realizados em pessoas diferentes. Jogadores e membros da comissão técnica são testados continuamente, o que reduz o número de indivíduos no total. Assim, o 0,9% divulgado não significa que esta é a taxa de infecção dentro do torneio. A Conmebol, todavia, ressalta que a incidência está baixando em comparação com o balanço anterior. “Este é um claro sinal de que as medidas preventivas e os protocolos sanitários estão funcionando conforme o esperado”, afirma a confederação.

Dentro dessa transparência, é importante que a Conmebol também esclareça quais as medidas tomadas em relação a esses funcionários e empregados terceirizados. Qual o apoio oferecido pela entidade? Se estas pessoas são funcionários e empregados, significa que elas não podem cumprir o isolamento como os jogadores e membros da comissão técnica. Significa também que tendem a entrar em contato com a comunidade ao redor. São pessoas com menor poder aquisitivo e, provavelmente, menor acesso a recursos na recuperação. É importante saber qual a responsabilidade tomada pela Conmebol, seja financeira ou médica.

A testagem oferece um alto índice de detecção de infectados, num controle bem maior do que existe na população em geral. Ainda assim, se há pessoas infectadas envolvidas na realização da Copa América, a Conmebol também precisa esclarecer o que está sendo feito não apenas para mitigar os riscos, mas também para cuidar dos infectados. Há uma responsabilidade direta da entidade sobre o estado de saúde dessas pessoas e mesmo a consequência que isso pode trazer à sociedade ao redor, não apenas aos envolvidos no torneio.

A partir do momento em que força a realização da Copa América, a Conmebol precisa arcar com as consequências e divulgar também dados sobre a recuperação dos infectados. As autoridades brasileiras, além de ajudar no monitoramento, também precisam cobrar a confederação. Os reflexos desses casos podem ser mais amplos, ainda que representem uma fração à gravidade da situação sanitária em algumas cidades. Todas as vidas importam e, num momento em que se assume a realização de uma competição rejeitada por outros países, os cuidados precisam ir além das testagens.

Os surtos iniciais nas delegações durante o início da Copa América também são consequência das viagens realizadas por conta das Eliminatórias. Não parece coincidência que Venezuela e Bolívia tenham diversos casos positivos apenas dias depois do confronto pelo qualificatório. Além do mais, as próprias delegações indicam que não há um respeito total pelas regras, diante dos seguidos casos de indisciplina e descumprimento dos protocolos nas concentrações – como aconteceu com jogadores de Chile e Peru.

Percentualmente, o número de infectados parece baixo. Mas não é o fato de que os jogadores não estão se contagiando que exime os riscos inerentes ao evento no meio da pandemia. Se quiser ser mesmo transparente, a Conmebol precisa ser mais clara com seus dados, e não relativizar os afetados por uma organização que é de sua responsabilidade. Mais importante, precisa de ações efetivas.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo