Copa América

“Conhecer Pelé é como ter a Copa que não joguei”: Como foi o doce primeiro encontro de Pelé com um jovem Maradona

Em 1979, Maradona tinha 18 anos e realizou o sonho de conhecer Pelé, recebendo a ternura e os conselhos do Rei

Um dos principais elementos da rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol não se concentra ao redor de uma partida específica ou de um título conquistado. A motivação de tal rixa é atemporal, centrada por aquilo que se viu no campo ou se ouviu muito tempo depois, mas que nunca se confrontou de fato nas quatro linhas. “Quem é maior, Pelé ou Maradona?”. E dentro dessa simples pergunta há um mundo de sentimentos, um orgulho pelo seu, uma defesa da identidade. A primazia de contar com o melhor de todos os tempos moldou o clássico nas últimas décadas – ainda que o Rei tenha muitos súditos entre os argentinos, ainda que tantos brasileiros também venerem o Dios por aqui.

A relação entre Pelé e Maradona muitas vezes ganhou tom de provocação, especialmente pelas línguas afiadas de ambos e pelas personalidades totalmente distintas. Também contou com momentos sublimes, como a inesquecível tabelinha realizada entre os dois gênios numa visita do Rei ao programa apresentado por Diego na Argentina em 2005 ou as mensagens carinhosas mais frequentes nos últimos anos, antes da morte do argentino. E o primeiro encontro é de uma ternura imensa, entre uma sumidade no esporte e o prodígio que começava a despontar na seleção de seu país. Durante a década de 1970, Pelé e Maradona foram contemporâneos em campo por um brevíssimo período, entre a aposentadoria de um no New York Cosmos e a explosão de outro no Argentinos Juniors. Em abril de 1979, quando o brasileiro já tinha se despedido dos gramados e o argentino virava um xodó de todos os seus compatriotas, os dois se encontraram no Rio de Janeiro, para uma reportagem da revista El Gráfico.

“As mãos unidas são o resumo de tudo. Pelé deixou o violão e neste momento está dando conselhos a Diego. Ambos estão de mãos dadas. Trêmulas e emocionadas as de Diego; serenas e pacíficas as de Pelé. Vejo os olhos de Don Maradona [o pai de Diego] que assentem e choram, enquanto o Rei se despoja de sua coroa de dólares e se mostra tão humilde e sincero como poucas vezes pode parecer. Quanto tempo faz que esse homem não pode tirar um tempinho por dia para rir, cantar, relaxar, falar do que tem vontade? Sempre viajando (dentro de uma hora tomará um avião para Santos), sempre assinando documentos comerciais, audiências por divórcio, compras, vendas, filmes, gravações, reportagens, ir, vir. Nunca estar”, abria o texto de El Gráfico, assinado por Guillermo Blanco.

“É por isso que este amigo de Pelé que o observa atônito assegurará depois que nunca o viu assim, tão aberto e espontâneo, tão dado e feliz, tão Edson Arantes do Nascimento como saberá Deus em quantos anos fazia… Por isso essas mãos unidas são o resumo de tudo. Pelé fala com sua voz meio rouca de todas as manhãs e se esquece do presente para dar conselhos a Diego. E Diego não acredita que de verdade está ali, lado a lado, como sonhou por toda a sua vida e como vai sonhar depois quando ficará sozinho no Copacabana Palace para tirar uma soneca”, complementava.

“Quantas noites frias na Villa Fiorito terá passado Diego fazendo tabelas imaginárias com Pelé! Quantas vezes terá despertado de repente e disse: ‘Mas por que estou sonhando se nunca vou estar nem a cem metros de distância para pedir um autógrafo?’ Agora, Diego, você tem essa bola e essa camiseta da seleção brasileira que Pelé autografou faz cinco minutos. E tem uma medalha numa corrente que guardará durante toda a sua vida como um troféu de guerra. E levará a Lato ou Hugo, seus dois irmãos caçulas, o relógio que Pelé te dará durante essa conversa. Mas, além de tudo, estão essas mãos unidas às quais teremos que recorrer se quisermos descobrir a raiz. Pelé falando como se fosse seu pai, Pelé falando e vendo nele seu irmão. […] Pelé pensando em Pelé aos 18 anos…”, finalizava a abertura da matéria.

Pelé, aos 17 anos, conquistou sua primeira Copa do Mundo arrebentando na reta final da competição. Maradona, aos 17 anos, havia sido uma omissão sentida na lista de César Luis Menotti para a Copa de 1978 e chorou por sua ausência. Naquele momento, o projeto de craque elevava o Argentinos Juniors a patamares inéditos e também se preparava para destruir os adversários no Mundial Sub-20 de 1979. Conhecer Pelé era se encontrar com o ídolo que espelhava tudo aquilo que sonhava. E certamente o Rei se reconheceu no brilho dos olhos do menino Diego, que se apontava desde já como seu principal herdeiro.

Maradona, Pelé, Don Diego e Jorge Cyterszpiler (Foto: El Gráfico)

O primeiro encontro entre Pelé e Maradona no mesmo espaço havia acontecido seis anos antes, à distância, entre o craque em campo e o pibe nas arquibancadas. Diego tinha acabado de completar 13 anos quando o Santos enfrentou o Huracán num amistoso disputado no Estádio El Palacio, em dezembro de 1973. Mais de 35 mil pessoas lotaram as arquibancadas. O Globo contava com uma equipe fortíssima, que conquistou o Campeonato Argentino e reunia nomes como René Houseman, Miguel Brindisi, Omar Larrosa e Carlos Babington, todos sob as ordens de César Luis Menotti, que depois rumaria à seleção. O Peixe dirigido por Pepe tinha Carlos Alberto Torres, Marinho Peres, Agustín Cejas, Edu, Nenê e outras feras. Tinha Pelé, que marcou um golaço encobrindo o goleiro e estrelou a goleada por 4 a 0, que marcou sua última aparição nos gramados argentinos.

Maradona ficou com aquele dia nas lembranças. Durante o Sul-Americano Sub-20 de 1979, elogiou Pelé em uma entrevista e disse publicamente que um de seus sonhos era se encontrar com o Rei. Não era simples cruzar as agendas entre o camisa 10 do Argentinos Juniors e o camisa 10 recém-aposentado, muito por conta dos diversos compromissos de Pelé entre o Brasil e os Estados Unidos. Três meses depois, o histórico momento (cuja grandeza só seria mesmo reconhecida dentro de alguns anos) ocorreu num prédio de Copacabana, no apartamento de um amigo do Rei. Maradona estava acompanhado por Don Diego, seu pai, e por Jorge Cyterszpiler, o amigo de toda a vida que também era seu representante.

O curioso é que tudo precisou ser feito às pressas para dar certo. Maradona jogou pelo Argentinos Juniors num domingo e saiu direto para o aeroporto de Ezeiza, onde pegaria o voo que partia apenas 45 minutos depois do apito final contra o Huracán. Todo o esforço do adolescente, porém, valeria a pena para ver o Rei. Um carro já o esperava na saída do estádio para acelerar até o embarque.

Na época, o treinador do Argentinos Juniors era Delém, companheiro de Pelé no ataque da Seleção durante alguns amistosos em 1960. Segundo a reportagem da El Gráfico, quando Maradona contou que se encontraria com o Rei, os olhos do veterano marejaram. Depois, o presidente do Bicho Colorado ainda questionou o garoto, perguntando quem havia dado permissão para que rumasse ao Brasil. O camisa 10 o driblou habilmente, justificando que naquela semana se apresentaria à seleção e, como já tinha sido liberado pelo clube, conseguiu a afirmativa com Menotti para ir ao Rio. O técnico da Argentina, admirador confesso de Pelé e seu antigo companheiro no Santos, também compreendia o significado daquela viagem.

Dentro do avião, Maradona contava como sequer estava inteiro para aquela viagem, depois das pancadas que tomou contra o Huracán. As dores, entretanto, eram o de menos: “É um dos maiores desejos da minha vida. Eu vou me conformar com o tempo que ele me der, não sei se cinco ou dez minutos. Sei que ele é um homem muito ocupado, com mil problemas e talvez nem nos receba, mas creio que valeu o esforço para viajar. Estou todo dolorido, te juro. Tenho um vergão impressionante por aquele pontapé de Babington no primeiro tempo. Depois corria com muita dificuldade. Até disse a Delém que não dava mais, mas não me deixou sair. O ombro também me dói. Vou ver se posso dormir um pouco e, quando chegarmos ao hotel, botarei um gelo na perna”.

Na segunda de manhã, em Copacabana, os minutos de encontro valeram ouro. “Pelé o receberia de braços abertos, sorriso largo, sinceridade à flor da pele”, descreveria a revista. Naquele momento, Maradona conduzia o Argentinos Juniors na liderança do Campeonato Argentino. Pelé ouvia atentamente Diego falar sobre suas façanhas na liga nacional e prometia que, se o Bicho Colorado chegasse às finais do torneio, ele mesmo estaria presente nas arquibancadas. Infelizmente, não aconteceu. O que é fato concreto são as gentilezas trocadas e a postura fantástica do Rei, ao acolher aquele ilustre fã como seu aprendiz. Soltou-se até mesmo com o violão nas mãos, tocando alguns acordes enquanto posava às fotos ao lado do novato.

Pelé e Maradona (Foto: El Gráfico)

Pelé deu diversos presentes a Maradona, inclusive alguns pertences seus. O veterano tirou o relógio de ouro do próprio pulso e entregou ao garoto, para que oferecesse a um de seus irmãos mais novos. Depois, tirou a corrente que trazia no pescoço e também presenteou o argentino, contando que ela tinha sido feita para o jogo de despedida no Cosmos. “Muito obrigado, vou usá-la durante toda a minha vida. Vi sua partida de sexta na televisão e juro que me emocionei muito, aumentou minha vontade de te ver”, contaria um radiante Diego. Dias antes, o Rei havia entrado em campo para 170 mil pessoas no Maracanã, jogando pelo Flamengo num amistoso beneficente para ajudar as vítimas das enchentes em Minas Gerais.

O maior presente de Pelé a Maradona, ainda assim, não era material. Foram os seus conselhos ao adolescente: “Nunca dê ouvidos quando eles dizem que você é o melhor. Você deve sempre pensar que não é o melhor. No dia em que você se sentir o melhor, deixará de ser para sempre. Aceite os aplausos, mas não viva de aplausos. Eu, aos 18 anos, fui vaiado muitas vezes. A torcida, quando você joga três partidas ruins, já grita e para de te amar. Também quero dizer algo a respeito dos contratos. Cada jogador tem seu próprio problema. É uma questão muito pessoal, mas sempre tenha em conta que deve lutar por aquilo que realmente vale. Faça-se sempre respeitado, nunca se entregue. Mas, depois de assinar, não proteste e nem peça mais. A assinatura é como uma palavra”.

“A respeito da venda ao exterior que se fala na Argentina, você precisa decidir depois de analisar muito bem. Você me disse que tem oito irmãos, seu mãe e seu pai. Na hora de decidir, ponha isso na balança. Os dirigentes dos clubes mudam a cada dois ou três anos. Você precisa pensar na sua família, porque há muitas bocas para alimentar. O físico é sua ferramenta de trabalho. Pelo que vejo, você tem um ótimo físico. Cuide dele. Na vida, há tempo para tudo, inclusive sendo jogador. Há tempo para sair, tomar uma cerveja, fumar um cigarro, deitar tarde, comer uma boa comida. Mas faça com equilíbrio. Faça sempre o que não prejudique seu físico, porque senão tudo acaba”, complementaria.

Durante a despedida, Pelé pediu ao pai, Don Diego, que “cuidasse do seu menino” e expressou um tocante desejo: “Bem, Diego, que Deus te dê toda a sorte que ele me deu, porque nunca tive uma grande lesão”. Maradona agradeceu, entre a timidez e o encantamento. E depois, mais solto, contaria à reportagem:

“Eu sabia que ele era um deus como jogador, agora sei que também é como pessoa. Ele não é Pelé à toa. Quantos meninos como eu queriam vê-lo, tocá-lo, trocar um par de palavras, e eu tive o privilégio de que até tenha me dado conselhos. Eu vi que Pelé vinha em minha direção e não podia acreditar. Nós estávamos o esperando e foi ele que veio, deu um abraço em mim e outro no meu pai, chamava meu velho de papai. Enquanto falávamos, senti como se estivesse me mimando. Eu peguei a sua mão e ficava abobado. Eu tinha pedido duas coisas ao Cristo Redentor na noite anterior, quando chegamos, mas não vou dizer. Vi como chorava meu pai quando ele me dava conselhos. Conhecer Pelé é como ter a Copa do Mundo que não joguei. Nem mais e nem menos. Agora quero contar a todos. A Delém, a meus companheiros de Argentinos Juniors e de Seleção, a todo mundo”, afirmou um deslumbrado Maradona. Diego teria sua Copa, teria uma história tão grande quanto a de Pelé. E, por suas palavras, aqueles minutos de sonho em Copacabana dariam uma motivação extra para ser tudo o que depois ele se tornou.

O texto original da revista El Gráfico está disponível neste link

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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