Copa América 2024

‘James é vítima da ditadura tática que liquida a arte do futebol’, analisa escritor

Jornalista português fala sobre a seleção finalista da Copa América e seu livro "Plata y Plomo", uma homenagem ao futebol colombiano

Suave e equilibrada, como o bom e famoso café local, a seleção colombiana fez o que não conseguiram favoritos como Brasil e Uruguai e está na final da Copa América 2024. Na grande decisão, enfrenta a Argentina no próximo domingo (14), às 21h (horário de Brasília).

Por si só, a partida é um marco para o futebol do país. Esta será apenas a terceira final continental da Colômbia, que tem um título conquistado em 2001.

Perdida para a seleção peruana, a outra decisão disputada foi em 1975, na primeira edição do torneio sob a alcunha de Copa América – até então, a competição era chamada de Campeonato Sul-americano.

— Os colombianos estão preparados para vencer, mas penso que mesmo perdendo vão sentir que esta Copa América deu indicações fortíssimas e positivas para o futuro — analisa o português Pedro Cadima, autor do livro “Plata y Plomo”, recém-lançado no Brasil pela editora “Corner”.

— E dentro das especificidades da Colômbia, temos a questão de James, o gênio incompreendido em quase todo o lado nos mais recentes anos de carreira, em diferentes realidades, que vê o talento ser abrigado com perfeição na seleção. Estamos vendo o James do Porto, do Monaco, da melhor fase Real Madrid e do grande mundial que já fez pela Colômbia (em 2014) — continua o jornalista:

— Noutro país, noutro contexto, poderia já não haver essa paciência para soltar James, vítima de ditaduras táticas, da exigência sufocante do compromisso defensivo, do futebol moderno que roubou a magia do 10 e praticamente liquidou a arte do futebol, que agora é de régua e esquadro.

Foto: (IconSport) - James Rodríguez, da Colômbia
James Rodríguez foi o cara da Colômbia na goleada sobre o Panamá pela Copa América (Foto: IconSport)

Apesar de marcante, a atual geração da seleção colombiana não é a que mais faz brilhar os olhos de Cadima. Para ele, era ainda mais prazerosa a junção de figuras Higuita, Valderrama, Asprilla, Rincón ou o pensador Maturana.

— O futebol hoje não tem tantas histórias de vestiário como nos anos 1980 e 1990.

“Plata y Plomo”, o que o autor descreve como uma grande homenagem ao futebol colombiano, é o primeiro livro do jornalista de 43 anos que escreve para o jornal “O JOGO” e trabalhou por cerca de 20 anos na redação do “A BOLA”- dois dos principais jornais de Portugal.

Para a sua primeira obra, que pode ser encomendada no site da Corner, foram mais de 200 entrevistas “para ajudar a definir épocas e grandes estrelas passaram pela Colômbia”, explica o autor. Em muitas das 418 páginas, há espaço para brasileiros que marcaram o futebol no país.

Cadima cita, por exemplo, um Garrincha melancólico em meio à paixão por Elza Soares, além do boêmio e mulherengo Heleno de Freitas, já decadente em Barranquilla.

Confira a entrevista:

Como um jornalista português escolheu a Colômbia como tema para seu primeiro livro? De onde vem a paixão pelo futebol colombiano?

Bem, acho que vai dentro das singularidades que tenho. Estou sempre fugindo do que é próximo e das paixões previsíveis. Em quase tudo. Música, cinema e futebol. Na Colômbia somou-se o fascínio pelas estrelas dos anos 1990. A seleção me traz muitas memórias nos mundiais de 1990 e 1994, ainda que fosse criança.

Mas na adolescência, tive forte paixão pela campanha do Atlético Nacional que resulta na conquista da Libertadores de 1989. Acho que tudo foi fruto de querer saber mais de Higuita e Maturana, por exemplo. E como várias vezes tinha escrito sobre o assunto e colecionava muitos contatos, as incertezas da pandemia e o trabalho mais tempo de casa me levaram escrever sobre o futebol colombiano.

nacional campeao libertadores 1989
A equipe do Nacional de Medellín campeã da Libertadores de 1989 (Foto: Conmebol)

Puro gosto pelo tema e adrenalina na escrita, também muita música colombiana na cabeça, tentando sempre imaginar uma trilha sonora para o livro, na busca de um trabalho que fosse o mais completo e revelador.

O que, pela sua pesquisa, diferencia a relação entre colombianos e o futebol do que é visto em outras partes do mundo?

Bem, acho que na Colômbia há um folclore imenso, há um colorido diferente que vem do ritmo, das fusões culturais, da música, das expressões distintas de várias regiões.

Historicamente há uma energia radiosa que faz a Colômbia ser mais destemida, fiel à sua essência. Os jogadores colombianos encarnam o prazer pelo jogo e vivem o risco. Era assim com nitidez na era dos anos 1990, com o futebol moderno de hoje esse caldo de emoções esfriou um pouco.

Carnaval de Negros y Blancos
Carnaval de Negros y Blancos, festa tradicional da Colômbia (Foto: Embaixada colombiana)

Penso que povo é apaixonado pela bola de uma maneira mais leve, há talvez uma proximidade com o espírito africano, fazer a festa, cantar, abrilhantar o espetáculo dentro das suas raízes. Poderá isso distinguir um pouco do Brasil, da Argentina, talvez do Uruguai, onde há paixão misturada com mais nervo e mais tensão, maior julgamento e maior pressão sobre quem está no campo.

A Colômbia está na final da Copa América. O que você acha que isso representa para o futebol e para o povo colombiano?

Representa algo, sobretudo, muito bonito, e também necessário pelo tema de anos mais difíceis tanto na dimensão social como na perda de alguma esperança com a sua seleção. O trabalho de Nestor Lorenzo reabilitou essa paixão pela seleção com uma identidade forte e um reencontro com o legado de Pekerman, no qual havia um grande espírito à volta de Los Cafeteros (apelido da seleção colombiana).

A Colômbia já deu uma satisfação enorme a todos com esta final, a derrota será sempre uma frustração, mas penso que esta seleção já devolveu maior unidade, alegria e esperança independentemente do resultado. Mas há uma energia muito forte patente nesta Colômbia, a qualidade de jogo é alta, a coesão absoluta com muitas provas de superação já dadas — completa.

Caso vença a Copa América, o que seria apenas o segundo título colombiano na história da competição, essa geração mereceria um capítulo próprio em um eventual “Volume II” do seu livro? 

Mereceria uma grande reportagem, sendo que o livro Plata y Plomo começou por ser pensado como uma grande reportagem. Uma vitória colombiana nesta Copa seria certamente desafiante para escrever, para ir buscar a alegria dos antigos craques com o feito e aproximar o sucesso de diferentes gerações.

Acho que não daria o livro, porque mesmo torcendo pela Colômbia em qualquer circunstância, era mais prazerosa a junção de figuras como Higuita, Valderrama, Asprilla, Rincón ou o pensador Maturana. O futebol hoje não tem tanta história de vestiário, portanto faltariam ganchos, personagens e loucuras.

Como se deu a escolha pelo Brasil como berço do lançamento de seu livro? O que te trouxe ao mercado brasileiro e à editora Corner?

A escolha deu-se com naturalidade, desde a primeira hora fiquei com a versão em português nas mãos, também tratei da versão espanhola para tentar editar pela Colômbia, o que não aconteceu até agora. Fazia sentido o Brasil, porque em Portugal o livro não teria qualquer proximidade com o público. No Brasil há a sintonia mais geográfica e cultural com a Colômbia, ao mesmo tempo que temos a questão da língua e das pontes naturais entre Portugal e Brasil no mercado editorial.

Você aborda personagens como Garrincha e Heleno de Freitas em seu livro. Qual é a relevância desses personagens para a história? Quão grande é o espaço que “Plata y Plomo” dedica aos brasileiros?

O livro vive muito de capítulos dedicados aos grandes jogadores que atuaram na Colômbia, mesmo que tivessem chegados decadentes salvos por um cartaz de feitos nas costas.

E, nesse sentido, ter no livro a força de testemunhos sobre o que foi Garrincha no Junior Barranquilla, inclusive com depoimento de colegas e rivais de uma passagem marcada por um só jogo. Dissecar também o que foi Heleno de Freitas, que enlouqueceu Gabriel Garcia Marquez com a sua presença no Júnior, eram aspectos que podiam funcionar de chamariz ao brasileiro.

Wilson  /  Garrincha
Campeão pelo Brasil em 1962, Garrincha (esq.) atuou em um jogo pelo Junior Barranquilla em 1968 (Foto: IconSport)

 

Paulo César Caju é entrevistado e fala também bastante do contexto da sua passagem pela Colômbia com o seu pai adotivo. Há vários elementos que se aproximam do Brasil e seguramente devo ter cerca de duas dezenas de entrevistados brasileiros, até aqueles que jogaram com Rincón no Brasil.

Garrincha e Heleno estarão seguramente entre os 10 jogadores mais tributados no livro com muito detalhe. Uma lista na qual posso juntar de memória Carrizzo, Sekularac, Pedernera, Corbatta, Charro Moreno, Juan Gilberto Funes e, claro, os colombianos que nos encantaram anos 1990. Nunca esquecendo a importância de um que partiu muito cedo: Andrés Escobar. E ainda técnicos como Ochoa Uribe, Osvaldo Zubeldia ou Maturana.

Por que os brasileiros deveriam ler “Plata y Plomo?”

Pelas histórias, pelos personagens, por muitos capítulos que vão aproximar o brasileiro de algumas figuras históricas, de momentos especiais. É um livro que tenta ao máximo ser completo, dar voz a quem viveu com os ditos craques ou gênios loucos, ou decadentes. Ajuda a perceber a dimensão desportiva ou social desses elos fortes que no seu momento catapultaram o futebol colombiano.

Plata y Plomo livro

Depois há muito envolvimento com campanhas da Copa América, ou há histórias que vão sempre cruzar colombianos com argentinos e brasileiros. É um livro sobre futebol, mas com muita voz de quem o viveu, de quem se cruzou com Garrincha ou Carrizzo e tantos outros, de quem mesmo jogou ainda o campeonato colombiano na fase do El Dorado, início dos anos 1950.

Consegui entrevistar Kaor Doku, colombiano de raízes japonesas, que tinha jogado o El Dorado, quando estava Di Stefano na Colômbia, no Millonarios. Com a ajuda do filho, ainda consegui falar com ele, que a época, estava perto dos 95 anos (faleceu posteriormente). Percebem-se muitos excessos, caos, fitas trágicas, mas também há melancolia, tango, outros ritmos, e um festim de histórias desconcertantes e muitas vidas que fugiram do controle.

Foto de João Vítor Castanheira

João Vítor CastanheiraCoordenador de conteúdo

Coordenador da Trivela desde maio de 2024. Nas categorias de base do Lance!, cobri futebol internacional, nacional e esportes olímpicos. Passei pelo Grupo Globo como editor de conteúdo - fiz parte dos programas Globo Esporte, Jornal da Globo e Esporte Espetacular. Jornalista pela UFRJ e ex-goleiro da Associação Atlética de Comunicação e Artes com orgulho. De Uberaba-MG, radicado no Rio Janeiro, em São Paulo.

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