Copa América

Clarões nas arquibancadas são a imagem que a Conmebol merece pela trágica decisão de fazer final única

Mais uma vez, a decisão da Copa Sul-Americana foi um fiasco de público e não chegou nem perto de lotar o estádio Mario Kempes

O público oficial da final da Copa Sul-Americana entre São Paulo e Independiente Del Valle ainda não foi confirmado pela Conmebol, mas as estimativas prévias mal chegavam a 15 mil pessoas e imagens de fato mostraram enormes clarões nas arquibancadas do estádio Mario Kempes, com capacidade para 57 mil. Como em Montevidéu ano passado. O esforço, o amor e o sacrifício de muitos são-paulinos não foram suficientes para superar os obstáculos impostos pela trágica decisão de mudar o formato das partidas mais importantes do continente. Se lotar os estádios na final da Libertadores (ainda) não foi um problema, na Copa Sul-Americana está sendo. Bastante.

O torneio secundário da América do Sul, por definição, tem chances maiores de ser decidido por clubes com torcidas modestas. Não é o caso do São Paulo, mas é do Del Valle, que não atrai multidões nem quando transfere seus jogos de Sangolquí para a capital Quito, que fica a mais de 5.000 kms de Córdoba, onde o duelo deste sábado foi disputado. O clube equatoriano devolveu quase todos os ingressos – entre US$ 57 e US$ 130 dólares, o que também ajudou a afugentar o público local – que recebeu para vender aos seus torcedores, o que deveria ser um sinal vermelho de alerta para a Conmebol: um dos envolvidos na decisão simplesmente falou que não enviaria torcedores.

A decisão de realizar as finais da Sul-Americana e da Libertadores em jogo único e campo neutro sempre pareceu péssima. Impressiona a rapidez com que essa análise está se provando correta. Na Libertadores, a Conmebol teve a sorte de que seus dois grandes eventos com portões abertos (e o próximo também) foram disputados pelo Flamengo, que carrega sua massa de apaixonados para todo lugar, e clubes enormes como River Plate e Palmeiras. A decisão de 2020, com arquibancadas vazias por causa da pandemia, foi realizada no Maracanã, entre dois times brasileiros. Provavelmente lotaria também.

A exceção na Copa Sul-Americana foi a primeira decisão em jogo único, em 2019, também com o Independiente Del Valle. Mas, novamente, por sorte porque Assunção não fica tão longe de Santa Fé, onde mora o Colón, e os torcedores argentinos organizaram uma invasão. As arquibancadas, porém, não ficaram cheias em 2021, mesmo Montevidéu não sendo inacessível aos curitibanos que torcem pelo Athletico Paranaense. Em Córdoba, nem a presença de um gigante como o São Paulo foi o bastante para evitar tristes imagens de um jogo valendo taça diante de poucas pessoas.

Isso é um problema para a Conmebol, mas não pelo motivo que deveria ser. A final única foi motivada por interesses comerciais e financeiros, legítimos até porque a Libertadores principalmente tem um histórico de ser sub-valorizada. Claro que o ideal era encontrar maneiras que não atentam contra a alma do futebol sul-americano para aumentar a arrecadação com direitos de televisão e patrocinadores. É a isso que a final única serve e, se as métricas de audiência estiveram altas, não deve haver mudanças radicais.

Mas o futebol como produto de televisão, o que ele está cada vez mais se tornando em detrimento do cimento das arquibancadas, não é tão bom em estádios vazios, como infelizmente descobrimos durante a crise da Covid-19. Poucos torcedores ainda fazem barulho, mas a festa das torcidas é um dos atrativos e, no caso do futebol sul-americano, o seu principal diferencial. Sabe-se lá como a Conmebol chegou à conclusão de que deveria dificultar o máximo possível aquilo que deveria entender como o seu maior trunfo.

Ela está ciente do problema porque estava preocupada (com razão) com a baixa venda de ingressos para o jogo do São Paulo e até a decisão da Libertadores está decepcionando. Segundo o jornalista Rodrigo Mattos, do UOL, os flamenguistas compraram apenas pouco mais da metade dos 11 mil ingressos disponíveis para a partida em Guayaquil, e isso porque a Conmebol baixou o preço. Acontece que ela não tem jurisdição sobre passagens de avião, nem sobre a rede hoteleira da cidade, com menos leitos do que a quantidade de bilhetes colocados à venda.

Os problemas logísticos da América do Sul, com desafios geográficos, financeiros e estruturais para quem quiser embarcar na aventura de acompanhar o seu time em uma final única, sempre foram os principais argumentos contra imitar a Europa, geralmente com distâncias menores e malha ferroviária. A missão de chegar a Guayaquil está se provando uma das mais difíceis e pode fazer a Conmebol concentrar os jogos em cidades maiores e/ou capitais daqui para a frente.

Ou simplesmente desencanar da América do Sul. Se a ideia é fazer um bom produto de televisão, tanto faz onde as finais da Sul-Americana e da Libertadores são disputadas. Talvez o apelo com o público local, sem falar em brasileiros que moram no exterior, seja maior em cidades como Miami, Paris ou Madri, para onde o Superclássico de 2018 foi emergencialmente transferido, do que em Córdoba, onde os moradores não se animaram com a partida. E se (quando) isso acontecer, teremos uma Libertadores irremediavelmente irreconhecível, inacessível e estranha para quem mais a ama.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
Botão Voltar ao topo