Copa América

A punição da Conmebol contra Tite por criticar a entidade é mais uma censura deplorável ao que é óbvio

Tite falou que organização da Copa América é "atabalhoada" por mudança de regulamento e recebeu multa por isso

A Conmebol já tinha punido Marcelo Moreno nesta Copa América por criticar a entidade, depois que o boliviano questionou a falta de cuidado com a saúde dos atletas e dos trabalhadores envolvidos no torneio em meio à pandemia. Nesta quinta, o técnico Tite seria outro alvo da censura descabida da confederação continental, apenas por registrar o óbvio diante dos microfones. O comandante da Seleção falou algo evidente: que a Copa América foi organizada de maneira “atabalhoada”, ao comentar a mudança do regulamento às portas da competição para que jogadores infectados pudessem ser substituídos em seus elencos. Por conta disso, a CBF pagará US$5 mil e o técnico corre o risco de ser suspenso em caso de reincidência. Já não se pode constatar os claros problemas da confederação num campeonato feito às pressas e cobrar por melhorias.

Os comentários de Tite aconteceram na véspera da estreia contra a Venezuela, que passou por um surto de COVID-19 e precisou realizar uma série de substituições no elenco para ter uma equipe antes da competição. O treinador afirmou: “Quando um campeonato é feito de forma atabalhoada, rápida, está sujeito a essa situação. E vai modificar de novo. Independentemente em que país fosse”. Tite ainda salientou: “É uma crítica direta à Conmebol e a quem decidiu, dentro da CBF, ser a Copa América aqui”.

As declarações de Tite aconteceram quatro dias depois do manifesto publicado pela Seleção, que reiterou seu compromisso de disputar a Copa América, depois dos rumores sobre um boicote. Na véspera da estreia, o treinador deixou mais clara sua insatisfação com o torneio – mesmo afastando motivações políticas nisso. Garantiu que a comissão técnica e os atletas preferiam que o Brasil não sediasse a Copa América “por todo o envolvido”, bem como indicou que internamente ficaram insatisfeitos pela forma como foram “expostos”. Porém, independentemente disso, os membros da equipe reiteraram o compromisso com a instituição. “Somos contrários à organização da Copa América, mas não tem bengala, não tem muleta: vamos jogar e seremos cobrados por performance”, apontou.

O que Tite falou sobre a Conmebol e sobre os problemas na organização é o óbvio ululante. Com a mudança de sede após as desistências de Colômbia e Argentina, era natural que problemas acontecessem. O próprio estado péssimo dos gramados, algo repetido por diferentes treinadores e jogadores ao longo da última semana, indica a falta de uma preparação adequada. E a mudança repentina no regulamento, algo absurdo no meio esportivo, corresponde ao risco tomado pela organização ao levar em frente o torneio durante a pandemia, depois de duas rodadas pelas Eliminatórias em que os elencos transitaram por diferentes países. Porém, a cobrança mais que pertinente do treinador seria vista como atitude passível de punição pela confederação.

Tite seria enquadrado num artigo que fala sobre “insultar de qualquer maneira e por qualquer meio a Conmebol, seus oficiais, autoridades, etc” e “comportar-se de maneira tal que o futebol como esporte em geral e a Conmebol em particular poderiam ver-se desacreditados como consequência desse comportamento”. O artigo ainda considera outras infrações, como “comportar-se de maneira ofensiva, insultante ou manifestações difamatórias de qualquer índole” e “utilizar um evento desportivo para realizar manifestações de caráter não-esportivo”.

O tal “atabalhoada” custaria US$5 mil a Tite, que serão descontados da premiação do Brasil nesta Copa América. O dinheiro é pouco a duas entidades tão gananciosas, mas indica o autoritarismo ao redor da questão. A Conmebol parece não perceber que suas próprias atitudes a “desacreditam”, não apenas pelas decisões na organização geral do torneio, como também na própria censura a jogadores e treinadores. O que Tite falou, nem de longe, deveria ser considerado como “insulto”. Além do mais, registrar algo tão evidente não é uma “manifestação difamatória”, muito pelo contrário – as atitudes “difamam” a confederação. E tudo soa mais irônico quando a própria Conmebol tenta isolar o “evento desportivo” de uma situação “não-esportiva” cuja relação é inerente pela própria escolha de realizar a Copa América a qualquer custo em meio à pandemia.

A CBF sequer poderá recorrer da decisão, assim como Tite fica ameaçado de punições mais severas em caso de reincidência. E é isso que mais preocupa, com essas multas limitando as manifestações vindouras de atletas e treinadores. “Em caso de reiteração de qualquer infração à disciplina esportiva de igual ou similar natureza que ocasionou o presente procedimento, será aplicado o disposto no Art. 31 do Código Disciplinar da Conmebol e as consequências que do mesmo possam advir”, escreveu Eduardo Gross Brown, presidente da Comissão Disciplinar. Se os arroubos ditatoriais são tão constantes entre dirigentes de futebol, a Conmebol prefere impor um “cala boca” desmedido em seu meio, quando todo mundo vê o que acontece. Com tais punições, só mostra como as críticas são pertinentes e como as péssimas decisões são repetidas nos corredores da entidade.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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