Copa América

A decisão da Conmebol em punir Marcelo Moreno por seu protesto diz muito mais sobre a própria entidade

Marcelo Moreno postou uma mensagem questionando a postura da Conmebol sobre a pandemia, mas acabou suspenso e multado

Na última sexta-feira, a Conmebol anunciou a suspensão de Marcelo Moreno na Copa América por um jogo. O motivo do gancho? Criticar a confederação continental por sua postura na realização da competição em meio à pandemia. Moreno se ausentou nas duas primeiras partidas da seleção boliviana, segundo a imprensa local por ser um dos atletas infectados com a COVID-19. Por conta disso, postou uma mensagem nas redes sociais atacando a Conmebol. A resposta da entidade foi dar um “cala a boca” no atacante, suspendendo-o por um jogo e ainda aplicando uma multa de US$20 mil.

Na postagem, Marcelo Moreno repercutia uma reportagem que apontava que 52 pessoas na Copa América tinham sido contaminadas por COVID-19. Os números oficiais subiram para 65, entre jogadores e membros das comissões técnicas. “Obrigado a vocês da Conmebol por isso. Toda a culpa é totalmente de vocês! Se morre uma pessoa, o que vocês vão fazer? O que importa é somente o dinheiro. A vida do jogador não vale nada?”, escreveu o atacante. Apesar do tom agressivo da mensagem, não chegou a publicar nenhuma palavra ofensiva. A Conmebol, porém, não gostou de ser questionada.

Vale lembrar que, antes da realização da Copa América, as seleções já tinham sido submetidas às viagens das Eliminatórias. Venezuela e Bolívia, que enfrentam os principais surtos nesse início de competição, jogaram contra si pelo qualificatório. Os surtos geram um questionamento mais que pertinente sobre a efetividade dos protocolos e sobre a insistência em realizar as competições internacionais enquanto a América do Sul apresenta números alarmantes de contágios da doença. A decisão de trazer a Copa América para o Brasil, especialmente após a desistência da Argentina por razões sanitárias, naturalmente provoca indagações – e ainda mais numa edição do torneio que sempre pareceu supérflua. Mas, aparentemente, a entidade responsável pela organização não gosta de ser confrontada.

Marcelo Moreno foi o atleta que fez o posicionamento mais incisivo quanto à realização da Copa América, ainda que outros jogadores e treinadores tenham expressado sua insatisfação. Tal postura da Conmebol tenta inibir uma manifestação que é pertinente e diz muito sobre a entidade, que parece mais interessada em silenciar as pessoas do que criar protocolos seguros. Resta saber se Marcelo Moreno precisará se recuperar da COVID-19 para cumprir a suspensão ou se os jogos de ausência pela doença, já provocados pelas brechas no protocolo traçado pela Conmebol, serão suficientes à entidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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