Copa América

A Copa América se encerra amarga ao Brasil, sobretudo após a fraca final, mas as lições que ficam precisam ser importantes

Seleção oscilou demais no torneio, apesar das ótimas apresentações de Neymar, e deverá trabalhar para melhorar

A Copa América termina indigesta para a seleção brasileira de duas maneiras: num sentido histórico e num sentido prático. Obviamente, perder a competição da forma como aconteceu é amargo. O Brasil nunca tinha sucumbido em uma edição dentro de casa. Caiu no Maracanã, para uma Argentina que era freguesa há décadas no torneio e que sustentava seu próprio jejum. Porém, ainda pior foi a maneira como a Seleção atuou nesta decisão. Criou pouquíssimo, caiu na pilha, teve dificuldades de se centrar no jogo. Muitas vezes, não pareceu ter um padrão além de entregar a bola para seu melhor jogador. E sai com uma impressão de involução, até comparando com o que ocorreu em 2019.

O ponto alto do trabalho de Tite à frente da Seleção aconteceu na caminhada até a Copa do Mundo de 2018. Ali, se notava uma das melhores versões da Seleção nas últimas décadas. Era uma equipe com uma coleção de recursos, coletivamente muito bem encaixada, que fazia jogos em alta intensidade e entregava resultados. Nome por nome, nem parecia uma equipe tão inferior à atual. Mas tinha peças específicas que encaixavam as demais e jogadores bem mais experientes. A renovação de ares depois da segunda passagem de Dunga, além do mais, era um motivador em si.

A campanha do Brasil na Copa de 2018 teve seus momentos de instabilidade, mas não foi ruim. O Brasil correspondeu, ganhou jogos difíceis e até deu um pouco de azar contra a Bélgica, quando o problema foi deixar os Diabos Vermelhos abrirem caminho muito cedo. Também é preciso ponderar que a ausência de jogadores importantes privou um pouco o potencial da Seleção. Dá para imaginar mais consistência com um Daniel Alves presente, com um Renato Augusto ou um Douglas Costa inteiros. Copa é momento e não eram todas as peças que chegavam em seu melhor, do ponto de vista físico mesmo.

A Copa América de 2019 surgiu num período em que era necessária renovação, ao menos pontual. Alguns jogadores mais velhos abriam alas a novatos e era preciso pensar num ciclo mais longo. Aquela campanha serviu para a Seleção criar esperanças a partir de quem surgia. Foi importante conquistar o título sem Neymar, em específico, até para compartilhar responsabilidades. Alguns jovens aproveitaram bem a ocasião, como a revelação Everton Cebolinha e Gabriel Jesus, recuperando parte de seu prestígio após as críticas em 2018. Dava para imaginar o desenvolvimento de algo melhor. Mas não aconteceu.

Coletivamente, o Brasil deu alguns passos para trás nestes últimos anos. E aí não dá para colocar exatamente na conta de Tite, por mais que o treinador tenha deixado a desejar na organização da equipe durante esta final, em mudanças que não surtiram efeito. A questão é que muitas dessas peças certas para o encaixe não existem mais e muitos dos novatos não desabrocharam. O meio-campo careceu de um funcionamento constante ao longo do torneio, mais ofensivo. O ataque também viu diversos jovens atuando muito abaixo daquilo que poderiam fazer e a perda de Gabriel Jesus teve seu peso. Os laterais não são os figurões de outros tempos. E isso tudo contando com uma das melhores versões de Neymar na equipe nacional, talvez a mais madura em seu jogo, pela maneira como abrilhantou os melhores momentos do time e bateu no peito durante os piores. A solidez defensiva por si não basta para transmitir segurança.

É preciso ponderar que os últimos meses dificultaram um trabalho contínuo dentro da Seleção. A pandemia cancelou os compromissos internacionais e a equipe ficou um bom tempo sem jogar. Mas o Brasil até contou com jogadores que cresceram no período. Coletivamente, era de se imaginar que o mês junto afinaria os tons. Mas esta Copa América foi de oscilações, a uma equipe que teve tempos muito bons ao longo da competição e outros tomando um sufoco que parecia desnecessário. Já na final, contra uma Argentina que abriu o placar cedo e se conteve à defesa (no que fez bem), as dificuldades se tornaram maiores e a derrota é compreensível.

Tite muitas vezes conseguiu mudar os jogos nesta Copa América e é por isso que o segundo tempo do Brasil quase sempre foi melhor que o primeiro. Contra a Argentina, suas escolhas não surtiram efeito. Pelo contrário, a equipe não apresentou uma estrutura para construir a vitória. Teve seus curtos estalos e até forçaria boas defesas de Emiliano Martínez, mas era impressionante como o passe final não saía. Os argentinos cortaram as linhas de abastecimento do ataque, com faltas e boas ações defensivas, e deixaram um clarão de ideias entre os brasileiros. O jogo não fluiu, e isso com Neymar chamando para si várias vezes.

Outro ponto é a maneira como a decisão contra a Argentina parecia um fardo. Os jogadores tiveram sua parcela de razão pelo incômodo diante da maneira como a CBF trouxe a Copa América ao Brasil e ficaram expostos. Porém, eles também se expuseram. Um posicionamento ou o não-posicionamento posicionado, como fizeram, gerou discussões além. Isso pareceu ter ficado na fase de grupos, mas o elenco também criou uma carga a mais quando explicitou a insatisfação com a falta de unanimidade ao seu redor. Isso pareceu criar mais obrigações ao time, a partir do momento em que se sentiam compelidos a dar uma resposta.

Disputar uma competição dentro de casa, é claro, aumenta o peso sobre os ombros. A Copa de 2014 é um enorme retrato disso, com alguns remanescentes daquele torneio cambaleante e tenso. Mas a Copa América não deveria ser assim, considerando o próprio histórico do Brasil e a maneira como uma derrota dessa vez nem parecia um problema, pela forma como o time domina o torneio desde 1997. Entretanto, havia uma cobrança além, que os próprios jogadores trouxeram para si, e nem todos atuaram com a leveza necessária. Mesmo que o Brasil tivesse um grupo de trabalho mais antigo que o argentino, certa dose de nervosismo ficou evidente. Não se reproduziu a superioridade quando necessário, até por falta de calma.

A Copa América não deve ser vista como um cenário de terra arrasada, como se tudo estivesse ruim. Porém, não foi uma boa competição para o Brasil. A Seleção sofreu em seus maiores desafios, correu riscos em todas as fases eliminatórias. A derrota não surpreende. E a impressão é de que mais alternativas podem ser tentadas, em especial na etapa de construção, para que a dependência de Neymar não se torne tão grande. Se muita gente acha que o craque é sobrecarregado no Paris Saint-Germain, essa Copa América mostrou como dá para ser pior. E a maneira como muitos companheiros pareciam limitados a servir o camisa 10 tirou recursos.

Dentre os destaques individuais, obviamente, Neymar foi o maior. Teve um de seus melhores desempenhos pela Seleção, não apenas porque trouxe o jogo para si, mas também por aliviar a barra aos companheiros várias vezes. Casemiro é o outro protagonista desse time e manteve o alto nível, mesmo sem ser ele o cara capaz a destravar a final. Paquetá teve seus momentos e sai em alta para compor o grupo, não necessariamente para ser uma grande figura. Ederson aproveitou a ocasião para assumir a titularidade, com alguns bons jogos. Mas, de resto, faltou um conjunto que rendesse mais.

As Eliminatórias da Copa costumam trazer bons desafios. A facilidade com que o Brasil domina a competição gera um desdém desnecessário em quem vê de fora, e o aproveitamento absurdo deveria ser mais valorizado. Mas a impressão é que, se a Seleção garante as vitórias no qualificatório, não necessariamente demonstra uma evolução. Faltam mais sinais positivos na forma de jogo, mesmo com isso sendo testado. E falta até um intercâmbio maior com adversários de outros continentes, o que amistosos poderão providenciar, por mais que o calendário seja bem apertado rumo à Copa de 2022. Perder a Copa América não é de todo ruim, pensando que esse torneio seria pouco valorizado diante do histórico recente dos brasileiros e da obrigação que é a Copa do Mundo. Ele deixa lições do que é possível trabalhar e melhorar. Tite ainda é um técnico capaz disso, mesmo que por vezes se perca em certezas que perdem a validade com o tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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