Copa América


Se foi um presente de despedida, Nikão deu o melhor possível à torcida que sempre o terá como ídolo

O meia-atacante de 29 anos anotou um golaço para dar o título da Copa Sul-Americana ao Furacão, a meses do fim do seu contrato e sem perspectiva de renová-lo

“Eu penso diariamente nesse jogo”, disse Nikão, à Conmebol, antes da final da Copa Sul-Americana neste sábado. “Porque realmente mexe comigo, com meus sentimentos. São sete anos construindo uma história aqui dentro, e o que eu puder para dar esse título para esta instituição, para esta torcida, pode ter certeza que eu vou fazer”.

Aos 28 minutos do primeiro tempo no Estádio Centenário de Montevidéu, David Terans bateu forte pelo lado esquerdo. Cleiton defendeu, mas o rebote se dirigiu a Nikão, e o que ele fez para dar o título para esta instituição, para esta torcida, foi emendar um lindo voleio que ainda tocou no pé da trave antes de se transformar no único gol da vitória do Athletico Paranaense por 1 a 0 sobre o Red Bull Bragantino.

Uma partida com poucas oportunidades para os dois lados, em que o Furacão foi campeão principalmente pela excelência defensiva, foi decidida por um golaço de um jogador que surgiu como grande promessa, rodou o Brasil sem conseguir se encontrar, precisou batalhar contra problemas pessoais e desde 2015 se coloca como um dos maiores ídolos do Atletico Paranaense. E mais: no momento em que parece prestes a ir embora.

Nikão mal conheceu o pai. A mãe morreu quando tinha oito anos. A avó, responsável pela sua criação, aos 16. E depois o irmão também se foi. Acostumou-se com a tragédia na época em que deveria estar se preparando para a vida adulta. Wanilton César Silva, o Cesinha, foi quem o descobriu e o levou às categorias de base do Mirassol. Fez testes no exterior, passou pela base do Palmeiras, profissionalizou-se pelo Atlético Mineiro.

Embora talentoso, não conseguia parar de beber. Abriu o coração de uma maneira muito franca em um depoimento ao UOL sobre como o alcoolismo atrapalhou a sua carreira. “Quando eu cheguei ao Athletico, em 2015, tiveram que apagar a postagem da minha contratação, tamanha foi a repercussão negativa”, disse. “Eu estava desacreditado, acima do peso e precisava mudar muita coisa na minha vida, principalmente minha conduta como homem, como pessoa, como atleta”.

Muita bebida e muita mulher, diz ele, foram seus principais problemas. Passava noites em claro para exercer seus vícios e isso lhe custava intensidade nos treinos e nas partidas. E ele precisa dessa intensidade para mostrar o talento que sempre pareceu ter. “Um certo dia, eu consegui parar e falar: a partir de hoje, nunca mais coloco álcool na boca. Isso aconteceu há sete anos”, contou.

Nikão foi uma aposta do Athletico Paranaense. O clube costuma mesmo fazer algumas. Não tem tantos recursos e, se conseguir contratar um jogador como Nikão na baixa, recuperá-lo e desenvolvê-lo, pode colher frutos técnicos e financeiros. A estratégia deu certo aqui. Izabela Luz Sampaio da Cruz, casada com ele desde fevereiro de 2015, contou toda a trajetória que o jogador percorreu para colocar a cabeça no lugar e finalmente se firmar como a promessa que sempre foi, em entrevista à Gazeta do Povo, incluindo brigas, desaparecimentos e a ajuda de uma pastora evangélica.

O primeiro destaque em campo pelo Furacão foi no Torneio da Morte do Campeonato Paranaense de 2015. Marcou uma vez e deu duas assistências contra o Nacional para ajudar a salvar o time sub-23 do rebaixamento. A sua vida fora de campo ainda estava atribulada naquela época. Melhoraria apenas a partir do segundo semestre. Nikão passaria a empilhar títulos: o Paranaense de 2016, a Sul-Americana de 2018, a Copa do Brasil de 2019. Sempre como uma referência técnica. Sempre como um líder.

Agora, a história parece estar chegando ao fim. Seu contrato termina ao fim do ano. O diretor de futebol do Athletico Paranaense, Paulo Autuori, afirmou esta semana que a vontade de Nikão é “sair, inclusive do Brasil” e acha que será difícil que permaneça. O jogador admitiu no depoimento ao UOL que tem essa vontade de jogar no exterior. Conhecer outra cultura, fazer seu pé de meia. Também prometeu que, depois das finais (o Furacão também decidirá a Copa do Brasil), sentará com Mario Celso Petraglia para “ver o que é melhor para os dois lados”.

E se o melhor for uma saída, Nikão pelo menos deixou um presente de despedida que simplesmente não poderia ter sido melhor.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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