Itália

Eliminações na Europa são uma alerta, mas perspectiva do futebol italiano é boa para a próxima temporada

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A Champions League viveu seus últimos jogos das oitavas de final na última semana e confirmou uma notícia ruim para o futebol italiano: nenhum clube do país conseguiu chegar às quartas de final. Depois da Inter cair ainda na fase de grupos, no que foi o maior vexame entre os italianos da temporada, Atalanta, Juventus e Lazio foram eliminados já nas oitavas de final. Um alerta que certamente precisa ser avaliado pelos dirigentes, porque é só a sexta vez desde que 1992 que isso acontece (as outras foram nas temporadas 2000/01, 2001/02, 2008/09, 2013/14, 2015/16).  Apesar disso tudo, há uma boa perspectiva para o futebol italiano.

Antes, vamos falar sobre a decepção desta temporada. A Juventus é certamente a maior delas. O clube mais rico e mais talhado para a Champions League é a Velha Senhora e o adversário, o Porto, convenhamos, era um dos mais fracos entre todos. Ainda assim, os bianconeri fizeram dois jogos fracos, perderam fora de casa e sofreram em casa, quando acabaram vencendo, mas sofrendo dois gols (um deles na prorrogação) que eliminou o time pelos gols fora de casa.

A regra dos gols fora de casa na prorrogação é mesmo discutível, embora valha destacar este tuíte de Leonardo Bertozzi com um estudo que mostra que a influência disso no jogo é menor do que a impressão causada. Seja como for, o fato é que a Juventus foi mal em campo, mostrou muito menos do que se esperava e deixou evidente defeitos da equipe, como a dificuldade em criar jogadas e aproveitar Cristiano Ronaldo, seu craque no ataque. E apesar de ainda ser um dos melhores do mundo, Cristiano Ronaldo não é sempre capaz de carregar o time nas costas em dias que as coisas não funcionam.

Há o trabalho de Andrea Pirlo que é questionável, que faltam soluções ofensivas, especialmente, e com um setor de meio-campo que ainda é deficiente, com vários jogadores empilhados por contratações com salários altos, embora sem gasto com direitos esportivos. A campanha irregular na Serie A já demonstrava isso e talvez ser campeão da Champions League fosse difícil diante de times mais preparados, mas ainda assim, se esperava que a equipe ao menos superasse o Porto. A queda causa estragos que precisarão ser tratados em Turim.

Ainda assim, é um time que tem muito potencial não aproveitado. É verdade que nomes como Aaron Ramsey e Adrien Rabiot chegaram com grande expectativa e altos salários e não entregaram tudo que se esperava. Só que o elenco tem nomes como Dejan Kulusevski, que é promissor, além de Federico Chiesa, que rapidamente tem se tornado uma estrela do futebol italiano.

A defesa, de fato, está envelhecida, mas tem Matthjis De Ligt como um nome de potencial para muitos anos, assim como Merih Demiral. E Cristiano Ronaldo ainda tem entregado muitos gols, com uma grande temporada. A perspectiva para a próxima temporada pode ser boa com uma reformulação, mas será preciso que Pirlo comece a acertar mais – ou que venha um técnico que faça isso.

A Atalanta acabou prejudicada no primeiro jogo diante do Real Madrid com uma expulsão rigorosa do árbitro nos primeiros minutos e tentou competir. Apesar dos esforços, viu o Real Madrid se impor, especialmente no segundo jogo, controlar a eliminatória e vencer com até mais tranquilidade do que era esperado. À parte os primeiros minutos do jogo de volta, a Atalanta realmente conseguiu fazer pouco, jogou muito menos do que podia e foi eliminado sem nem ter passado perto da classificação em nenhum momento. Deixa a Champions League com a sensação que poderia ter feito mais.

Ainda assim, o time tem mostrado mais uma vez um grande futebol, tem renovado o time aos poucos e ainda vive uma temporada que perdeu um dos seus principais jogadores, Papu Gomez, que se desentendeu com o técnico Gian Piero Gasperini. Assim, apesar da eliminação da Dea ter sido doída, passa longe de ser um prenúncio de problemas pela frente.

A Lazio foi a que teve o desempenho pior entre os que chegaram às oitavas de final. Desde o primeiro jogo, a coisa degringolou. O Bayern, claro, era amplamente favorito no jogo e não se esperava que os comandados de Simone Inzaghi conseguissem eliminar os alemães. Ainda assim, se esperava alguma dose de competitividade. Afinal, é uma chance de se testar contra um dos melhores times do mundo. Olhando por essa perspectiva, a Lazio falhou feio. Não só foi goleada em casa, mas ainda perdeu fora, em um jogo que virou quase amistoso, já desde o começo. A incapacidade da Lazio de criar problemas ao time alemão foi um tanto assustadora.

A falta de competitividade nos confrontos da atual temporada preocupa. O que a Lazio mostrou indica uma distância maior do que se esperava, ainda que o adversário tenha sido muito duro, talvez o pior possível. Neste momento, os azuis celeste não são favoritos para uma das vagas na próxima edição da Champions e, para voltar na próxima edição, precisará melhorar muito.

Com tudo isso, a Inter, atual líder da Serie A, tem mostrado um ótimo futebol, muito eficiente na defesa, mas especialmente letal no ataque. Tem um time muito forte, que deve se manter em um ótimo nível para a próxima temporada. Mostrou competitividade que pode ser importante para o time chegar mais longe do que nas três últimas temporadas, quando caiu na fase de grupos. Com Romelu Lukaku, Lautaro Martínez e companhia atuando mais juntos e com mais entrosamento e confiança, o time deve ser um competidor melhor.

Tem também o Milan. A campanha na Serie A indica que estará na próxima Champions League, e esta é uma volta muito esperada. Os rossoneri certamente não voltam já como os favoritos que um dia já foram – campeões europeus pela última vez em 2007 -, mas tem jogado bom futebol e é um time extremamente jovem, dos mais jovens da Europa. O confronto com o Manchester United, um time que parece em um estágio até mais avançado, foi de igual para igual. A eliminação veio até com uma sensação que o time jogou mais que o adversário ao longo dos dois jogos.

Assim, a perspectiva é que haja muito mais futebol ali. Zlatan Ibrahimovic não está ficando mais jovem e o Milan sabe que precisa de um substituto para descansar o veterano sueco, mas o time é forte e tem mostrado capacidade de brigar. Pelo que apresenta em campo, a perspectiva para a temporada europeia é boa em 2021/22. Nomes que pareciam apostas arriscadas, como Simon Kjaer, trouxeram experiência importante ao time, assim como Fikayo Tomori ajudou a dar segurança à defesa como opção. É time construção que já faz mais nesta temporada do que era esperado.

Há ainda o bloco do meio, com times que podem fazer um bom papel na Liga Europa. O Sassuolo e o Verona, por exemplo, se mostraram equipes com boas ideias, variação tática e que são fruto de uma liga que tem mostrado equipes taticamente muito ricas. Além dos dois, ainda há Roma, Napoli e Lazio, que, neste momento, estão fora da zona da Champions League e disputam as vagas europeias. A Roma, aliás, é a única equipe italiana ainda viva em uma competição europeia nesta temporada, já que segue na Liga Europa.

O Campeonato Italiano tem dado bons sinais e tem sido um dos melhores na Europa. A variação de estilos de jogo tem clubes como o Cagliari, por exemplo, fazendo bons jogos, mesmo brigando contra o rebaixamento, assim como o Spezia.

Por isso, apontar os problemas de sempre do futebol italiano é insuficiente para explicar o que aconteceu em campo. Sim, os estádios são, via de regra, bastante defasados e este é um problema que precisará ser tratado para que os clubes consigam ter receita; sim, a burocracia italiana complica a modernização dos clubes, que passa pela administração, mas chega em estruturas; há uma questão sobre jovens italianos não terem tanto espaço quanto talvez merecessem. Tudo isso é verdade e os dirigentes têm responsabilidade em olhar para isso e lidar com esses problemas.

Apesar do resultado ruim nesta temporada, o indicativo é que o futebol italiano tem boas perspectivas. Há bons trabalhos em andamento, há uma liga que tem sido mais competitiva e retomando a vanguarda tática que teve em outros momentos para atrai a atenção. Há algo a ser visto no futebol italiano que as eliminações precoces nesta temporada talvez tenham mascarado.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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